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Primeira mulher a correr maratona está de volta para repetir o feito – 50 anos depois

Este ano, Kathrine Switzer regressa à Maratona de Boston, nos EUA, e quer celebrar com as outras atletas o que aquele dia em 1967 mudou para o desporto no feminino

Sónia Santos Costa

Kathrine Switzer tem 70 anos e vai voltar a correr

Kevin Winter/Getty

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Se correr uma maratona já não é uma tarefa fácil, imagine-se fazê-lo com todos a desejarem que desista e a esperarem que tropece. Foi essa a árdua provação pela qual passou Kathrine Switzer, a primeira mulher a entrar numa maratona.

Boston, 1967. A atleta chegou a ter um dos responsáveis pela corrida a tentar agarrá-la para a arrastar para fora da competição, mas foi até ao fim - e agora, 50 anos depois, propõe-se a mostrar aquilo de que ainda é capaz.

"Será uma honra, uma alegria participar na Maratona de Boston. O incidente dramático de há 50 anos, quando um diretor de corrida furioso me tentou expulsar por ser rapariga, tornou-se um momento decisivo para mim e para as atletas de todo o mundo", explicou Kathrine Switzer, ao anunciar a participação na prova -, que se corre hoje, segunda-feira, em Massachussetts.

Estratégia destemida

Antes de Kathrine, as provas de meia e longa distância - a partir dos 1500 metros - eram interditas ao sexo feminino. Bobbi Gibb, sua compatriota, já tinha corrido a Maratona de Boston no ano de 1966, mas fizera-o sem dorsal e de forma incógnita (anos mais tarde, foi considerada vencedora das edições de 1966, 1967 e 1968).

A destemida Switzer acreditou merecer tanto um dorsal com número quanto qualquer outro participante e lembrou-se de uma engenhosa estratégia que lhe permitiria contornar as regras da competição - sem quebrar nenhuma.

Leu o regulamento da prova e constatou que em lado nenhum estava explícito que as mulheres estavam obrigatoriamente excluídas. Depois, inscreveu-se como K.V. Switzer ("não por medo de ser apanhada, mas porque tinha J.D. Salinger, E.E.Cummings, T.S. Elliot e W.B. Yeats como referências literárias", explicou em entrevista à Al Jazeera) e recebeu o desejado dorsal: participante número 261.

Theo Wargo

Foi descoberta aos primeiros quilómetros da prova. Quando a viram, os fotógrafos alvoroçaram-se, gritaram que estava uma rapariga a correr. E qual foi a reação da atleta? "Não me tentei esconder: estava bastante orgulhosa. Mas o juiz, Jock Semple, veio furioso atrás de mim, a gritar: 'Dá-me o dorsal e põe-te fora daqui'. Por sorte, o meu namorado conseguiu fazer-lhe a mais bela placagem que alguma vez vi, enquanto Arnie [o treinador] gritava 'corre que nem uma louca'", resumiu a maratonista.

O caso fez correr tinta nos jornais da época e a atleta sentiu esse momento como uma viragem na sua vida - a partir daí, decidiu lutar para que as mulheres passassem a ter acesso às provas de longa distância. “Nessa época, as mulheres que se propusessem a algum trabalho pesado eram consideradas masculinas. Havia até rumores de que se poderiam transformar em homens e que o seu útero poderia cair!”, explica a atleta, que estudou jornalismo.

“Mas a resistência não era só do lado masculino. Muitas mulheres eram ainda mais hesitantes do que eles. Tinham medo do que eu me estava a tornar, ficavam chateadas com aquilo que eu estava a tentar atingir”.

O ativismo e a luta pela igualdade de género no desporto

Cinco anos depois desta peripécia, em 1972, a Maratona de Boston tornou-se o primeiro grande evento a aceitar mulheres - e Switzer subiu ao pódio, em 3.º lugar.

Em 1979, a Associação Internacional de Federações de Atletismo passou a aceitar provas mistas; e não esqueçamos a nossa Rosa Mota, que conquistou a medalha de bronze na Maratona dos Jogos Olímpicos em Los Angeles, a primeira edição que aceitou maratonistas femininas.

Kathrine Switzer tornou-se comentadora televisiva e continuou a sua luta pela igualdade de género no desporto: "Nos últimos 50 anos, assistimos a uma revolução no que diz respeito às mulheres que correm. Digo mesmo revolução porque nos Estados Unidos há, hoje, mais mulheres corredoras do que homens. 58% de todos os atletas que correm são mulheres. A tendência estende-se ao Canadá, à França, ao Japão… E tudo isto aconteceu durante a minha vida”.

Darren McCollester

Entretanto, Switzer criou a fundação 261 Fearless, batizada em homenagem ao número que levava na dorsal, em 67. "A forma como a 261 surgiu foi maravilhosa. As pessoas começaram a mandar fotografias suas com o número em dorsais, mesmo que tivessem os próprios números diziam que este as fazia sentirem-se destemidas. Também cheguei a ver tatuagens com esses dígitos. Percebi que isto significava muito para elas.” Hoje, existem dezenas de clubes de corrida da 261 Fearless, espalhados por vários países.

O porquê de voltar a desafiar as ruas de Boston

“Comecei a ver mulheres mais velhas do que eu a correr em eventos que ajudei a criar e nos quais eu nunca tinha corrido. Fiquei um bocadinho invejosa”, explicou. Aos 62 anos voltou a correr e, de momento já com mais de 70, não planeia desistir tão cedo. “Quero correr a Maratona de Nova Iorque. Ganhei-a em 1974, mas aí eram quatro voltas ao Central Park. Eu quero correr nas ruas. E digo o mesmo quanto a Londres”.

Quanto à prova desta segunda-feira, garante que a sua participação será pela celebração e pelo que a prova significa para si, e não tanto pelos tempos que quer atingir - essa pressão guarda para provas seguintes, onde quer esforçar-se por uma melhor performance.