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O que significa o doping na Rússia (outra coisa que gostaríamos de esquecer)

Mesmo que já houvesse indícios, em janeiro passámos a ter provas do esquema de encobrimento do doping em atletas russos. Em julho, descobrimos como o governo e até os serviços secretos do país estavam envolvidos no escândalo. A Tribuna Expresso apresenta-lhe o nono dos 10 acontecimentos desportivos de 2016 que mais vale esquecer em 2017

Diogo Pombo

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Martin Dubbey foi o investigador-chefe no relatório que a Agência Internacional de Anti-Doping (WADA) publicou, em julho, a denunciar o esquema - que envolvia IAAF, o governo russo, o Ministério do Desporto e até os serviços secretos - para encobrir o doping de atletas russos

ADRIAN DENNIS

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Ouvir e ver uma mulher, viesse ela de onde viesse, a dizer com o ar mais rotineiro deste mundo, que, de onde ela vem, a “grande maioria” e “99%” dos atletas cometem doping, é estranho. Primeiro, porque ela própria, Yevgeniya Pecherina, é uma atleta. Segundo, pelo facto de ser nascido na Rússia. E, terceiro, por assegurar tal coisa no documentário emitido pela ARD, uma estação de televisão alemã, em que aparece muita gente, entre outros atletas e pessoas ligadas ao atletismo russo, a garantir o mesmo.

Estávamos em 2014 quando a ouvimos e vimos a dizer isto.

Era um escândalo, uma espécie de abre-olhos para uma cultura de ser melhor a qualquer custo, uma forma de fazer as coisas que usava qualquer meio para atingir sempre o mesmo fim, ganhar medalhas. Para cada homem ou mulher russo que representava a federação de atletismo do país, o esquema era mais ou menos este - tomava substâncias prescritas por médicos da entidade, treinava e competia e, quando chegasse a altura dos testes anti-doping, pagava ao chefe do departamento médico da federação para que acusasse algo de proibido. Quem não quisesse, era cortado.

Mas apenas caso fosse um atleta jovem e promissor, ou alguém já com resultados e medalhas suficientes para criar ruído na imprensa do resto do mundo. Resumindo, a Agência Anti-Doping da Rússia (RUSADA), uma entidade estatal, sabia que o esquema afetava quase todos e encobria só quem lhe interessava.

E sabemos disto e de muito mais porque, em janeiro de 2016, a Agência Internacional de Anti-Doping (WADA) publicou um relatório a denunciar tudo. Aí soubemos que vários dirigentes na Federação Internacional de Associações de Atletismo (IAAF) tinha ajudado a encobrir e manipular os passaportes biológicos - um registo dos exames sanguíneos - de vários atletas russos. Como o de Liliya Shobukhova, vencedora da maratona de Londres, em 2010, que pagou cerca de 450 mil euros para que responsáveis do atletismo russo encobrirem o seu doping.

Mas, depois de ser punida, suspensa e de lhe serem anulados os resultados entre 2009 e 2015, Shobukhova chegou-se à frente. A russa foi uma das principais delatoras na investigação do WADA que resultou na suspensão de vários dirigentes do IAAF, incluindo Lamine Diack, o presidente. “Se alguém se está a dopar, deveria ser punido em definitivo e de forma apropriada, porque isso destrói a ideia de competição justa”, dizia, na altura, Vladimir Putin, o presidente russo que, meses volvidos, mudaria de discurso.

Em julho, a agência internacional de anti-doping publicou um outro relatório, que mostrou como, entre 2011 e 2015, pelo menos 643 testes positivos foram encobertos pelo governo russo, o Ministério do Desporto e até pelos serviços secretos (FSB) do país. E deixou uma recomendação - banir a Rússia de participar nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. “Não aceitamos o que, de facto, é pura discriminação. Acho que os nossos colegas de outros países entendem, mesmo que não falem abertamente sobre isso, que a qualidade das medalhas que vençam [nos Jogos] será diferente”, criticou Putin.

O Comité Olímpico Internacional rejeitou afastar a Rússia dos Jogos e, ao invés, criou um novo comité, com a função de avaliar, individualmente, os atletas apurados para o maior evento desportivo do planeta. Dos 389 atletas que a federação russa submeteu, 111 foram não foram aceites, por estarem implicados nos escândalo. Mesmo assim, em dezembro, foi retirada a Misha Aloya, uma pugilista, a medalha de prata que conquistara na categoria de 52 quilos, por acusar positivo num teste realizado a meio dos Jogos Olímpicos.

Antes do Rio de Janeiro, mas no meio de toda esta polémica, até Maria Sharapova, vencedora de cinco torneios do Grand Slam, revelava, em março, que acusara uma substância proibida num teste anti-doping no Open da Austrália.

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