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O combate que nem Muhammad Ali quis

A Guerra do Vietname foi a luta que nem um dos maiores pugilistas de sempre quis. Muhammad Ali não teve medo: não avançou em direção ao exército e foi despojado do título de campeão

Cláudia Alves Fernandes

Muhammad Ali é um dos maiores nomes do pugilismo e recusou ir à Guerra do Vietname

Getty Images

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O nome não deve ser estranho: Cassius Clay, ou Muhammad Ali – nome com o qual se rebatizou, quando se converteu ao islamismo – é um dos maiores pugilistas da história do desporto. Em 1999, foi mesmo considerado "O desportista do século", pela Sports Illustrated. O que poucos sabem – ou esperam – é que o já falecido campeão mundial de pesos pesados se tenha recusado a ir a combate.

Ainda como Cassius Clay, ganhou, em 1960, a medalha de ouro de semi-pesado nos Jogos Olímpicos, em Roma. Mas quando voltou a pisar solo americano, Ali quase foi derrubado com um golpe direto: não havia honra, nem medalha que o salvasse da segregação racial que se vivia no país dos sonhos. Na América, Muhammad continuava a ser apenas mais um negro a quem eram negados serviços apenas disponíveis para a população branca.

Enquanto se fazia maior, ganhando combate atrás de combate, sem nunca ver de perto o tapete, o campeão contactava com Malcolm X e Elijah Muhammad, dois nomes islâmicos que faziam crescer em Ali a consciência social e a luta pelos direitos da minoria afro-americana.

Ainda não fez um ano desde que a lenda morreu e, há 50 anos, quando corria o ano de 1967, Muhammad Ali ouviu o seu nome ser chamado por três vezes no recrutamento, em Houston, nos Estados Unidos da América. A próxima etapa seria dar um passo em frente, fazer o juramento e alistar-se no exército. Seria, mas não foi.

No dia em que Ali é chamado para o exército, já tinha deixado pelo caminho nomes como Sonny Liston, Floyd Patterson ou Henry Cooper e detinha o título de campeão de pesados. Mas o seu ringue não era aquele e Ali não cedeu: "Porque é que hei-de disparar contra vietnamitas a 16 mil quilómetros quando, em Louisville, os negros continuam a ser tratados como cães e são-lhes negados direitos humanos? Os brancos são os meus inimigos".

Muhammad Ali, conhecido fora dos ringues pela luta incessante contra o racismo, recusou-se a avançar em direcção à guerra. Na verdade, o atleta não sabia que estava a dar um passo atrás: por se recusar a combater na Guerra do Vietname, o campeão foi despojado dos títulos, condenado à prisão por cinco anos, viu a sua licença para praticar boxe ser-lhe retirada e a população que tanto o amava – especialmente os afro-americanos – virar-lhe as costas, enquanto o chamavam traidor.

Em 1967, quase 500 mil soldados americanos foram enviados para o Vietname, para lutar no contexto da Guerra Fria, que opunha os Estados Unidos da América à União Soviética, no sudoeste asiático, mas o patriotismo não cegou o homem mais forte do mundo.

Ainda que nunca tenha chegado a ver o sol a nascer atrás das grades - graças aos recursos apresentados pelos seus advogados -, perdeu todos os títulos que até então tinha ganho e esteve três anos sem licença para lutar. Durante esse tempo, correu a América a dar palestras em escolas e faculdades para consciencializar a população para os direitos humanos.

Quando voltou a pisar o tapete, fê-lo em força: tornou-se no maior pugilista do seu tempo. Em 1974 recuperou o título mundial e repetiu o feito em 1978. Foi assim que Muhammad Ali deixou a sociedade K.O. e mostrou que o único título do qual não prescindia era o da liberdade de expressão.

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