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Conor McGregor: um cinturão em cada ombro e um filho nos braços

O irlandês conquistou o título do UFC na categoria peso-leve, que junta ao de peso-pluma, que venceu em dezembro. O extravagante e fala-barato McGregor é o primeiro lutador a deter dois títulos de categorias diferentes em simultâneo e prepara-se agora para uma batalha bem mais simpática: a da paternidade

Lídia Paralta Gomes

Um, dois: McGregor segura os símbolos dos dois títulos do UFC que estão agora nas suas mãos. É o primeiro lutador do UFC a conseguir tal feito.

Michael Reaves/Getty

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Aos 12 anos, Conor McGregor era um miúdo baixo e magrinho para a idade, que tremia cada vez que passava pelos matulões da escola em Tallaght, a sul de Dublin, capital da Irlanda. O kickboxing foi a fuga natural: sofria bullying e precisava de se defender. O sonho de ser futebolista do Manchester United acabou ali. Mais do que bom de pés, Conor, que mais tarde foi também campeão junior de boxe, era bom de pontapés.

Hoje, o rapaz que tinha medo dos colegas é a cara do UFC, o maior e mais lucrativo campeonato de artes marciais mistas do mundo - a organização foi comprada este ano pela WME-IMG por 4 mil milhões de dólares -, onde McGregor vai escrevendo história com a mesma rapidez e destreza do seu gancho de esquerda, o mesmo que na madrugada de domingo deitou ao chão Eddie Alvarez.

A vitória frente ao norte-americano tornou o irlandês de 28 anos no único lutador a deter de forma simultânea dois títulos de categorias diferentes do UFC. Depois de conquistar o cinturão de peso-pluma em dezembro, frente ao brasileiro José Aldo, num combate em que o trash-talk e os insultos fora do octógono duraram infinitamente mais do que a ação propriamente dita (Aldo aguentou 13 segundos antes de cair por KO), agora aviou Alvarez no peso-leve, em pleno Madison Square Garden de Nova Iorque. Alvarez, ainda assim, durou um bocadinho mais que Aldo: dois assaltos.

McGregor não é conhecido por ser exatamente o mais controlado ou humilde dos lutadores e logo que terminou o combate disparou para onde estava virado e em termos que aqui não podemos reproduzir. O vídeo abaixo mostra a versão que pode ser mostrada às criancinhas.

“Onde está o meu segundo cinturão? Eu rendo-vos milhões de dólares e vocês não me dão o meu cinturão?”, começou por exigir o irlandês na entrevista, em que deixa também recados à fila de lutadores que garantem serem capaz de o derrotar. “Eles não estão ao meu nível. É preciso ter tamanho, peso. De outra forma eu vou dar cabo de vocês todos”. Para terminar, aproveita para "pedir desculpa a absolutamente ninguém".

E como nestas coisas que, além de desporto, são um espetáculo, é preciso satisfazer os protagonistas. Por isso, seja feita a sua vontade. Os dois cinturões lá apareceram, mesmo que um deles tivesse de ser emprestado por Tyron Woodley, campeão no peso-médio e um dos tais que está na calha para combater McGregor. Escusado será dizer que Woodley não ficou muito satisfeito ao ver o seu cinturão em ombro alheio.

Esta foi a 21ª vitória de Conor McGregor em 24 combates no MMA, numa carreira que arrancou em 2008. Na altura, o irlandês que até já deu umas aulas a Cristiano Ronaldo deixou o emprego de canalizador para se dedicar aos combates e enquanto o sucesso não apareceu, precisou mesmo de ajuda estatal para se alimentar. Com tantas dificuldades, não é de estranhar que McGregor hoje não tenha pejo em mostrar a sua riqueza, ele que no último ano ganhou 20 milhões de euros entre prémios por combate e patrocínios.

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Nas redes sociais, é vê-lo a posar entre molhos de notas, a passear potentes carros ou a mostrar os seus fatos à medida que, o próprio admite, nunca custam menos de 5 mil dólares. Com um estilo de vida extravagante e corpo pintado de tatuagens, há quem lhe chame o Floyd Mayweather europeu. Num mundo cheio de testosterona, Mayweather e McGregor têm outra coisa em comum: ambos apoiaram publicamente o casamento entre homossexuais. McGregor fê-lo o ano passado, quando a profundamente católica Irlanda legalizou as uniões entre pessoas do mesmo sexo.

Mas, ao contrário do pugilista norte-americano, McGregor não podia ser mais certinho em casa. E no dia seguinte à vitória frente a Alvarez, anunciou que vai ser pai em março, fruto da relação de quase uma década com Dee Devlin. Mais que namorada, Devlin é uma espécie de conselheira de McGregor, que confiou à companheira a gestão da carreira. O efeito de Devlin em McGregor é tão apaziguador que a jovem admitiu que ambos viram o filme Bambi depois da vitória frente a José Aldo. Só para relaxar.

O durão que em tempos disse não ter rituais ou superstições porque isso são “formas de medo”, não podia estar mais assustado com a paternidade e, mais um vez, foi bem gráfico na hora de mostrar que lhe vai na cabeça: “Estou borrado de medo. Não sei o que fazer, porque não quero trazer o meu filho ao mundo no meio de toda esta confusão, não quero que isto se torne numa espécie de reality show de celebridades. Não quero que a minha familia passe por isso, só quero que este bebé seja feliz”.

Com a paternidade aí ao virar da esquina, McGregor diz que vai agora “tirar umas férias”. Mas não é só por causa da criança que vem a caminho ou do casamento de sonho que quer dar a Devlin: uma diva à sua maneira, o irlandês exige que os novos proprietários do UFC se reúnam com ele. Até porque McGregor quer ser mais do que uma figura do UFC: quer ter uma fatia da empresa. “Ainda não vieram falar comigo desde que a organização foi vendida. Há pessoas que compraram ações, onde é que está a minha parte? Estou a formar uma família e quero ser proprietário, conquistei o direito a isso”, exigiu “The Notorious”.

É assim possível que a próxima luta de Conor McGregor seja fora do octógono.

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