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Jogar râguebi... e ser gay. Aqui, o desporto é inclusivo

Numa altura em a lei permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a adoção de menores por casais homossexuais, e em que as lésbicas já podem aceder a tratamentos de fertilidade para engravidarem, continua a ser preciso promover um sítio 'seguro' onde os atletas não sejam discriminados pela sua orientação sexual

Carolina Reis (texto) e Tiago Miranda (fotos)

Tiago Miranda

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A homofobia ainda está presente no mundo do desporto. Seja nas bancadas ou nos campos de treino. Foi esse o mote que há sete anos justificou a criação dos Dark Horses, uma equipa de râguebi composta por atletas homossexuais, à semelhança do que já acontecia noutros países.

Hoje, os Dark Horses promovem o desporto inclusivo, para todos. Velhos, novos, em forma, em baixo de forma, homossexuais ou heterossexuais. São já uma associação desportiva, competem em torneios internacionais e a equipa original está no campeonato dos emergentes da modalidade.

“Somos, acima de tudo, uma equipa inclusiva. Não discriminamos. Temos uma componente e um pendor LGBT, mas extrapolamos isso. Temos, por exemplo, muita gente com idade mais avançada que, estando ainda ativa, não ia para outra equipa amadora por já ultrapassar o limite da idade. Também temos muitos expatriados porque temos os nomes das equipas em inglês”, explica à Tribuna Expresso Luis Rhodes Baião, o presidente Associação Desportiva Boys Just Wanna Have Fun Sports Club (BJWHF), responsável pela equipa Dark Horses.

A ideia nasceu no râguebi, mas depressa se multiplicou. Um ano depois, era formalizada a associação que criou novas modalidades inclusivas e, no ano passado, concorreu ao Orçamento Participativo da autarquia lisboeta.

Em 2011, nasceu a Lisbon Crows, hoje dividida em dois níveis, um para iniciados e outro para experientes. A natação veio em 2015, com a criação da Lisboa Poolboys Swim Team. O futebol, a corrida e o tango são as novas apostas. "Queremos jogar bem e de forma convivial, para isso o desporto tem de ser inclusivo", continua o presidente da Associação.

Tiago Miranda

E se o desporto é terreno fértil para todas as fobias e atos irracionais - " não se limita à homofobia, ainda há pouco tempo um jogador negro no futebol federado foi chamado de macaco", relembra Luís Rhodes Baião -, muitas vezes a discriminação vem da própria comunidade. "As pessoas são discriminadas por vários motivos, basta sair à rua para ver. Também nos cabe combater a homofobia internalizada, as ideias que as pessoas têm das suas próprias comunidades. A de que, por exemplo, homens gay seriam incapazes de se interessar por praticar râguebi", explica.

Apesar de se poder considerar que a BJWHF tem uma função de cárater ativista e de intervenção, a associação defende que o seu papel se limita a promover o desporto para todos. "Somos uma associação deportiva, queremos ir ao encontro do outro. Temos membros que são ativistas noutras associações, mas não faz sentido querermos fazer esse trabalho. O nosso trabalho está noutro sítio", frisa Luís Rhodes Baião.

Pode questionar-se se em 2016 ainda faz sentido frisar que o desporto deve ser para todos. Numa altura em a lei já permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a adoção de menores feita por casais homossexuais, e em que as lésbicas já podem aceder a tratamentos de fertilidade para engravidarem, continua a ser preciso promover um sítio 'seguro' onde os atletas não sejam discriminados pela sua orientação sexual.

"Sentem-se dias melhores, mas ainda há muito por fazer. Recentemente, descobriu-se que um hotel não aceitava determinados casais [um hotel do Minho recusou-se publicamente a aceitar casais do mesmo sexo]. Há preconceitos com o apoio à velhice, também. Falta fazer muito trabalho a nível da educação", conclui o presidente da BJWHF.

É por isso que o foco destas equipas é mostrar que são 'apenas' pessoas, iguais às outras. Pessoas que se associam a outras pessoas por razões casuísticas. Aqui, para jogar râguebi.