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Adora boxe. No campo de refugiados não tinha luvas nem saco. Treinava na parede

Cinco refugiados afegãos, menores e sós, chegaram há um mês a Lisboa. Um adora boxe. Na Grécia, sem saco nem luvas, esmurrava a parede. E os punhos. Os outros são mais bola. O desporto será o isco da sua integração

Raquel Moleiro (texto) Hélder Oliveira (ilustração)

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Não lhe perguntaram a razão das cicatrizes logo no primeiro dia. Só uma semana depois, mais-coisa menos-coisa, da chegada a Portugal. Cinco refugiados, todos menores desacompanhados, todos do Afeganistão, entre os 12 os 17 anos, aterraram em Lisboa no fim de março, vindos da Grécia, e um tinha os nós dos dedos cheios de marcas. Ao conhecer a causa, a associação de acolhimento soube também que tinha encontrado o gancho que o vai prender ao seu projeto de vida. O boxe. Ele adora boxe. Já treinava, a sério, no país natal. A fuga travou a progressão mas não o gosto. Partiu com ele de Cabul, atravessou com ele o Irão, a Turquia, as águas do Mediterrâneo e chegou à ilha de Lesbos, na Grécia, e depois ao campo de refugiados de Elliniko, em Atenas.

Ficou no campo quase um ano. Quando aceitou que a situação poderia ser permanente, voltou aos treinos. Mas não havia saco nem luvas no campo. Treinava na parede, os punhos contra a pedra. A luta desigual ficou gravada na pele. “Contactámos imediatamente o Comité Olímpico Português, que tem um projeto de integração dos refugiados através do desporto, para poderem apoiá-lo com material ou treinos”, explica Ana Rodrigues, jurista da Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade (CNIS), entidade responsável pela integração destes menores em Portugal.

O rapaz mais novo, 12 anos — a fuga iniciada antes mesmo da idade alcançar os dois dígitos —, prende os dias ao futebol. E nem precisava de o dizer. Cada um dos rapazes trouxe apenas um saco como bagagem. É tudo o que têm. Dentro do dele, trouxe uma bola. Era o mais importante que tinha. “Todos gostam de futebol, todos conhecem o Ronaldo. Nos primeiros dias em Portugal jogaram à bola praticamente todos os dias”, acrescenta Ana. São crianças.

O material de boxe já foi encomendado e deverá ser entregue muito em breve, garante Maria Machado, do Comité Olímpico português. Todos terão também equipamento de futebol. “Estamos igualmente a procurar os locais para poderem treinar, sendo que o futebol é sempre mais difícil, já que as expectativas dos miúdos são elevadas e em Portugal é difícil ter lugar nas grandes equipas”, explica.

O grupo foi acolhido em conjunto. Estão todos juntos na mesma instituição de jovens e crianças em risco da Grande Lisboa, pertencente à CNIS, e vão viver aí 18 meses. A secretária de Estado para a Cidadania e a Igualdade, Catarina Marcelino, que acompanhou o processo a nível governamental — e foi buscar os jovens ao aeroporto —, já disse que Portugal está disponível para receber entre 30 a 40 menores não acompanhados. Para tal, há mais sete IPSS preparadas em Lisboa, no Porto e no Algarve, e três em processo de formação, com tipologias diferentes, desde casas-abrigo a lares para mães adolescentes.

Lora Pappa, da ONG grega METAdrasi, escolheu-os um a um, e acompanhou-os até Lisboa. O mais novo e o mais velho são irmãos, e estavam em abrigos, assim com um terceiro. Lembrava-se deles ainda na ilha de Lesbos, acabados de sair da água. Os outros dois viviam num campo de refugiados. Em comum têm a total ausência de familiares na Europa que os pudessem acolher ao abrigo do reagrupamento. No Afeganistão também não lhes resta ninguém. Alguns perderam os pais na fuga, outros antes mesmo de fugir. O seu país de origem não está entre os elegíveis pelo programa de recolocação da União Europeia, o que impedia a inclusão nas quotas obrigatórias dos países-membros. E também não podiam ser transferidos para a Turquia, ao abrigo do acordo com Bruxelas, por serem menores desacompanhados. Estavam presos na Grécia. E só na tragédia não estavam sozinhos: há lá mais 2200 como eles.

Portugal foi o primeiro país a acolher estas crianças que ninguém quer, garante Lora, que recebeu o prémio Norte-Sul 2015 do Conselho da Europa, pelo seu trabalho pioneiro com os menores desacompanhados na Grécia. A cerimónia de entrega ocorreu em Lisboa, em junho do ano passado. Marcelo Rebelo de Sousa deu-lhe o galardão na Assembleia da República e Catarina Marcelino a promessa de que iria tentar que alguns dos “seus” menores pudessem vir para Portugal. A ONG tem 700 à sua guarda, numa rede de abrigos, guardiões e famílias de acolhimento. Desses, cinco chegaram oito meses depois a Lisboa.

Refúgio no abandono olímpico

“Portugal é um exemplo para os outros países. Deram o primeiro passo, o empurrão. E eu estou feliz, mesmo feliz, porque sei o que estes miúdos passaram. A viagem através do mar foi muito traumática. Do caminho todo não falam de mais nada. Há coisas que nunca vão contar a ninguém. Agora demos-lhe esperança. E tenho a certeza que ao darmos-lhe pouco eles vão dar-nos tudo. Dois vieram diretamente de um dos mais horríveis campos de refugiados de Atenas para o aeroporto. Acho que nem eles tinham noção do que iam encontrar. Um dia acordam 
no campo, saem para apanhar um avião, chegam a Portugal onde dormem numa cama, num apartamento. Imaginam? Acho que nem eles se atreveram a imaginar”, conta Lora.

O campo chama-se Elliniko e é um conjunto alinhado de tendas, centenas, ao ar livre, montadas diretamente no chão no local onde em 2004 se realizaram as olimpíadas de Atenas. Por cima há lonas esticadas, mas não atenuam nem o calor nem o frio que lá passaram durante cerca de um ano. À medida que esgotava a lotação o centro foi esticando. Elliniko I, II, III chegaram a albergar cerca de 2200 refugiados, maioritariamente afegãos. O primeiro é um edifício abandonado. Quando o espaço, dentro e fora, já não chegava, avançou-se para a ocupação do antigo estádio de hóquei. E por fim, para o campo de basebol. De um lado e do outro das tendas há bancadas e torres de iluminação, num cenário de abandono que faz pendant com a vida de quem lá mora.

“Os campos não são locais para crianças. E temos de passar esta mensagem a toda a Europa. Ter ali menores durante um ano ou mais não é seguro. Estamos a empurrá-los para que procurem soluções que os tirem dali e os levem ilegalmente para outros países europeus. E como? Como vão arranjar dinheiro para pagar aos traficantes?”, questiona Lora Pappa. Ela sabe a resposta, mas prefere não dizer. Elliniko vai fechar este ano, para dar lugar a um resort de luxo, sem que haja ainda alternativa para quem lá vive. Mas antes disso, a ativista espera tirar de lá mais crianças e trazê-las para Portugal. Em maio é uma das oradoras das Conferências do Estoril e, confessa, “gostava muito de viajar com companhia”.

Para os menores que já cá estão, passou já um mês de integração. Mas o processo dos cinco jovens afegãos dá ainda os primeiros passos. “Para a definição do projeto de vida e de uma estratégia de intervenção é preciso ouvi-los, conhecer os seu percurso e expectativas, as atividades de tempos livres, os traumas, sem a pressa do tempo, para que não se sintam pressionados”, explica Ana Rodrigues do CNIS, que já trabalhou em Timor e na Guiné Bissau. As conversas são feitas em farsidari, a variante persa do farsi falado no Afeganistão, com a ajuda de um intérprete. Pelo meio jogam muito futebol, e dormem para lá do normal, ainda separados das restantes crianças da instituição.

“Claro que há coisas já estabelecidas à priori. Vão iniciar o quanto antes a formação intensiva e obrigatória de português, e vão estudar. Dependendo do que pretendem em termos de educação, poderão ir para o ensino regular ou então profissional, caso queiram aceder mais rapidamente ao mercado de trabalho”, conta a jurista. O ensino superior e politécnico, em que há apalavradas algumas parcerias, está para já afastado, dadas as idades.

Da Grécia já traziam algum português, ensinado durante o mês que antecedeu a partida, por uma professora brasileira contratada pela METAdrasi, “Olá”, “Obrigado”, “Bom dia”, “Como está?”. Foi nessas aulas que o grupo se conheceu, recorda Lora. “Agora são uma equipa. Sabem que têm de ser uns para os outros.”

Artigo publicado na edição do Expresso de 22/04/2017