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Como se convive com as críticas, Nélson Évora? “Vão ao YouTube procurar o vídeo do sapo que está no fundo do poço”

O atleta conquistou a medalha de ouro nos Europeus de pista coberta em Belgrado e falou uns minutos à Tribuna Expresso logo após o final do concurso de triplo salto. Se está curioso em saber que vídeo é este, leia

Miguel Henriques, em Belgrado

Srdjan Stevanovic

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Lembra-se de quando foi a última vez que teve uma medalha de ouro ao peito?
Foi há dois anos precisamente. Foi a minha primeira medalha de ouro depois das lesões que tive. Foi sem dúvida um momento muito especial, forte em termos emocionais. Esta acaba por ter quase o mesmo peso porque a minha vida mudou muito. Mas o que importa é que está tudo a correr bem e o trabalho continua.

Como é que se convive no meio das críticas e se contraria um momento em que por vezes nos dão como mortos?
Se as pessoas não conhecem, deviam ir ao YouTube procurar o vídeo do sapo que está no fundo do poço. É uma história muito engraçada. Resumidamente: temos que ser um pouco surdos e fazer aquilo que achamos que está realmente certo e aquilo em que acreditamos. É essa a minha forma de estar independentemente das pessoas estarem ou não contra mim. Desde muito novo, houve sempre gente a duvidar do meu valor, daquilo que podia fazer; muitos até diziam que eu não iria ser um atleta de topo mundial. A realidade é que já tenho várias medalhas de ouro, prata, bronze, e muitas classificações em grandes campeonatos. Na minha opinião, estou a traçar uma carreira de sonho e estou satisfeito por isso. Tenho de agradecer à minha família, aos meus amigos e a todos os fãs que são incansáveis a mandar-me mensagens e a puxar-me para cima.

Sente-se como um gato que tem sete vidas? Há sempre mais uma a seguir.
É verdade. Mas eu tinha noção de que não tinha acontecido nada. Se formos a ver, não me aconteceu nada de trágico. Eu simplesmente mudei a minha vida, o meu valor continua cá. Os Jogos Olímpicos não correram como eu queria, mas a boa forma física estava lá. Os problemas físicos já desapareceram. Estou a treinar bem, motivado, seja onde for. Felizmente o meu caminho e o do Ivan Pedroso [o novo treinador] cruzaram-se. Estou super satisfeito, ele é uma pessoa experiente, cuidadosa e ambiciosa. Mais do que uma boa pessoa, passa bons valores e faz-me acreditar no impossível. E hoje consegui prová-lo.

O Nélson também tem por hábito desafiar os seus próprios adversários e transformar esse “confronto”, essa “intimidação”, em energia para os seus saltos.
Sem dúvida, faço sempre isso. Venho de uma geração em que 17,20 m eram marcas de qualificação e na final lançávamo-nos todos para 17,50 m ou 17,60 m. E hoje, de uma forma controlada consegui cumprir quase todos os objetivos, digo quase porque queria bater o recorde nacional (17,74 m). Mas o mais importante neste tipo de competição é garantir o ouro.

Disse no passado que não são os meetings nem os campeonatos nacionais que o motivam mais, mas sim as grandes competições onde quer aparecer.
É verdade, porém agora isso vai mudar um pouco. Temos estado a construir algo de diferente, Dentro de dois, três meses vão ver-me a saltar bastante bem e bastante longe nos principais meetings. Isso ainda vai dar-me mais confiança para chegar aos Mundiais [agosto 2017] para poder encarar de frente atletas como o Christian Taylor, o Pichardo e muitos outros. Há que preparar tudo para não sermos surpreendidos.

E a sua coleção de areia? Depois de Belgrado, vai aumentar mais um pouco.
Depois dos treinos, todos os dias levo areia para casa, nas meias, nos sapatos (risos). Mas esta é diferente porque levo numa garrafa. É algo que faço desde a primeira vez que ganhei uma medalha. Isso faz parte da minha história e do desporto nacional. Tenciono mostrar depois aos meus filhos e aos meus netos e também partilhar isso com todos os portugueses, quiçá num museu. Não tenciono guardar a história só para mim. Ouviu-se o hino aqui e isso tem de ser um motivo de orgulho para todos os portugueses.

Outro triplo salto para a eternidade

Outro triplo salto para a eternidade

Alexander Hassenstein

Pegando nessas palavras, voltar a estar no lugar mais alto do pódio, a ouvir o hino e a ter todos os olhos concentrados em si. Qual é o sentimento?
Sem dúvida, não há palavras para descrever isso. Este momento vale por tudo. Tento sempre manter-me bastante sério para não chorar porque me emociono-me muito, como emocionaria a qualquer pessoa que ama o nosso país. E tenho sempre que me manter bastante concentrado para não chorar, é algo único. É gratificante poder fazer tocar o nosso hino e despertar a curiosidade dos outros sobre o nosso país.

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