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O último adeus a Ali, o "maior, mais ousado e mais bonito"

Muhammad Ali venceu todas as batalhas, menos aquela que travou durante mais de 30 anos contra a doença de Parkinson. A 3 de junho, o maior e mais icónico pugilista da história (ele próprio assim se denominava), o homem que foi muito mais do que as glórias conquistadas no ringue, partia para outro mundo. Mas a lenda, essa, ficará para sempre. A Tribuna Expresso apresenta-lhe o último dos 10 acontecimentos desportivos de 2016 que mais vale esquecer em 2017

Lídia Paralta Gomes

Getty

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Ele próprio o dizia: era “o maior, o mais ousado e o mais bonito” pugilista da história. Era o homem que se movia como uma borboleta mas picava como uma abelha. Só a doença de Parkinson o parou.

Estávamos a 3 de junho deste ano quando lemos o curto comunicado. “Depois de 32 anos de luta contra a doença de Parkinson, Muhammad Ali morreu aos 74 anos. O três vezes campeão mundial de pesos pesados deixou-nos esta noite”. Linhas tão curtas parecem não fazer jus ao homem, ao atleta, ao ativista Muhammad Ali, o primeiro pugilista a vencer três títulos mundiais de pesos pesados, o atleta que se levantou contra o racismo, que se revoltou contra a Guerra do Vietname. Uma figura que caminhou lado a lado com a própria história dos Estados Unidos.

“The Greatest” partiu depois de vários dias a lutar contra complicações respiratórias num hospital de Scottsdale, no estado do Arizona. Há muito que o Parkinson tinha afastado Ali da vida pública: a doença neurológica foi-lhe roubando a destreza física e também do discurso, o mesmo que fez dele mais do que um atleta, um ícone popular. O funeral levou milhares às ruas da sua Louisville natal: um mar sem fim de gente acompanhou o cortejo fúnebre e mais de 25 mil pessoas assistiram à cerimónia, que decorreu no principal pavilhão da cidade, com discursos de brancos, negros, muçulmanos, católicos, judeus, todos unidos pela verdadeira luta de Ali: a pelos direitos civis.

Reza a lenda que o boxe chegou à vida do jovem Cassius Clay, criado num estado do Kentucky profundamente racista, aos 12 anos, quando viu a sua bicicleta roubada e prometeu vingança. Joe E. Martin, polícia e professor de boxe, viu o miúdo a chorar e aconselhou-o a aprender a combater primeiro. Clay estreou-se como amador em 1954 e seis anos depois sagrou-se campeão olímpico em Roma. Depois do ouro, tornou-se profissional e em 1964 ganharia o primeiro título mundial, frente a Sonny Liston, em Miami, não se atemorizando nunca com a ficha criminal de Liston, que incluía ligações à máfia. Clay tinha 22 anos e as suas pernas dançavam num ringue como um bailarino em pleno palco.

Pouco depois, converteu-se ao Islão e tornou-se Muhammad Ali, deixando para trás o Cassius Clay que dizia ser o seu “nome de escravo”. Começou aí a batalha pelos direitos civis. Além da luta pela igualdade racial, Ali recusou servir na Guerra do Vietname e a atitude anti-sistema saiu-lhe cara: foi detido e condenado por fugir ao serviço militar. Foram-lhe retirados os títulos mundiais e durante quase quatro anos, Ali ficou longe dos ringues, até o Supremo Tribunal dos Estados Unidos reverter a condenação, em 1971.

Durante o período de inatividade, foi uma voz ativa pelo fim da guerra e pela justiça racial, ele que durante a infância sofreu na pele a humilhação da América segregacionista. Presença habitual em debates e palestras em universidades, denunciou a hipocrisia de um país que não respeitava os mais básicos direitos da população negra, mas que a obrigava a combater uma guerra em nome da bandeira norte-americana, a milhares de quilómetros de distância. Foi também durante a suspensão que se estreou nos musicais da Broadway.

Milhares prestaram uma última homenagem a Ali nas ruas da sua Louisville natal

Milhares prestaram uma última homenagem a Ali nas ruas da sua Louisville natal

John Moore/Getty

De volta aos ringues, Ali perdeu pela primeira vez enquanto profissional no “Combate do Século”, frente a Joe Frazier, num Madison Square Garden completamente cheio. Mas voltaria a arrecadar o título mundial em 1974, ao bater George Foreman por KO, perante 60 mil pessoas, em Kinshasa, no então Zaire. Um evento precedido por um festival de música de três dias, com a presença de, por exemplo, James Brown e B.B. King. Pelo meio, o mundo parou para o “Thrilla in Manila”, o últimos dos combates com Joe Frazier, que ganharia por KO técnico. Ali haveria de perder o título em fevereiro de 1978, para Leon Spins, mas recuperou-o meio ano depois. Retirou-se definitivamente em 1981, a um mês de completar 40 anos. O diagnóstico de Parkinson surgiria pouco tempo depois.

As três décadas seguintes seriam dedicadas às causas humanitárias e à luta pelos direitos civis. Mesmo com a saúde a deteriorar-se, Muhammad Ali nunca deixou de ter um papel ativo e participou inclusivamente na libertação de reféns norte-americanos no Líbano e Iraque. Em 1996, ultrapassou as dificuldades de movimentos para acender a pira olímpica nos Jogos Olímpicos de Atlanta.

Nos últimos anos, Ali deixou praticamente de fazer aparições públicas, mas nunca ficou calado. Em dezembro de 2015 insurgiu-se contra as palavras de Donald Trump, então candidato presidencial, que prometeu barrar a entrada de muçulmanos nos Estados Unidos. “Nós, como muçulmanos, devemos enfrentar aqueles que querem usar o Islão para impor a sua agenda pessoal”, disse então o homem cujo legado vai muito para lá dos êxitos dentro do ringue.

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