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Let’s make football great again

O desporto preferido dos norte-americanos volta a ter este domingo (23h, Sport TV1) a final megalómana da Super Bowl, que retrata na perfeição a “nova” América de Trump: dividida, até no futebol americano

Mariana Cabral

Tom Brady

Jim Rogash/Getty Images

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Há duas maneiras de olhar para ele e para o seu boné vermelho com o lema (recuperado da campanha de Ronald Reagan em 1980) “vamos tornar a América grande outra vez”: ou é um milionário mimado, arrogante e batoteiro, que subverte o sistema para seu proveito e subiu na vida a aldrabar os outros, ou é apenas um self made man que chegou ao topo e faz impressão às elites que não gostam do seu estilo. Se pensou que ‘ele’ é Donald Trump, então pense novamente: ‘ele’ é Tom Brady, o quarterback mais odiado da NFL, que vai participar amanhã na sua sétima Super Bowl (já conquistou quatro) pelos New England Patriots, os grandes favoritos à vitória perante os Atlanta Falcons.

Brady é a personificação de uma Super Bowl que, este ano, está mais política do que desportiva, depois da eleição de Trump como Presidente dos EUA. “É incrível o que ele já conseguiu atingir. Ele liga-me de vez em quando e faz-me uns discursos motivacionais”, contou Brady sobre o “amigo” Donald há pouco mais de um ano, quando foi filmado com o tal boné no balneário dos Patriots. “Ele [Trump] enviou-mo através do RKK”, explicou.

RKK é Robert Kenneth Kraft, dono dos New England Patriots, outro amigo de Trump, tal como Bill Belichick, treinador da equipa. Trump é presença frequente nos jogos dos Patriots e recentemente aproveitou para desvalorizar o caso “deflagate”, em que Brady foi castigado pela NFL com quatro jogos de suspensão por alegadamente ter esvaziado as bolas na partida em que a equipa se qualificou para a Super Bowl 2015. “O comissário da NFL [que decidiu o castigo] é parvo. É um estúpido”, disse o Presidente, no seu estilo abrasivo.

Uma Lady na sala, uma louca no palco

Com tantas ligações a Trump, não é de admirar que a conferência de imprensa de antevisão da final tenha tido quase tantas perguntas sobre política como sobre desporto. Mas nenhum dos amigos quis alongar-se sobre Trump — e a própria NFL, quando divulgou a transcrição da conferência, retirou as referências ao Presidente. Silêncio, que se vai atirar uma bola. “Não falo sobre política. Só quero focar-me nos aspetos positivos do jogo”, disse Brady.

A outra conferência de imprensa em que se esperava um pouco mais de “drama” era a da cantora Lady Gaga, escolhida para atuar no intervalo. É que Gaga apoiou a candidatura de Hillary Clinton à presidência e foi uma das maiores críticas de Donald Trump, pelo que é provável que os 13 minutos que passará no palco do estádio NRG sejam tudo menos contidos. “O que posso dizer é que as posições que irei tomar no espetáculo são as que tenho tomado consistentemente ao longo da minha carreira. Acredito na inclusão, acredito no espírito da igualdade e acredito que este país é um país de amor, compaixão e generosidade. A minha atuação terá isso”, explicou Lady Gaga, não querendo confirmar se Beyoncé também estará presente, como deu a entender nas redes sociais. É que, no ano passado, a atuação de Beyoncé foi criticada pelo seu conteúdo político: teve uma homenagem aos Black Panthers, movimento civil que contribuiu para a afirmação dos direitos dos afro-americanos e que tinha uma ala revolucionária que defendia a luta armada.

“Não sei se conseguirei unir a América. Terão de perguntar à América quando a minha atuação acabar”, respondeu Lady Gaga quando questionada sobre o poder cultural da noite da Super Bowl, que pára o país — no ano passado foram mais de 111 milhões de norte-americanos (numa população — diversa... — de 320 milhões) a assistir ao jogo. É também por isso que os bilhetes para entrar no estádio NRG, em Houston — curiosamente, uma cidade que votou Hillary, num estado do sul (Texas) que é claramente pró-Trump — custam mais de €4 mil e apenas 30 segundos de um anúncio no intervalo do jogo custam €4,6 milhões, naquele que é o espaço televisivo mais caro dos EUA.

Ainda assim, não faltam marcas a querer marcar presença naqueles preciosos minutos de atenção, como a Budweiser, que vai apresentar um anúncio de 60 segundos com a história do fundador da marca, Adolphus Busch, que emigrou da Alemanha para os EUA. Se ainda não está a ver por que razão é que isto lhe parece familiar, é só acrescentar as bocas que o emigrante ouve quando chega: “Não pareces ser daqui; não te queremos aqui; vai para a tua terra”. Faz lembrar alguma política recente de algum Presidente de algum país?

E se lhe parece que os Falcons passam ao lado de todas estas questões políticas, pense outra vez. Apesar de estarem num estado tradicionalmente republicano — Georgia —, vêm da cidade de Atlanta, onde Hillary foi vencedora. E gostam pouco de Trump depois de o Presidente ter criticado o congressista local John Lewis e ter dito que aquela zona do país estava “a cair aos bocados [...] a arder e infestada de crimes”.

Democrata e judeu, o dono dos Falcons, Arthur Blank, teve isto a dizer sobre Trump: “O que faz deste um grande país é o facto de termos diversidade, inclusão e oportunidades para todos. Preocupa-me que queiramos construir muros — não apenas físicos, mas muros em que deixamos de ser o país que acolhe quem vem para cá viver os sonhos. Quando o Presidente diz ‘vamos tornar a América grande outra vez’... Foi isto que fez a América grande durante muitos anos.” Domingo, às 23h, Falcons vs. Trump ou Falcons vs. Patriots? Sim, é futebol. Mas vai ser difícil deixar a política de lado.

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