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O surf, os aliens e a pimenta: os pontos de discussão que sobram do fim de semana

O surf em que Portugal voltará a estar representado, um clássico espanhol que se reduz, mas não devia, a dois extraterrestres dos números, um senhor que animou o râguebi dos ingleses e a pimenta para o dérbi que aí vem. Este é o resumo do que se passou no fim de semana desportivo

Diogo Pombo

Alex Caparros

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O herdeiro de Saca chegou

Portugal é um com uma costa enorme, cheio de praias, ondas e com fama de ser um bom sítio para surfar e para os surfistas. Na Europa, não há território onde se encontre mais ondas boas, em praias viradas para pontos cardeais distintos - logo, à mercê de direções de vento e de ondulação diferentes - tão perto umas das outras. Mas, entre tanta coisa boa, apenas um homem tinha representado o país na competição que, todos os anos, junta os melhores surfistas do planeta.

Tiago Pires logrou essa façanha durante sete anos, quando entrou no circuito mundial de surf em 2008 e por lá se aguentou até 2014. Antes, durante e depois, ouvimo-lo contar o quão difícil é andar pelo mundo fora, conhecendo mais aviões e hotéis do que a própria casa, a viajar atrás de praias e ondas e dinheiro e pontos para continuar a viver o sonho. Quando ele saiu do circuito, a conversa passou a focar-se em quem, entre os jovens surfistas portugueses, lhe poderia suceder um dia. Agora sabemos que esse sucessor era Frederico Morais.

Há mais ou menos duas semanas, o surfista de Cascais nem estava entre os 30 primeiros do ranking de qualificação para esse tal circuito. Apanhou um avião para o Havai, onde se iam realizar as duas últimas provas da Qualification Series, e deu um pulo valente. O português, de 24 anos, terminou em segundo lugar em ambos os eventos, amealhou 16 mil pontos e, na madrugada desta segunda-feira, ficámos a saber que fez o suficiente para ser vice-campeão do circuito de qualificação. Ou seja, em 2017, voltaremos a ter um representante no circuito mundial de surf.

O que pode ser um incentivo para que marcas, empresas e grupos fora do mundo do surf português, que ainda é pequeno, comecem a apoiar (com dinheiro) quem se dedica a tentar entrar nesta elite à qual Frederico chegou. Porque as provas que rendem mais pontos estão em locais distantes e remotos, que custam muitos euros e esforço para alcançar.

Kelly Cestari

Como não reduzir um jogo a dois homens

É tão certo quanto haver um dia de chuva que, algures no inverno, nos prende em casa. Pelo menos duas vezes por época, os dois maiores clubes de Espanha, que se tornaram rivais por serem os que mais títulos, adeptos e craques têm, defrontam-se. E, por cada clube ter um de dois futebolistas que mais golos marcam, mais Bolas de Ouro têm em casa e, por conseguinte, mais discussão e debate mediático geram. Como já devem ter percebido, isto vai dar a Cristiano Ronaldo e Lionel Messi.

Uma vez mais, o El Clássico foi reduzido a um confronto entre dois extraterrestres das estatísticas que, há anos, nos gracejam por a sua presença em relvados humanos. Eles marcam e goleiam e resolvem e ninguém os bate nos números. Como as marcas os querem vender e os jornais em Espanha sabem que os adeptos vão na conversa, não se fala em outra coisa. E, de repente, uma partida cheia de humanos que trabalham para os dois extraterrestres brilharem são reduzidos a figurantes.

Como Luka Modric, o médio do Real que não falha nada do que tenta fazer. Andrés Iniesta, o tipo que nos faz acreditar que o futebol é um jogo fácil de ser jogado. Sérgio Ramos, o central que faz esquecer as trapalhadas que comete na sua principal função, que é defender, com os golos com que vai decidindo jogos. Ou Neymar, um dos humanos com mais tiques alienígenas pela forma como se locomove tão rápido com uma bola no pé. São homens como estes que dão espetáculo a um jogo dos grandes, como vimos este sábado.

Alex Caparros

Um homem está a ressuscitar o râguebi inglês

Há pouco mais de um ano, o râguebi voltou a casa. A Inglaterra acolheu o Mundial e as pessoas por lá rejubilavam, porque a modalidade oval regressava à terra onde nasceu. Mas o retorno correu tão mal que a seleção inglesa se tornou na primeira anfitriã, da história, a ser eliminada na fase de grupos. Foi um escândalo para eles. Durante duas semanas não se falou em outra coisa até a federação escolher Eddie Jones, um australiano, como novo seleccionador. E foi do dia para a noite.

O homem andou a combinar chás com tudo quanto era jogador selecionável, apontou um novo capitão (Dylan Hartley), que era um tipo duro de roer que era expulso em éne jogos e apanhado em vários desacatos fora do campo, e começou a falar em transformar aquela gente toda nos melhores do mundo. Puxou por uma mentalidade. Primeiro, venceu o torneio das Seis Nações em 2016. Depois, foi à Austrália vencer três jogos contra a seleção dos cangurus. E voltou a ganhar-lhes este sábado (37-21), confirmando um feito que os ingleses não logravam desde 1992 - fechar um ano civil sem derrotas.

Agora, claro que apenas lhes resta vencer a Nova Zelândia, a toda-poderosa equipa que notícia é se não mandar no râguebi mundial. Os ingleses já estão no segunda lugar do ranking mundial e a questão agora é quando irão defrontar os All Blacks, pois os calendários são rígidos e não permitem que se marquem jogos particulares só porque sim. O próximo desafio é outro torneio das Seis Nações, que arranca em fevereiro. E Eddie Jones já avisou: “Quem não continuar a este nível vai sair da equipa”.

David Rogers

O clássico que ganhou interesse

Um jogo entre Benfica e Sporting, com o primeiro a receber o segundo, tem sempre importância. Mas há coisas que a podem engrandecer, coisas como os pontos entre as duas equipas (se forem poucos) e o bate-papo entre quem trabalha de cada lado (se for muito). A derrota encarnada (2-1) na Madeira e a vitória leonina em Alvalade (2-0) aproximaram os rivais, reduzindo para dois os pontos que os separam num campeonato em que o Benfica já parecia embalar para uma velocidade de cruzeiro.

No fundo, aconteceu mais ou menos o contrário do que vimos a época passada, quando o Sporting se deixou empatar em Guimarães e recebeu o Benfica com apenas um ponto de vantagem para o dérbi que acabaria por perder. Essa partida, contudo, foi à 25.ª jornada e numa altura em que o campeonato estava em alturas de ser decidido. Agora, os rivais de Lisboa defrontam-se à 13.ª jornada, quando resta mais de metade da liga por jogar.

Não é a mesma coisa. Mas trocar de líder do campeonato antes do Natal - e deixar aproximar o terceiro classificado - é sempre algo que vai apimentar mais as coisas. E isso é bom.

AFP