Tribuna Expresso

Perfil

Modalidades

Safiro, Daniel e a estrela de futebol que os matou

Porque é que, no verão de 2012, um milionário jogador de futebol americano matou a sangue frio dois emigrantes cabo-verdianos que não conhecia? ( Este artigo foi publicado originalmente na Revista E, em janeiro)

Alexandre Soares nos EUA

Partilhar

Acabou o churrasco, os convidados para o aniversário da filha de um amigo foram-se embora, e agora, perto da meia-noite, o grupo de rapazes decide prolongar a festa numa discoteca. Daniel Abreu, 29 anos, vive nos Estados Unidos há três anos e alinha de imediato. Safiro Furtado, um ano mais novo, que chegou ao país há apenas oito meses, hesita. Na ombreira da porta, a mãe diz-lhe que vá dormir. Já é tarde, as discotecas na América fecham cedo, não é como nas ilhas. Safiro entra em casa. O inverno em Massachusetts foi longo e acaba de trabalhar seis dias seguidos. Mas está com família e amigos que não vê há anos. A vida é boa. Sai de casa, entra no BMW do amigo, senta-se junto de Daniel, fecha a porta e diz adeus à mãe.

A dezenas de milhas de distância, Aaron Hernandez, de 23 anos, parte de Bristol, no Connecticut, com um amigo. O atleta anda a negociar mais cinco anos com os New England Patriots, a conhecida equipa de futebol americano, e está prestes a assinar um contrato de 40 milhões de dólares que inclui o maior bónus alguma vez pago a um jogador da sua posição. Esta noite é para celebrar.

São as primeiras horas de 16 de julho de 2012. Os dois carros seguem em velocidade para um mesmo ponto, uma discoteca em Boston chamada Cure Lounge. Na cabeça dos jovens, ganham forma pensamentos sobre um contrato de sonho, a iminente legalização no país depois de anos à espera, uma vida nova na América junto da família. Nunca a vida dos três jovens foi tão cheia, tão transbordante de promessas, e, no entanto, nunca esteve tão perto do fim.

A vida nas ilhas

Salvador Furtado recorda muitas vezes as conversas que tinha com o filho na cidade da Praia, na ilha de Santiago, Cabo Verde. Salvador é pai de outros dois rapazes e duas raparigas, mas Safiro era o seu melhor amigo. “Ele teve sempre muita vontade de ser homem”, lembra. “Queria ser um indivíduo responsável, com maturidade. Foi muito responsável desde pequenino.” Salvador separa-se da mulher quando o filho tem oito anos, mas continua próximo da família. Quando percebe a inteligência do pequeno, deposita nele o sonho que nunca chegara a cumprir — ser médico. Mas Safiro ainda é criança e tem outros planos. Quer jogar futebol. A família é do Benfica, por isso a sua única opção é jogar pelo Clube Desportivo Travadores, a afiliada local do clube de Lisboa. O jovem torna-se um bom guarda-redes e, durante algum tempo, todos acreditam que pode mesmo tornar-se profissional.

Anos depois, Salvador muda-se para os EUA. Numa visita às ilhas, traz vários pares de chuteiras para Safiro. Dias depois, notando que apenas resta um par, percebe que o filho deu os outros pares aos colegas de equipa. Passado algum tempo, a ex-mulher, Maria, segue o mesmo caminho e atravessa o oceano. “Foi um sacrifício muito grande, mas foi pelos meus filhos”, diz. “O meu filho era um garoto especial. Gostava de ir a escola, de matemática, de jogar futebol.”

Ainda adolescente, Safiro fica a viver com a irmã Safira, três anos mais velha. “Tínhamos uma grande ligação um com o outro”, lembra a jovem. “Ele foi sempre mais divertido, tinha mais amigos, era mais inteligente. Ele era melhor em tudo.” A irmã muda-se para São Tomé e Príncipe, para viver com o companheiro e pai da sua filha, e Safiro parte para a ilha da Boa Vista. Torna-se guia turístico e acaba a trabalhar num projeto de investigação de tartarugas.
Entretanto, a irmã divorcia-se e muda-se para os EUA, para viver junto da mãe. Cresce a curiosidade de Safiro sobre a vida do outro lado do Atlântico. Em telefonemas cada vez mais frequentes, diz que um dia irá ver como é a vida na América.

Nas ilhas, Safiro tem amigos em comum com Daniel Abreu. Os dois chegam a cruzar-se, mas não se tornam melhores amigos. Daniel e os irmãos são criados pela mãe em São Lourenço, na ilha do Fogo, e o pai, Ernesto, está sempre por perto. “A sua brincadeira preferida era os polícias e ladrões, e ele era sempre a autoridade”, conta. “Arranjava uns paus e começava a comandar os amigos. Ser polícia foi sempre o sonho dele.”

Ernesto lembra-se do cão rafeiro de que todos tinham medo e que apenas deixa Daniel aproximar-se; recorda o amor que o filho tem por crianças e dos rebuçados que compra para distribuir pelos meninos da rua; do miúdo que nunca para quieto, saltando do banco da escola para a bicicleta, para o campo de futebol, para a praia e de volta para a bicicleta. A família nunca passa fome, mas tem dificuldades, e Ernesto decide conseguir uma vida melhor para si e para os filhos. “Quando vives em Cabo Verde, a América está sempre muito presente”, explica. “Toda a gente tem um primo ou um familiar que vive lá. O Daniel era uma criança quando vim, mas teve sempre muita curiosidade.”

Daniel muda-se para a cidade da Praia para estudar, e é aí que conhece Safiro. Torna-se polícia e começa a ganhar um bom salário. No final de cada mês, envia dinheiro para a mãe, para ajudar a criar os irmãos mais novos. É isso que faz durante alguns anos, mas fala cada vez mais em emigrar. “Muito antes de ele me dizer, eu já suspeitava que ele vinha”, lembra o pai. “Depois ouve um dia em que ele me telefonou. Disse que tinha decidido vir para a América.”

O melhor da cidade

Do outro lado do oceano, na pequena cidade industrial de Bristol, no Connecticut, Aaron Hernandez nasce como filho d’O Rei. O pai, Dennis, filho de imigrantes de Porto Rico, ganhara a alcunha durante os anos em que fora um dos mais celebrados atletas da Universidade deste estado da Nova Inglaterra. Torna-se depois a maior influência na vida do filho, que na adolescência já bate recordes nacionais de futebol americano. “É o melhor atleta que esta cidade alguma vez produziu”, escreveu o jornalista Bob Montgomery no “Press”, o jornal da cidade. “Esteve aqui com o pai para ser entrevistado e nunca mostrou nenhuma postura de rua, apenas ‘sim, senhor’, ‘não, senhor’, e ‘obrigado’.”

Detenção. A fotografia de Aaron a sair da sua mansão, enquadrado por dois agentes, é transmitida pelas televisões, impressa nos jornais, replicada em todos os sites

Detenção. A fotografia de Aaron a sair da sua mansão, enquadrado por dois agentes, é transmitida pelas televisões, impressa nos jornais, replicada em todos os sites

Quando Dennis morre, devido a complicações durante uma cirurgia, muitos temem o que pode acontecer. Aaron, com 16 anos, era visto em más companhias e sabia-se que era o pai quem o mantinha na linha. “Toda a gente era próxima do meu pai, mas eu era o mais próximo”, disse Aaron ao jornal “USA Today” três anos mais tarde. “Quando aquilo aconteceu...Com quem é que devo falar? Com quem é que devo andar? Foi duro.”

A mãe, Terri, que já tinha declarado falência duas vezes e sido presa por um esquema de corrupção, torna a casar. O irmão, que está na universidade, tenta guiá-lo, escrevendo-lhe uma carta antes de todos os jogos. O jovem lê as cartas, que guarda nas meias durante os jogos, mas nunca responde.

Aaron dá-se cada vez mais com pequenos criminosos, ansiosos por estar na companhia de uma das estrelas da cidade. Dois dos seus amigos são Ernest Wallace e Carlos Ortiz, ambos mais velhos e com cadastro por pequenos crimes, que o começam a acompanhar para todo o lado.

Um ano mais tarde, com o estatuto de mais bem pontuado tight end (uma posição ofensiva) de todo o país, deixam-no terminar o ensino secundário mais cedo para se tornar atleta da Universidade da Florida. Quatro meses sobre a mudança, está num bar com colegas, incluindo o célebre Tim Tebow, quando esmurra um dos funcionários, arrebentando-lhe o tímpano. Escapa sem nada no cadastro. Testa depois positivo para marijuana e apanha apenas um jogo de suspensão.

Em três anos, a equipa vence o supercompetitivo campeonato nacional de futebol universitário por duas vezes. Aaron ganha o prémio John Mackey para melhor tight end da liga. Apesar da mudança de estado, as companhias de Bristol estão sempre presentes. Numa fotografia da altura, vê-se o atleta junto destes amigos, segurando uma arma, e usando vermelho, cor de um gangue da sua cidade natal.

Aaron decide saltar o último ano da universidade para se juntar à liga profissional, a National Football League (NFL). Apesar do sucesso no campo, um relatório psicológico, obrigatório antes das rondas de seleção, atribui-lhe a pontuação mais baixa no item “maturidade social” — 1, numa escala que vai de 1 a 10. O documento nota ainda que o atleta gosta de “viver no limite do que é comportamento aceitável”.

No dia da seleção, o jogador afunda nas várias rondas até que uma equipa decide arriscar no seu nome: os New England Patriots, treinados por Bill Belichick. Aaron tem 20 anos e vai jogar naquela que é considerada por muitos a melhor equipa do país. Na altura, o seu treinador do secundário diz a um jornal local que “sempre houve preocupações” quanto ao rumo do jogador. “Ele ainda se está a encontrar. Se tiver as pessoas certas à sua volta, e mantiver a cabeça no lugar, vai ter muito sucesso.”

Dor. As campas de Safiro e Daniel

Dor. As campas de Safiro e Daniel

Em Bristol, a sua mãe divorcia-se quando o novo marido a ataca com uma faca, cortando-a na bochecha, ombro e pulso. Os amigos continuam a envolver-se em problemas. Wallace, que começou a apresentar-se como assistente pessoal de Hernandez, vai para a prisão 120 dias por uma série de pequenos crimes. Carlos Ortiz vai sendo condenado por pequenos crimes, desde ameaças a agressão.

Na época de 2011-2012, Aaron joga ao lado de Rob Gronkowski. Juntos batem o recorde de maior distância percorrida, maior número de recepções e touchdowns. Apesar dos riscos, tudo indica que os Patriots fizeram uma boa aposta. Segundo a procuradoria do estado de Massachusetts, no entanto, Aaron começava a perder o controlo. Acredita que “está a ser testado ou desrespeitado” quando está em lugares públicos. Uma investigação da “Rolling Stone” garante que estaria a consumir pó de anjo, uma droga dissociativa que provoca comportamentos maníacos, e que carrega agora uma arma para todo o lado. Na primavera, os Patriots começam a preparação para a nova temporada, e Aaron falha vários treinos e sessões de fisioterapia. O treinador diz-lhe que se cometer mais um erro está fora da equipa.

A vida na América

Safiro aterra no Aeroporto Logan, em Boston, no início de dezembro de 2011. A mãe, a irmã e a sobrinha estão à sua espera. Há uma década que o jovem não vê a mãe. No abraço que partilham, está o rapaz que Safiro foi e o homem em que se tornou. “Estava a nevar, tudo muito branco”, lembra a mãe. “Ele nunca tinha visto neve. Como ficou feliz.”

O jovem fica a viver com a família num bairro de Boston chamado Dorchester. Com cerca de 53 mil cabo-verdianos, Massachusetts é o estado com mais cabo-verdianos nos EUA e este bairro, na zona sul da cidade, acolhe uma das maiores comunidades destes ilhéus. O bairro é de classe baixa, com uma grande população afro-americana, e pode ser perigoso, mas o conforto de restaurantes como o Laura e o Cesária estão a apenas 10 minutos a pé de clubes como o Unido, onde muitos se reúnem para conversar sobre a vida nas ilhas ou ver jogos de futebol.

Pela primeira vez numa década, Safiro passa o Natal com a família. “Mas a preocupação dele era arranjar trabalho”, lembra a mãe. “Não queria ser um peso para nós.” Acaba a trabalhar na empresa de limpezas de um tio, irmão de Maria, e é lá que reencontra Daniel, que conhecera anos antes na Praia. Os dois tornaram-se melhores amigos. “Eram da mesma idade e o Danny também tinha chegado recentemente. Tinham muito em comum”, lembra o pai de Daniel.

Os dias de trabalho começam às seis da manhã. São passados na carrinha do trabalho, indo de empresa em empresa, limpando escritórios e trabalhando na sua manutenção, torneiras que pingam, portas que deixam de abrir. O trabalho paga bem e podem fazê-lo sem estarem legais, mas os dias são longos e cansativos, e os rapazes têm outros sonhos.

Daniel já vive no país há três anos. Tem uma namorada, com quem se casou, mas ainda não vivem juntos. Gostam um do outro, sim, mas apressaram o casamento para que o jovem se pudesse tornar cidadão americano. “Ele estudara inglês desde o quinto ano, por isso tinha-se adaptado muito bem”, lembra o pai. “O objetivo dele era concorrer para a polícia assim que tivesse os papéis.”

Além de voltar ao antigo emprego, conta o pai, Daniel “tinha muitos projetos.” No seu quarto, na casa que dividia com o irmão, tem um poster do carro dos seus sonhos, um Chevrolet Camaro, vermelho. “Continuava igual a quando era criança, sempre de um lado para o outro. Depois do trabalho, ia correr, andava de bicicleta, jogava futebol com os amigos.”

Safiro começa a acompanhá-lo. Faz amigos. Na primavera, termina o prazo legal para ficar como turista e decide prolongar a estadia. “Depois de tantos anos sem o ver, não queria que fosse mais embora, pedi muito para que ficasse”, diz a mãe. “Ele era muito trabalhador, muito inteligente. Tinha tudo para funcionar aqui.”

Safira, irmã de Safiro, com uma fotografia do irmão

Safira, irmã de Safiro, com uma fotografia do irmão

A irmã acredita que Safiro acabará por voltar para Cabo Verde. “Para ele, tudo era Boa Vista. Tinha um terreno em Boa Vista onde queria construir a sua casa. Falava sempre nisso. Mas era muito responsável, primeiro queria estudar e organizar-se para poder ajudar a mãe.” Os pais, no entanto, continuam a insistir com Safiro para que fique, e o jovem parece começar a ceder.

Naquele derradeiro dia de verão, caminha para a casa do amigo Delmar, que vive do outro lado da rua e está a celebrar o aniversário da filha. As brasas estão prontas e a cerveja no gelo. Chega Daniel e mais de duas dezenas de famílias e amigos. Comem, passam música das ilhas, brincam com as crianças, toda a tarde, até ser noite. A vida na América é muitas vezes dura — todos trabalham seis dias por semana e o inverno foi demasiado longo, até há poucas semanas ainda havia montes de neve nas ruas —, mas o verão chegou, por fim, e o dia é de festa. “Estava toda a gente, foi um dia muito feliz”, lembra Maria. “E depois ele entrou naquele maldito carro.”

O confronto

Daniel e Safiro são dois rapazes a viver uma fantasia; dois corpos jovens a vibrar no final de um dia de verão. Numa discoteca como o Cure Lounge, uma bebida pode custar quase o dobro do que ganham numa hora de trabalho, mas decidem não pensar nisso. Bonitos e jovens, como nunca mais seriam, estão a divertir-se quando, à meia-noite e meia, Aaron Hernandez e o amigo Alexander Bradley entram no clube.

Segundo a Justiça americana, Daniel e Safiro estão junto da pista de dança quando um deles tropeça em Aaron, despejando a sua bebida. O jovem não terá pedido desculpas, nem reconhecido o jogador, que fica furioso. Acredita que o estão a provocar. Sai da discoteca passados dez minutos. Na gravação das câmaras de vigilância, vê-se um Toyota 4Runner, com matrícula de Rhode Island, a sair da garagem à 1h15.

Cerca de uma hora depois, o grupo de amigos de Cabo Verde sai da discoteca e caminha até ao seu carro. É hora de ir descansar. O Toyota, que andava às voltas na rua desde há algum tempo, é visto junto deles, prosseguindo a baixa velocidade.

Safiro, Daniel, Delmar e outros dois amigos espremem-se dentro do BMW, que começa a deslizar. São seguidos pelo outro carro. Param alguns metros depois, no cruzamento da Avenida Shawmut e da Rua Herald, por causa de um sinal vermelho. O carro que os segue avança e coloca-se do seu lado. Aaron abre a janela e coloca a cabeça do lado de fora. “E agora, pretos?” Dispara cinco tiros.

“Acho que acertei um na cabeça e outro no peito”, diz ao amigo, que já acelera pela estrada fora. O semáforo passa a verde, vermelho, e verde de novo. O carro dos cabo-verdianos não se move, o motor ainda a trabalhar. A polícia responde a uma chamada às 2h32. Chegam os serviços de socorro. Delmar, que foi atingido no braço, é levado para o hospital. Daniel e Safiro morreram de imediato. O óbito é declarado no local.

As autoridades procuram o Toyota, sem qualquer sucesso. Algumas testemunhas, incluindo Delmar, dão descrições dos atacantes parecidas com Hernandez e Bradley, mas são demasiado vagas e a ligação com o jogador nunca é feita. Apesar de os exames balísticos concluírem que os ferimentos foram causados por um revolver de calibre .38 ou .357, a arma do crime não é encontrada. Começam rumores de que os cabo-verdianos estariam envolvidos em algum esquema criminoso, mas a polícia afasta de imediato essa hipótese. A morte dos jovens, concluem as autoridades, é um mistério. A investigação é abandonada.

O fim da linha

Quatro semanas depois do crime, Aaron assina a renovação do contrato com os Patriots. Recebe um bónus de 12,5 milhões de dólares. Promete que “o jovem e imprudente Aaron” ficou para trás.

Em janeiro, é parado pela polícia em excesso de velocidade. Bradley, que vai a conduzir, tem excesso de álcool no sangue. “Agente, sou o Aaron Hernandez. Está tudo bem”, diz o jogador, e escapa sem nada ser reportado à sua equipa. Semanas mais tarde, discute com o amigo quando saem de um clube de strip em Miami e dispara sobre ele, atingindo-o na cara. Abandona-o, sangrando, num beco. Bradley perde um olho, mas nunca diz à polícia quem foi o atacante.

Salvador, de fato completo, e Ernesto, pais respetivamente de Safiro e de Daniel

Salvador, de fato completo, e Ernesto, pais respetivamente de Safiro e de Daniel

Os meses sucedem-se, e multiplicam-se os encontros com a polícia. Aaron está num apartamento na Califórnia, onde a equipa estagia, quando discute com a noiva e mãe da sua filha, Shayanna Jenkins, e alguém chama a polícia. O relatório da ocorrência mostra que o jogador cortou o pulso ao esmurrar uma janela. Está depois no Viva Lounge, em Providence, Rhode Island, quando o adepto de uma equipa adversária o provoca. Há conflitos, a polícia é chamada ao local. Algumas testemunhas dizem que um homem, com a descrição do amigo Wallace, é visto a atirar uma arma para debaixo de um carro.

O rendimento de Aaron na equipa baixa para metade dos recordes batidos na época anterior. Ainda assim, em 2013, recebe o prémio Pop Warner de inspiração para juventude. Mais ou menos na mesma altura, visita um tatuador na Califórnia. Uma das imagens que grava na pele é um revólver com cinco balas no tambor — o número de tiros disparado sobre o carro dos cabo-verdianos. A segunda tatuagem diz “Deus perdoa”. A terceira é uma arma semiautomática, com fumo a sair do cano, e um invólucro de bala vazio, como aquele que a polícia encontrou junto de Bradley no beco em que este sangrava.

Em junho, segundo a acusação, Aaron convence-se de que o amigo Lloyd, que namora com uma irmã da sua noiva, terá ouvido sobre os homicídios de Daniel e Safiro. No dia 16, decide matá-lo. Está na sua casa, em North Attleborough, perto do estádio onde joga, quando lhe manda uma mensagem: “Vou passar para pegar em ti esta noite, vais estar por perto? Preciso daquilo e podíamos sair um bocadinho de novo.”

Dois dias antes, os jovens tinham saído. “As raparigas eram do melhor”, relatou Lloyd por mensagem aos amigos. “Fumámos daquele superduper e o Aaron gastou 10 mil como se não fosse nada. Continuámos a festa na sua grande mansão e depois ele deu-me as chaves do seu Suburban.” Lloyd imagina uma noite parecida, e responde que sim, Aaron pode passar lá em casa.

O jogador pede a Wallace e Ortiz que venham desde Bristol. No sistema de segurança da casa fica registado o seu perfil a palmilhar a sala, segurando aquilo que parece ser uma Glock .45. Os amigos chegam com um Nissan Altima alugado. No caminho até a casa de Lloyd, param para comprar algodão doce, azul, da marca Bubblicious, e cigarros baratos para enrolar charros. Quando passam na casa de Lloyd, em Dorchester, onde vive com a irmã mais nova e a mãe, já são 2h29. Menos de uma hora depois, Lloyd manda mensagem à irmã: “Viste com quem é que eu estava?” “Quem”, perguntou. “NFL”, respondeu. “Só para que saibas.”

Conduzem até um parque industrial. Saem do carro. O espelho retrovisor, de alguma forma — durante uma luta? —, é partido. Quando percebe o que lhe vai acontecer, Lloyd levanta o braço em sua defesa. É atingido de frente. Apanha depois com duas balas nas costas e cai no chão. Os dois últimos disparos são sobre o peito. Pouco tempo depois, as câmaras registam Aaron a chegar a casa, acompanhado de Wallace e Ortiz, e com um revólver na mão.

Cinco dias depois, o supervisor de segurança do clube Rumor, de Boston, liga para a polícia. Diz que tem informações que ligam a morte de Lloyd ao duplo homicídio do ano anterior. Diz que um cliente “acidentalmente abriu a boca” à sua frente. Os investigadores, que tinham abandonado o caso dos cabo-verdianos, decidem reabri-lo. O suspeito principal é Aaron Hernandez

O corpo de Lloyd é encontrado e a polícia descobre, logo depois, o carro alugado. No seu interior, está o invólucro de uma bala .45 — o mesmo calibre da arma que Aaron segurava em casa e que, concluem as perícias, matou Lloyd — e um bocado de algodão doce azul. O jogador apagara quase seis horas de gravação, mas a polícia consegue recuperar as partes fundamentais. Também partira o seu telemóvel, mas os técnicos conseguem aceder aos dados.

Nove dias depois do crime, a 26 de junho, Aaron é preso. A sua imagem, de calções vermelhos, uma t-shirt branca, algemado, a sair da mansão enquadrado por dois agentes é transmitida em todos os canais de televisão, impressa em todos os jornais, replicada em todos os sites.

A polícia continua sem reunir provas suficientes sobre o assassínio de Daniel e Safiro. Não há testemunhas que garantam uma condenação e a arma do crime nunca é encontrada. Confrontada pela polícia com gravações, a namorada de Aaron diz que o jogador lhe pediu que desse sumiço a uma caixa, mas que a atirou para o lixo sem a abrir. E não se recorda em que lixo é que a despejou.

Tudo muda, por acaso, uns meses depois. Durante uma paragem stop de rotina, a arma do crime é encontrada no carro de Jailene Dias-Ramos, que cresceu em Bristol e foi colega de Aaron. A imigrante brasileira confessa que a arma pertence “a um amigo jogador de futebol”. O carro usado na noite do crime também é encontrado em Bristol, escondido na garagem de um tio. A 15 de maio de 2014, quase dois anos depois dos crimes, Aaron é formalmente acusado da morte dos cabo-verdianos.

William T. Kennedy, advogado das vítimas, no seu escritório

William T. Kennedy, advogado das vítimas, no seu escritório

Em 2015, é condenado a prisão perpétua pela morte de Lloyd; em 2016, chega a acordo confidencial com Bradley sobre o tiro que o desfigurou, pagando uma quantia não divulgada; a 13 de fevereiro, começa a ser julgado pelos assassínios de Daniel e Safiro.

O responsável pela acusação, Daniel Conley, tem mais de 80 provas. Na leitura da acusação, disse que os homicídios “foram tão brutais como desprovidos de sentido”. Uma condenação é quase certa. As famílias estão a pedir 6 milhões de dólares de indemnização (cerca de 5,7 milhões de euros) pela sua perda. Maria, Safira, Ernesto, Salvador e outros familiares não querem falhar um dia do julgamento. “A minha cabeça parece que se foi desde esse dia”, conta Maria. O ex-marido, Salvador, diz que precisa de “ver o juiz a dizer: por este e este crime que cometeste, é esta a pena que tens de cumprir”, mas deixou de tentar racionalizar a morte do filho. “Animais da mesma raça dão-se bem. Nós, humanos, que temos capacidade de falar, de nos entender, de fazer queixa, pedir desculpa, não o conseguimos fazer por causa de uma bebida despejada?”

Nos últimos anos, a imagem de Aaron tem desaparecido de forma gradual. O seu nome, outrora celebrado, não consta do site dos Patriots; a lista dos vencedores do prémio que o distinguiu surge sem nome em 2013; no seu antigo liceu, as suas fotografias foram retiradas dos corredores e do auditório; e até o seu irmão, parecido fisicamente, mudou de estado, profissão e de nome.

Ao mesmo tempo, a memória de Daniel e Safiro parece multiplicar-se. Na casa de Maria, as fotografias de Safiro estão por todo o lado. A cara de Daniel repete-se nas dezenas de t-shirts que os seus amigos fizeram e que o pai tanto gosta de usar. O que magoa, explicam as famílias, não é a vida que os jovens tiveram. “O que me destrói é toda a vida que lhe foi roubada”, diz o pai de Safiro. “Na nossa última conversa, a ideia dele era ficar nos EUA. Queria estudar para ser advogado.”

Essa lembrança, de todo o potencial que as suas vidas guardavam, está sempre presente — num Camaro vermelho que acelera estrada fora, no uniforme de um polícia a tomar café, no sorriso de uma criança que se parece com um deles. Logo depois do seu desaparecimento, na missa dos três dias, entregaram ao pai de Daniel uma carta que tinha chegado para o filho. Ernesto chegou a casa e, com todo o cuidado, abriu o envelope com selo do Estado americano. No seu interior, descobriu os documentos de legalização do filho. A espera tinha terminado.