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A volta que Sara Moreira não contou

Em março, a atleta do Sporting enganou-se nas contas e julgou ter vencido o Nacional de corta-mato quando ainda lhe faltava uma volta ao percurso. Chorou depois de ter celebrado e nem terminou a prova. A Tribuna Expresso apresenta-lhe o primeiro dos 10 acontecimentos desportivos de 2016 que mais vale esquecer em 2017

Diogo Pombo

Dean Mouhtaropoulos

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É uma atitude típica na cabeça quem corre.

Na altura em que já só se sente o corpo por causa das dores, pelo cansaço nos músculos e pelo sofrimento, ver a meta é um alívio. Ser a primeira pessoa a cruzá-la significa ser quem correu mais rápido, aguentou melhor o desgaste, lutou mais e foi mais amigo dos sacrifícios que fez até chegar aquele momento. Um pouco de tudo isto, imaginamos, terá ocupado a mente de Sara Moreira quando ela avistou a meta, ao longe, na final do Nacional de corta-mato.

Na cabeça de Sara, que estava em primeiro, como estivera durante muitos dos 10.070 metros de corrida, ela estava prestes a ganhar. Sintoma disso mesmo, levanta os braços quando está a metros de cruzar a meta. Começa a rasgar um sorriso que é tão de felicidade como de alívio, por estar quase a vencer a prova que já terminara, por quatro vezes, em segundo lugar. Aos 30 anos, finalmente, ia ganhá-la. Mas os festejos, os braços no ar, a felicidade, o êxtase e tudo mais que estaria a sentir são interrompidos.

Os juízes da prova urgem-se a dizer-lhe que ainda não ganhou.

Sara Moreira conta mal as voltas que dá ao percurso. Diz que, na última passagem pela meta, ouve o som da sineta que avisa quem corre que só tem de dobrar o percurso mais uma vez. A atleta engana-se e, quando se apercebe do engano, já está parada e sentada e com o festejo feito. A desilusão é tanta que chora, muito, e as lágrimas não a deixam voltar a correr. Está no chão, cabeça entre as pernas, não pára de chorar.

A atleta do Sporting desiste e a vitória que julgava ser sua - e era dela, caso não se tivesse enganado - vai para Salomé Rocha, do Benfica. Sara Moreira desiste e o insólito fica maior, porque não termina a prova. “Na volta anterior, quando passei pelo local da meta, ouvi tocar a sineta e pensei que estava a entrar para a última volta. E uma volta depois festejei a vitória. Só me avisaram de que teria que fazer mais uma quando já estava sentada”, diz, a quente e logo após a prova, quando ainda está “desolada” por ter “a certeza de que seria finalmente campeã”.

Mais tarde, mais a frio e já com a cabeça ocupada por ter pensado sobre tudo o que aconteceu, escreve no Facebook. Refere-se a um erro, não dela, mas da organização, que “embora desmentido, aconteceu”. Realça que não pretende “alimentar polémicas nem confusões”. No dia seguinte, Jorge Vieira, presidente da Federação Portuguesa de Atletismo (FPA), contradiz a atleta, explicando que “não houve um erro de ajuizamento, mas sim um erro de cálculo da própria Sara, que calculou mal as voltas que lhe faltava correr”.

Outro dia passa e Sara Moreira, ainda mais a frio e depois de “horas particularmente difíceis”, reconhece que procurou “explicações onde não existiam” e agradece aos juízes que colocou em causa e de quem duvidou. “Mesmo eu tendo colocado de forma inadvertida o seu trabalho em causa, mostraram sempre uma postura correcta e profissional”, explica, lembrando que já não faltava muito tempo para o Rio de Janeiro e os Jogos Olímpicos em que ia correr - onde desistiu a meio da maratona, devido a uma fratura de stress.

A portuguesa não chegou a ver a meta, como lhe acontecera no Nacional de corta-mato. Entre a polémica que veio com o engano e com as culpas, o líder da FPA chegou a dizer que “devemos aceitar que os campeões se fazem precisamente através do erro”. E, no meio destas duas prova,s houve uma outra em que Sara Moreira viu a meta e foi a primeira a cruzá-la, em Amesterdão, onde foi campeã europeia da meia-maratona, em julho.

Esse é que foi o evento para não esquecer.

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