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A vida dividida de Tony Sousa, o padre que também é instrutor de body combat

E se lhe dissessem que o instrutor de Body Combat no ginásio que frequenta é padre? Impossível? Na Madeira não. Tony Sousa, pároco da Boa Nova e do Bom Sucesso e capelão do Estabelecimento Prisional do Funchal, dá aulas em dois ginásios e não lhe faltam fiéis nas missas. O homem que entrou aos 12 anos para o seminário não esconde o gosto pelo desporto, faz até questão de dizer que é o único padre do país com formação certificada na modalidade.  

Marta Caires (texto) e Gregório Cunha (fotografias)

Gregório Cunha

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Pouco passa das dez, está uma manhã de domingo ensolarada, começam a chegar pessoas e o padre Tony Sousa atende os paroquianos da Boa Nova, no Funchal. Uma senhora quer mandar rezar missas pela família, dita os nomes e o padre toma nota no livro de registos. No fim, a mulher pede uma missa pelas almas, que também merecem. O sino toca, está quase na hora da missa das dez e meia e o pároco ainda tem de vestir os paramentos, colocar o microfone, preparar-se como faz há quase 17 anos, os anos que passaram desde que se ordenou.

A igreja está cheia, há muita gente nova e o coro veio de fora, são amigos do padre há anos, dos tempos em que era ainda seminarista. O evangelho é sobre a aparição de Cristo aos apóstolos e a homília versa sobre capacidade de perdoar as falhas dos outros, dos mais próximos como fez Jesus aos apóstolos que o deixaram só na hora da morte, mas é também sobre a necessidade de espalhar a palavra, a obrigação de cada cristão de colocar ao serviço dos outros os dons e talentos.

A missa passa depressa e, no fim, o padre aproveita para colocar os fiéis a par das atividades da paróquia. Há confissões com quatro padres para preparar as crianças para a primeira comunhão e alterações na visita pascal, uma tradição religiosa madeirense. Depois da bênção, há sempre quem se deixa ficar para trás para dar uma palavrinha ao senhor padre, o coro também fica, os rapazes e raparigas que o compõem são dos que sabem que, além de pároco na Boa Nova, no Bom Sucesso e capelão do Estabelecimento Prisional, Tony Sousa é instrutor de Body Combat e de Body Pump em dois ginásios.

Gregório Cunha

O facto não é segredo, mas o clérigo admite que pode causar alguma estranheza. “Quando se fala de padres no desporto o máximo de que se fala é de futebol”. Do que sabe, é o único no país com certificação de instrutor das duas modalidades de fitness e será caso raro em todo o mundo. A verdade é que, quando se inscreveu no ginásio, estava longe de imaginar que acabaria a dar aulas. “Fui como a maioria das pessoas por uma questão de saúde e para descontrair”. A vida dos novos padres é preenchida, têm sempre mais do que uma paróquia para administrar.

Depressa percebeu que não se faz intervalos quando se é padre, mesmo antes de ser instrutor. “Uma vez, quando comecei, ainda era só sócio, estava a treinar na sala de aparelhos quando uma senhora veio ter comigo para me perguntar o horários das missas. Claro que estava a brincar”. Quase 10 anos depois – há nove que é instrutor de Body Combat – há quem venha pedir conselhos, contar problemas, vão às aulas e procuram o padre. “Às vezes é como estar na paróquia e eu pensei que vinha para me distrair um bocado”.

Gregório Cunha

Não que se queixe, sempre quis ser padre, mesmo na idade em que os miúdos sonhavam ser bombeiros ou médicos. Aos 12 anos entrou para o seminário contra a vontade dos pais, antigos emigrantes na África do Sul. “Os meus pais sonhavam um futuro diferente para mim, hoje têm muito orgulho”, explica o padre de 42 anos, quase 17 de ordenação. “Fui ordenado a 29 de Julho de 2000, na Sé do Funchal e, nesse ano, fui o único padre diocesano a ser ordenado”.

O caminho até chegar ao dia da ordenação não foi fácil, esteve para desistir. “Não foram simples os primeiros tempos no seminário, o ambiente era muito mais austero e mais pobre do que eu estava habituado na casa dos meus pais. Pensei em desistir, mas aguentei, queria mesmo ser padre, era a minha vocação”, confessa Tony Sousa, nascido na Cidade do Cabo, um dos quatro filhos de uma família de emigrantes a quem nada faltava em casa.

O mesmo padre que está à porta da sala do ginásio no centro comercial do Caniço, a poucos quilómetros do Funchal, agora equipado como se pede a um instrutor de Body Pump, pronto para uma aula à hora de almoço num dia de semana. Na escala afixada à porta diz que a aula é dada pelo Tony, assim seco, mas quem chega sabe que Tony é o padre Tony. O primeiro a chegar é um guarda prisional, conhecido dos 14 anos que leva como capelão na cadeia, que não fica muito longe dali. Entram depois mais umas senhoras e, no palco, o instrutor prepara-se para aula, já lá estão os pesos, a barra e Tony testa o som e o microfone.

À entrada uma sócia paga a mensalidade e brinca do outro lado do torniquete: “senhor padre barraram-me a entrada”. O padre responde que no ginásio não será o pior, mau “é se for assim no céu” e toda a gente ri, uma piada antes de começar o trabalho numa semana de feriado, com pouco exercício e um ou outro excesso na comida. O Tony assume o papel de instrutor, fala de como será a aula, que é para treinar bíceps e tríceps, os malfadados músculos do adeus. E avisa: “se ficar a doer é porque foi bem feito”.

Gregório Cunha

Os primeiros acordes da música ouvem-se no sistema de som, as barras com os pesos estão às costas e começa o treino. Não é o que o padre Tony mais gosta. “Isto é só para treinar músculo, não tem a piada. O Body Combat é muito mais divertido, dar socos e pontapés no ar é mesmo muito bom para o stress”. É coisa para se fazer ao fim da tarde, depois de um dia de trabalho, para descomprimir ao ritmo dos golpes de boxe, uns quantos jabs, uns ganchos e uppercut contra um adversário imaginário.

O que, às vezes, até um padre precisa de fazer.

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