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Ele não arranja equipa onde jogar, em parte por causa de Donald Trump

Colin Kaepernick não assinou contrato desde que saiu dos San Francisco 49ers. Protestos contra discriminação racial do ano passado foram visados pelo presidente, que tem impacto sobre os donos da NFL

Francisco Perez

Colin Kaepernick (à direita) e Eric Reid ajoelham em protesto contra a discriminação racial durante o hino dos Estados Unidos

Thearon W. Henderson/Getty

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Colin Kaepernick continua um jogador livre desde que saiu dos San Francisco 49ers há três semanas, e Donald Trump não está a ajudar ao caso. O presidente norte-americano reconheceu responsabilidades na situação, dado o conservadorismo dos proprietários da National Football Association (NFL).

Em setembro do ano passado, durante a pré-época, o quarterback não se levantou ao ouvir o hino norte-americano em nenhum dos jogos dos californianos, o que é um hábito recorrente na NFL. Em vez disso, ouviu os cânticos sentado, ajoelhando-se posteriormente.

A decisão de Kaepernick foi um protesto para com a discriminação racial e com a violência policial perante a comunidade negra dos Estados Unidos.

“Não me vou levantar para mostrar orgulho na bandeira de um país que oprime os negros e as pessoas de cor”, afirmou o quarterback na altura.

A postura do atleta de 29 anos teve um impacto interessante, pois diversos jogadores acompanharam o seu movimento, mostrando-se solidários para com a situação.

A equipa do Kansas City juntos os braços durante o hino no jogo com o San Diego, Devin McCourty e Martellus Benett, na época jogadores dos New England Patriots [Benett está nos Green Bay Packers] ergueram os pulsos numa alusão ao “Black Power”, preconizado pelo ex-velocista negro Tommie Smith, quatro jogadores dos Miami também ajoelharam, entre outros casos.

Entretanto, Kaepernick acabou o contrato com os 49ers e ainda não arranjou colocação. E o que tem Donald Trump a ver com a situação?

O quarterback é um crítico do presidente norte-americano, tendo-o apelidado de “racista” quando este era candidato à Casa Branca.

Trump não gostou da recusa de Kaepernick ajoelhar perante o hino norte-americano. Na altura, referiu que o quarterback deveria “procurar um país que funcione melhor para ele”. A juíza do Supremo Tribunal, Ruth Bader Ginsburg, foi mais longe, e considerou o protesto de “estúpido e desrespeitoso”.

Uns dias depois, Trump culpou o protesto pelas baixas audiências que a liga apresentou durante a temporada regular.

Esta segunda-feira, num "meeting" no estado do Louisiana, o presidente falou da situação, referindo que tem poder de decisão sobre os proprietários da NFL.

“Houve um artigo que saiu hoje [ontem] a dizer que os donos da NFL não o querem em nenhuma equipa porque não querem receber um ‘tweet’ desagradável do Donald Trump, acreditam? Se eu me lembrar dessa, vou reportá-lo à população do Kentucky, porque eles gostam quando as pessoas realmente se levantam pela bandeira americana”.

Segundo o “The Guardian”, o bilionário poderá ter razão. Os proprietários da NFL são conservadores, tendo doado quase 930 milhões de euros aos Republicanos contra “apenas” 20 que atribuíram ao Partido Democrata durante a campanha para as presidenciais.

Paralelamente, Woody Johnson, o proprietário dos New York Jets - eleito embaixador dos EUA no Reino Unido por Trump - optou por contratar o veterano Josh McCown (37 anos) em vez de Kaepernick (29).

Nesta altura, Colin Kaepernick estará disposto a assinar por uma equipa que lhe permita jogar com regularidade, sem repetir o episódio. De acordo com o “USA Today” e com a “ESPN”, o norte-americano não vai prolongar o protesto esta temporada, pois acredita que o seu objetivo foi concretizado: iniciar um amplo debate sobre um tema recorrente naquele país.