Tribuna Expresso

Perfil

Modalidades

Taxi Driver (ou um murro no estômago)

Bruno Pereira construiu o sonho de ser pugilista profissional e apesar de só ter começado a praticar boxe aos 23 anos, nunca desistiu. Terá o seu batismo de fogo no dia 1 de abril e no seu canto terá Paulo Seco, o homem que treinou o ator Nuno Lopes para o papel no filme “São Jorge”, que estreia hoje. Esta é a sua história

Alexandra Simões de Abreu e José Caria

Partilhar

Quem viu a famosa cena do combate entre Rocky Balboa e Ivan Drago, sabe os mixed feelings que provoca. Torcemos pela vitória de Rocky, mas ao mesmo tempo há qualquer coisa que nos diz que o russo também merecia ganhar. São dez minutos épicos, em que o ar dos pulmões a pouco e pouco parece custar cada vez mais a sair. Quando os créditos finais do Rocky IV começam a rolar no ecrã e as personagens desaparecem, somos invadidos por uma sensação de poder. Sentimo-nos campeões do mundo, capazes de vencer tudo e todos.

Bruno Pereira tem 28 anos e já viu o filme mais de dez vezes, mas não se recorda dos pormenores políticos. O que tem gravado na memória é a dor, o sacrifício, a perseverança, a honra, a vontade de vencer e a transcendência da personagem interpretada por Stallone. Tal como Balboa, também ele “entra mal nos combates” para “depois ganhar bem”. As palavras são suas. “Não é propositado mas identifico-me um bocadinho com o Rocky. Preciso de levar um soco ou dois para acordar. A partir do 2ª assalto é que começo a fazer diferença para o adversário, a animar-me com o combate e a ficar entusiasmado”.

Não fosse ter descoberto tarde o boxe, tinha já 23 anos, e talvez os sonhos de pisar os grandes ringues de Las Vegas e de defrontar Golovkin ou Floyd Mayweather Jr., seriam tangíveis. Mas Bruno não desiste. Não faz parte do seu ADN.

No próximo dia 1 de abril, até parece mentira, inicia uma nova etapa na sua curta e ascendente carreira de boxeur. Vai fazer o primeiro combate profissional frente ao mais experiente Tiago Prata. No seu canto terá Paulo Seco, o homem que faz de treinador de Nuno Lopes – e que o treinou efetivamente durante dois anos –, no filme “São Jorge”.

“Quando aqui chegou em dezembro, o Bruno não aguentava 10 minutos de plastron [retângulo onde os atletas batem com força] e hoje se for preciso está uma hora a bater”, realça o treinador. Paulo Seco destaca-lhe “o coração grande, a força fisica e alma de pegador”. Se o atleta tivesse menos 10 anos, diz, “apostava nele” para os Jogos Olímpicos. “O Bruno tem tudo o que um campeão precisa ter. Tem raça e querer. Todos os golpes são fortes. Sua muito”, conclui.

Desde essa altura que está a passar por um “tratamento” idêntico ao que Nuno Lopes teve para desempenhar o papel do pugilista desempregado que aceita trabalho noturno numa empresa de cobranças difíceis.

Bruno vai finalmente tornar-se profissional e já só pensa em reviver a história de há pouco mais de um ano, quando defrontou o campeão de Inglaterra, Jordan Reynolds, na final do torneio Celtic Cup, na Irlanda. “Foi o combate mais importante até hoje, o que me deu mais projeção”.

Em menos de um minuto, Bruno Pereira pôs Reynolds KO.

Foi um choque. Um atleta desconhecido, de Portugal, ganhou por knockout ao campeão inglês, na categoria de 75kg. As visualizações no Facebook dispararam. “Em três dias tinha 35 mil visualizações e o vídeo chegou às 120 mil. Após esse combate, os outros passaram a ter mais de 300 mil visualizações”.

Tudo mudou, mas ao contrário do Jorge de “São Jorge”, os murros e os esmurros de Bruno são sérios e a sério. Tal como a vida que leva.

Uma vida dupla.

Em nome do pai

José Caria

Bruno Pereira tinha o destino traçado. O pai, José Carlos Pereira, de 46 anos, nascido e criado na Musgueira por uma avó numa pequena casa onde dormiam 11, agarrou-se ao táxi menos de um ano depois de Bruno nascer. E há pouco mais de um ano tornou-se uma espécie de simbolo dos motoristas de táxi, quando começou a denunciar os carros da Uber, junto ao aeroporto de Lisboa. Uma “guerra” que lhe valeu seis processos judiciais, três dos quais ainda pendentes. “Nunca perdi a cabeça, não tenho nenhum processo por agressão, mas senti-me travado pela justiça. A minha vida sempre foi pautada pelo trabalho e pela família, nunca pela criminalidade ou vandalismo”, desabafa José Pereira.

Bruno seguiu-o, sempre e para todo o lado, e quando aos 18 anos tirou a carta de condução escolheu o sangue ao sonho de tornar-se militar. Ou ciclista. “Tenho o meu pai e os meus tios nos táxis, preferi seguir o negócio de família. Senti que era mais seguro”, argumenta.

José Pereira conta como tudo começou. “Eu gostava muito de fazer ciclismo de estrada e o Bruno acompanhava-me. Um dia fomos até à Nazaré, fizemos 240 km, tinha ele 13 anos. E aguentou. Vi que tinha coração e estrutura para ser um bom atleta. Inscrevi-o no Grupo Desportivo de Lousa, onde fez dois anos de cadete e dois de juniores”.

Foi a escola quem o afastou das duas rodas. José e a mulher, Sandra Sousa, queriam que o filho acabasse pelo menos o 12º ano. Assim foi. O desporto voltou mais tarde, aos 20 anos, novamente para acompanhar o seu maior amigo, o pai, que mantinha a forma no Ginásio Cybergym, na Povoa de Stª Iria, onde ainda vivem.

José Caria

O corpo foi ganhado volume e definição e a vontade de Bruno em treinar foi aumentando. Um dia, o treinador de boxe do ginásio, de nome Joaquim Miranda, gabou-lhe o físico e convidou-o a experimentar uma aula. Não lhe pareceu boa ideia, até porque não gostava “muito das regras, dos árbitros, do que envolvia um combate sério de boxe”. Mas ao fim de dois meses lá foi – por influência do pai, claro, que já tinha feito kickboxing.

Bruno gostou do primeiro treino. E do segundo. E do terceiro.

E aquilo que antes lhe fazia espécie passou a fazer parte dele.

“O que me fascina no boxe são as janelas de oportunidade que aparecem. É uma espécie de malabarismo. Mal comparado é como um jogo de xadrez, em que por vezes temos de dar ideia ao adversário que temos uma fraqueza, puxá-lo para essa fraqueza, mas com a intenção de usar os defeitos e erros que vai cometer a tentar explorar a nossa fraqueza. As janelas que aparecem são milésimos de segundo que aproveitamos ou passam”, explica.

Ultrapassada a desconfiança, tanto a mãe como a namorada passaram a apoiá-lo 100% nesta dedicação ao boxe; ao fim de seis meses, Bruno fez o primeiro combate. Esteve durante nove minutos a levar pancada no corpo e na cara, mas não caiu. “Vi que ele tinha coração, estofo e garra para dar um bom pugilista. Ele próprio quis continuar”, diz o pai, orgulhoso.

Consciente de que “precisava de um treino mais sério”, Bruno Pereira foi bater à porta do Sporting, onde Vítor Carvalho e João Paquito o acolheram. A coisa correu-lhe bem a nível regional, e tornou-se bicampeão nacional e bicampeão da Taça de Portugal.

Depois, aconteceu aquela figuraça na Celtic Cup. E é sem falsas modéstias que assume: “Tornei-me num atleta que só consegue encontrar atletas à altura no estrangeiro”. A decisão estava tomada. Queria passar a profissional. Mas como o Sporting “não estava para aí virado”, diz Bruno, ao fim de quatro anos e meio a ligação desfez-se e o atleta foi para o Arena, de Camarate.

Mais uma vez o incentivo moral e financeiro do pai foram determinantes. Ainda sem direito a cachet, só a boa vontade dos promotores de combates, que ofereceram estadias e alimentação, tornou possível ganhar experiência além fronteiras.

Não podia ser de outra forma.

Na cabeça de Bruno estavam os ídolos e, como eles, não ia desistir: Mike Tyson, que “é uma referência” por ser “demolidor”, mais do que Muhammad Ali “muito dançarino e artístico” para o seu gosto; Roy Jones Jr que “no auge era explosivo e rápido”; e o português João Bento Algarvio.

Um passo a seguir ao outro e um dia de cada vez.

Cinderella Man

José Caria

Bruno Pereira acorda todos os dias às seis e meia da manhã.

Vai correr.
Volta a casa.
Toma duche.
Come uma gemada com três ou quatro ovos.
Pega no táxi que o pai está a ajudar a pagar.
E vai trabalhar.

Bruno é taxista.

Ao fim da manhã estaciona o carro frente à porta do Paulo Seco Boxing Club instalado na sala do Lisboa Futebol Clube, na Quinta do Loureiro. Durante hora e meia perde um a dois quilos em suor, enquanto aperfeiçoa a técnica. Àquela hora, conforme os dias da semana, a sala está mais ou menos cheia de homens e rapazes que lutam por um sonho idêntico ao dele ou que apenas gostam de sentir o prazer da intensidade de um treino de boxe.

A modalidade está na moda e o ginásio de Paulo Seco tanto recebe os moradores do bairro – o antigo Casal Ventoso –, como estrelas de televisão (e outras figuras públicas) ou jovens carenciados. No boxe há narizes partidos, olhos negros, lábios abertos, dedos partidos – e fazem-se amigos para a vida.

Segue-se o almoço, sem fritos e à base de grelhados, sempre na companhia do pai e no sítio do costume, que fica dentro de uma superfície comercial na zona da Bela Vista, em Marvila. Apesar do corpo e da exigência do treino o pedirem, não há tempo para descanso, que o pão não chega sozinho à mesa.

Falar de dinheiros é sempre complicado. Bruno já tem um cachet, mas os números nem sempre coincidem. Tanto pode “valer” mais de 1200 euros como apenas 300. Tudo depende do promotor, dos nomes envolvidos, das despesas e da grandiosidade do evento. Tem noção de esta primeira fase vai ser complicada porque não tem patrocinadores e "só em exames médicos é uma fortuna".

“Arranjar um adversário para jogar comigo tem os seus custos. Ter de pagar-lhe, mais os seguros, viagens, estadia, etc., é complicado”, assume. “Mas só combatendo contra os melhores é que se pode evoluir”.

É por isso que continua ao volante.

Depois do almoço, Bruno transporta mais uns clientes até ao treino da tarde com o preparador físico, Evandro Marote, parceiro de Paulo Seco na gestão dos atletas de alta competição. “É um rapaz muito dócil e até o achei dócil de mais para o desporto que faz”, confidencia Marote. Mas as primeiras impressões ficaram-se por aí, porque nos treinos Bruno “transforma-se“. “É um guerreiro que dá tudo e não quebra”.

Touro enraivecido

Ao longo de cinco anos, Bruno já fez mais de meia centena de combates, 16 deles internacionais. Destes, ganhou 12 e perdeu 4, o último dos quais, na Suécia, há pouco mais de um mês, na despedida de amador. Foi no “main event” de uma competição feminina, a Golden Girl BC, onde foi “obrigado” a defrontar um adversário mais pesado, Abdesslam Chabi (tricampeão “The King of The Ring”), por indisponibilidade de Jordan Reynolds, que cancelou a seu tão desejada revanche. O português perdeu aos pontos, mas a sensação de que o empate seria o resultado mais justo ainda paira nas cabeças de pai e filho, até pelo tempo que os juizes demoraram em dar a vitória ao sueco.

Quem vê os olhos tristes e o sorriso aberto de menino, não imagina do que Bruno é capaz dentro do ringue.

No dia a dia é um homem pacífico, que evita problemas e anseia por constituir uma família numerosa. A cumplicidade com o pai é tanta que, também no plano pessoal parece imitá-lo.

Bruno namora com Verónica há 10 anos e no dia dos namorados pediu-a em casamento durante um jantar a bordo de um barco, no rio Sena, em Paris. A noiva, enfermeira de profissão, disse logo que sim e o video seguiu rápido para o pai e deste para as redes sociais. Também José começou a namorar cedo com Sandra, auxiliar de ação médica, com quem é casado há 28 anos.

Noitadas, “nem pensar”. Vícios “também não”.

Bruno está disposto a todos os sacríficios para cumprir o sonho; e ele sabe que isso implica sacrificar o corpo: partir o nariz mais uma vez, abrir novamente os lábios ou ficar com os dedos ainda mais quebrados.

A única coisa de que tem verdadeiramente medo é que um vaso sanguíneo se lhe rebente no cérebro. Mas também esse “é um risco” que está disposto a correr. “Nunca me dei uma alcunha. Já me chamaram ‘punhos de aço‘ e até ‘assassino’, mas sou só o Bruno Pereira”, explica. “Dentro do ringue não há ninguém que me possa derrotar. Quando os combates acabam e vou ver o vídeo às vezes custa-me acreditar que aquela pessoa sou eu. Sou reconhecido como grande guerreiro em cima do ringue e acredito nisso”.

O grande guerreiro dos punhos de aço.

  • São Jorge: a crise financeira derrotou-nos fisicamente

    Cultura

    “São Jorge”, que estreia esta quinta-feira, é um mergulho abissal no coração dilacerante dos anos da crise e dos que mais sofreram com ela. Para dar corpo ao filme, Marco Martins não se fechou em casa a escrever, foi conhecer a realidade. Entrevista a um cineasta que sentiu a responsabilidade intelectual de não ficar calado