Tribuna Expresso

Perfil

Modalidades

As mãos que embalam a dor

Aconteceu no dia das mentiras: Bruno Pereira estreou-se como profissional, meses depois de ter treinado com Paulo Seco, o mesmo homem que preparou Nuno Lopes no filme “São Jorge”. Esta é a história dessa noite e das que seguiram ao seu primeiro combate profissional, que deixou marcas no pugilista – e na família

Alexandra Simões de Abreu (reportagem), José Caria (fotografia), Salvador Freitas (vídeo)

Partilhar

Não é qualquer um que liga as mãos a um pugilista. Tem de ser o treinador. É uma espécie de ritual, um momento de partilha entre os dois. Uma volta, outra volta, aperta bem, mais uma volta e outra ainda, até todos os nós dos dedos estarem bem protegidos.

Depois vem a vaselina. No nariz, nas maçãs do rosto, num sobrolho, no outro, no queixo. É a forma de evitar que a pele rompa a cada pancada. O cerimonial prossegue com o “vick” espalhado nas narinas, para ajudar a respirar nos momentos mais intensos. E cruéis

À volta de Bruno Pereira e de Paulo Seco, pugilista e mentor, há meia dúzia de pessoas. Treinadores, dois fotógrafos e um ou dois curiosos da equipa que tratam da logística. Falta o aquecimento final. Bruno bate forte nos plastrons, cada vez mais rápido, cada vez mais focado.

Fora do balneário, a canção “Oh gente da minha terra” da fadista Mariza ecoa alto e bom som quando o locutor de serviço anuncia ao microfone o nome do boxeur. A música escolhida pelo taxista-lutador contrasta com o rock e o ritmo frenético que até aí animaram o público, e trespassa o pavilhão do Boa Hora Futebol Clube que se arrepia emocionado.

Às tantas, Bruno Pereira e Tiago Pratas entram no ringue, põem-se frente a frente, olham-se como dois gladiadores.

Está na hora.

O clássico e a mentira

O dia começou preguiçoso, por volta da hora do almoço. Bruno acordou ao meio-dia, foi com o pai e o cão Mateus dar um passeio até ao rio; voltou, comeu massa com carne guisada e descansou o resto da tarde no quarto. É dia 1 de abril e também é dia de Benfica-FC Porto, mas ele não irá ver o jogo para não lhe mexer com os nervos.

Preferiu ouvir música alegre, latina, para se animar, e passar ao lado do seu Benfica. Também não pensou muito na tática nem na estratégia ou em novos truques e combinações. “Já não há ciência. O que tiver de acontecer, acontece. Os socos estão todos inventados, de cima para baixo, de baixo para cima, da esquerda para a direita, da direita para a esquerda”.

Bruno sorri um sorriso tenso debaixo dos olhos caídos, mas brilhantes, o mesmo brilho que Verónica vê quando ele está em cima do ringue.

Verónica, Sandra e José Pereira, noiva e pais de Bruno, chegaram com ele ao Pavilhão Boa Hora Futebol Clube, em Lisboa, mais ou menos à hora em que se disputava o único combate feminino da noite de gala chamada “Fight For Glory” - Érica Évora contra Marta Fragoso, categoria 57 kg, triunfo para Érica, para gáudio das mulheres Évora.

Enquanto isto foi acontecendo, Bruno encostou-se à parede, lá atrás, na penumbra. Vestia calções cinzentos e uma t-shirt da mesma cor com a frase “Shake your bones” estampada. Desferiu murros no ar, saltitou; ainda faltava tempo para o seu combate - ainda faltavam dois combates.

O de Pedro “Number One” Matos, rapaz de 29 anos que é promotor e campeão nacional na categoria de 55kg, contra José Aguilar, da Nicarágua, que ganhou 34 dos seus 50 combates profissionais. E o de Rui “El Bombardeo” Pavanito, corpo tatuado e cara de mau e sorriso malandro escondido na barba, contra Michael Mora, também nicaraguense. Os portugueses derrotaram os centro-americanos, o primeiro por pontos, o segundo por KO, logo no 1.º assalto, depois de Mora ir ao tapete quatro vezes. Mora é “um boneco com cabelo”, um “saco de pancada”, dizem nas bancadas. Pavanito é “forte, muito forte”, mas o Mora foi-se abaixo cedo de mais e a malta não gostou.

O pavilhão do Boa Hora Futebol Clube está longe do glamour e da grandeza do MGM Grand Garden Arena de Las Vegas e aqui não existem os milhões que tornam esses pugilistas multimilionários. O cachê de Pedro Matos e dos outros profissionais é de 1200 euros, o de Bruno, 600. Mas o dinheiro não importa agora.

O que importa é o sonho e a pressa de lá chegar.

Mais leve, mais perigoso

O combate de Pavanito acabou antes do previsto e Bruno Pereira atrasou-se. Rapidamente, Paulo Seco calçou-lhe as luvas, as luvas de um profissional, diferentes das que ele está habituado. São mais pequenas e mais leves, de 12 onças para 10 onças, 340 gramas para 283 gramas, o que aumenta a velocidade e o impacto dos golpes, obrigando a uma defesa mais fechada.

Verónica e Sandra, noiva e mãe, já não conseguem estar sentadas, e um tio de Bruno Pereira está o lado de ambas a gritar e a gesticular contra o adversário do sobrinho, que o espera no ringue. O irmão de José Pereira terá de ser posto fora da sala.

No entretanto, aparece Bruno Pereira, com a Mariza a tocar na sala e ele de braços levantados, com a maioria dos espectadores do seu lado. São colegas dele e do pai José Pereira, taxistas como eles, que nunca assistiram a um combate de boxe ao vivo. Há uma rapariga de longos cabelos negros a dar a volta que vemos nos filmes, vestida num fato reduzido que atrai os assobios da rapaziada, e levanta a placa anunciar o primeiro assalto.

O árbitro chama Bruno Pereira e Tiago Pratas e dá-lhes instruções, número de assaltos (três), atenção aos golpes baixos. Há tensão no ar e toca a sineta.

Ding. Ding.

Começou.

Bruno entra bem e antes dos três minutos do primeiro assalto terminarem, consegue levar Tiago ao chão, obrigando o árbitro a uma contagem de proteção. Ergue as luvas em sinal de vitória. É como se o seu Benfica tivesse acabado de marcar ao FC Porto de Tiago.

O público puxa pelo taxista “Bruno, Bruno, Bruno” e ele deixa-se contagiar. Empolga-se, dá asas ao coração, provavelmente não ouve o que lhe estão a dizer.

Um metro abaixo, no solo, Paulo Seco tenta chamá-lo à realidade, orientá-lo, mas Bruno está em êxtase e entretanto Tiago recupera no canto azul, como quem se esconde à espreita.

Toca o sino novamente.

Segundo assalto.

Bruno reentra outra vez a carregar sobre o adversário, só pensa em cumprir a promessa feita no vídeo promo: deixar o adversário KO. Nesta altura já está numa bolha só dele, alheio ao que lhe gritam, e quando baixa a guarda a experiência de Tiago vem ao de cima. As coisas equilibram-se e o comentador de desportos de combate Francisco Botelho diz: “Está a ser ótimo, qualquer um deles pode ganhar”.

Está tudo empatado, como na Luz.

Um minuto na vida, a vida num minuto

Três dias depois do dia 1 de abril, o dia em que se estreou como profissional, Bruno Pereira diz que ainda não teve coragem para ver o vídeo do combate. As dúvidas que ficaram no Pavilhão do Boa Hora continuam a persegui-lo: porque é que o médico não foi chamado, o sangue no tapete azul, o oxigénio e a consciência. Paulo Seco, o treinador, também não é claro; se calhar, como no ditado, “mais vale perder um minuto na vida do que a vida num minuto”.

Bruno está de férias e a Páscoa está aí tão perto que ele não quer pensar naquela noite, nos pais, nos gritos, na proteção bucal, nas rotinas.

Acordar às seis e meia para ir correr. A gemada com quatro ovos. O trabalho e as corridas no táxi. O almoço com o pai no lugar do costume e o regresso ao batente depois da refeição. O ginásio. O jantar, os passeios, e uma última ronda de carro se as contas a isso obrigarem.

“Tenho de pensar. Ser profissional depende muito dos resultados. Sinto que estou a lutar contra tudo e contra todos”, garante, num primeiro momento, ao telefone. Mais tarde confessará ter “saudades de treinar” e daquela vida.

Para Ana Bispo Ramires, estes vaivéns são coisas que acontecem. A psicóloga argumenta que o pugilista-taxista “teve uma carga muito elevada de pressão positiva, que às vezes é pior do que a negativa”. Bruno, segundo Ana, terá sido apanhado de surpresa no momento errado do combate e quando o “outro vem atrás dele, com força, é como se um TGV o tivesse atropelado”. “Ele só deve desistir quando estiver em paz, senão ficará para sempre com uma mágoa. Esta é a pior fase para tomar decisões. Este trambolhão surgiu na melhor altura porque dá-lhe a oportunidade de reorganizar-se e regressar muito melhor e mais forte, com a energia no sítio certo”.

Bruno está com o corpo moído, a cabeça está dorida, mas é tempo de regressar e de deixar de revisitar aquele momento.

A dúvida que passa

Aconteceu no terceiro assalto e foi tudo muito rápido: Bruno foi às cordas, Tiago não parou de socá-lo e o árbitro interrompeu o combate. Houve sangue, Paulo Seco tentou endireitar o nariz de Bruno, a toalha cada vez mais manchada de vermelho e em menos de um fósforo o juíz deu o combate por terminado. O pai e a mãe de Bruno ficaram fora de si, aos gritos com o árbitro. José Pereira queria mais, acreditava que o filho tinha forças para continuar e podia arrumar o adversário. Sandra indignou-se com o árbitro porque este não interrompeu o combate, como mandam as regras, quando a proteção da boca do filho caiu ao chão. “Se eu vi, que estava cá em baixo, a três ou quatro metros, ele lá em cima não viu?”.


Armou-se a confusão, a histeria e os berros, mas Bruno manteve-se no olho do furacão, o lugar mais calmo para se estar em situações destas, e tentou acalmar o pai, “velhote, não passa nada”, cumprimentou o adversário, mas os seus olhos já não brilhavam como dantes. Ele sabia que tinha acabado de perder da forma mais dolorosa e humilhante - por K.O.

Mas como o Rocky Balboa de que ele tanto gosta, a história de Bruno Pereira terá sequelas. É quase inevitável que ele se entregue a esta arte e a este jogo, que acorde para correr quando o mundo ainda dorme. que o seu nariz seja novamente quebrado, que volte a sangrar, que ouça os gritos dos pais.

Porque é assim que ele se resume.

“Eu tenho o boxe dentro de mim”.

Partilhar

  • Taxi Driver (ou um murro no estômago)

    Modalidades

    Bruno Pereira construiu o sonho de ser pugilista profissional e apesar de só ter começado a praticar boxe aos 23 anos, nunca desistiu. Terá o seu batismo de fogo no dia 1 de abril e no seu canto terá Paulo Seco, o homem que treinou o ator Nuno Lopes para o papel no filme “São Jorge”, que estreia hoje. Esta é a sua história