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De onze jogadores da NFL que deviam ter ido a Israel, apenas foram cinco. Os outros não quiseram “ser usados”

O ministério que os convidou cometeu a imprudência de assumir o objetivo político da viagem

Luís M. Faria

Steve Dykes/Getty Images

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A visita de uma delegação da NFL (National Football League) americana a Israel devia ter sido uma ocasião festiva. Iam onze jogadores, de várias equipas, logo a seguir à Super Bowl. Infelizmente, a política meteu-se pelo meio e ensombrou a iniciativa - porque a intenção era política à partida. Em resultado, apenas 5 dos onze acabaram por seguir viagem.

Uns dias antes da visita, o ministro dos Assuntos Estratégicos e da Diplomacia Pública, Gilad Erdan, resolveu explicar que o objetivo dela era proporcionar "uma perspetiva equilibrada de Israel, o oposto da falsa campanha de incitamento que está a ser levada a cabo pelo mundo fora". Para que não ficassem dúvidas, concretizou: "O ministério que dirijo está a liderar uma luta intensa contra a deslegitimação e as campanhas BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções) contra Israel, e parte desta luta inclui receber formadores e influenciadores de opinião com dimensão internacional em áreas diferentes, incluindo o desporto".

Ao pôr a questão nesses termos tão explícitos, Erdman tornou quase inevitável uma resposta dos críticos de Israel. E a resposta chegou logo, sob a forma de uma carta aberta publicada na revista esquerdista “The Nation” e assinada por dezenas de personalidades, entre as quais os atores Harry Belafonte e Danny Glover e a escritora Alice Walker.

“Os palestinianos andam há décadas a combater políticas semelhantes àquelas contra as quais as pessoas protestam em cidades ao longo dos Estados Unidos", diz a carta. Recordando o processo que vai desde a criação de Israel e a consequente despossessão dos palestinianos – agravada, a partir de 1967, pela colonização dos territórios que a lei internacional considera ocupados – até ao bombardeamento de Gaza em 2014, "quando Israel largou umas estimadas 20 mil toneladas de explosivos, matando pelo menos 2200 palestinianos, incluindo 500 crianças", o texto nota que hoje a discriminação atinge os palestinianos a muitos níveis, incluindo o desporto.

“Ser uma voz dos que não têm voz”

Os signatários acrescentam que a iniciativa BDS foi lançada em 2005, à imagem das que atingiram a África do Sul durante o apartheid - uma forma de protesto pacifica em nome da "liberdade, justiça e igualdade". Referem músicos e intelectuais que aderiram, e apelam aos atletas da NFL para seguirem o exemplo.

O primeiro atleta a responder positivamente foi Michael Bennett, dos Seattle Seahawks. "Eu estava excitado em ver esta parte notável e histórica do mundo com os meus próprios olhos", disse ele. " Não tinha consciência de que o meu itinerário estava a ser construído pelo governo israelita com o propósito de me tornar, nas palavras de um membro do governo, um 'influenciador e formador de opinião' que então será 'um embaixador de boa vontade'".

Bennett retirou-se da excursão. "Quando for a Israel - e planeio ir", justificou, "será para ver não apenas Israel como também a Faixa Ocidental e Gaza, para ver como os palestinianos, que chamam casa a esta terra desde há milhares de anos, vivem as suas vidas. Quero ser uma voz dos que não têm voz, e não posso fazer isso indo neste tipo de viagem a Israel".

O exemplo de Bennett depressa foi imitado por 5 dos seus colegas, retirando à visita boa parte do seu tom positivo. Com menos de metade dos atletas previstos, foi cancelado o jogo de exibição que devia ter sido um dos momentos altos da viagem. Ainda assim, os jogadores que estão agora em Israel vão ter uma semana cheia, onde não faltam as visitas obrigatórias ao Yad Vashem e a outros lugares icónicos, bem como à comunidade hebraica negra em Dimona.