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Hayden: o adeus do “Kentucky Kid”, o rapaz mais simpático do paddock

Nicky Hayden podia não ser o mais rápido do Mundial de MotoGP, mas ficará na memória dos colegas como um exemplo de desportivismo e amizade. Valentino Rossi era um dos seus melhores amigos

Lídia Paralta Gomes e Diogo Pombo

Mirco Lazzari gp

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Talvez Nicky Hayden não fique na história como o mais conhecido dos naturais de Owensboro, uma pequena cidade do Kentucky de 60 mil habitantes. Esse título está nas mãos do ator Johnny Depp. E talvez também não seja lembrado como o melhor piloto da história do MotoGP, porque há Giacomo Agostini, Mick Doohan e, claro, Valentino Rossi.

Mas o “Kentucky Kid” era especial. Quando em 2015 entrou para o Quadro de Honra do Campeonato do Mundo de MotoGP, Carmelo Ezpeleta, responsável máximo do Mundial frisou isso mesmo: “Para todos nós é um grande prazer dar este prémio ao Nicky, não apenas porque foste campeão e por seres um dos pilotos com mais partidas na categoria rainha, mas também pelo teu desportivismo e amizade”.

E um dos melhores amigos era precisamente Valentino Rossi, tal como escreveu o campeoníssimo piloto italiano após o acidente que acabou por tirar a vida ao norte-americano.

Campeão mundial de MotoGP em 2006, um título de nervos e disputado até ao fim, com muito drama à mistura, Hayden partiu esta segunda-feira, com apenas 35 anos, não resistindo aos ferimentos graves que sofreu após ser atropelado numa estrada em Rimini, na costa leste italiana, enquanto fazia um treino de bicicleta. Neste momento corria no Mundial de Superbikes, depois de abandonar o MotoGP em 2015 - apesar de ainda ter feito duas corridas em 2016, substituindo o lesionado Jack Miller.

De antigos companheiros a jornalistas não se ouvirá nada muito diferente de isto: de 2003 a 201, não passou pelo paddock piloto mais amável e profissional. “Nunca mudou, desde o momento que o conheci, quando ele tinha apenas 17 anos, até se tornar campeão do mundo”, disse o comentador da BBC Steve Parrish. “Nunca ouvi ninguém dizer nada de mal sobre o Nicky, o que não é nada normal no mundo das corridas”, continuou.

Nicky Hayden nasceu no meio das duas rodas. O pai era especialista de Dirt Track e tanto a mãe como todos os irmãos, quatro no total, dois rapazes e duas raparigas, competiram na mesma disciplina.

E foi exatamente no Dirt Track que Nicky se estreou, embora cedo se tenha apercebido que a sua grande paixão era a velocidade. Aos 16 anos tornou-se profissional, competindo no campeonato de Superbikes norte-americano. Em 2002 tornou-se no mais jovem vencedor da competição, com apenas 21 anos.

Em 2006, depois de conquistar o título mundial

Em 2006, depois de conquistar o título mundial

Denis Doyle

Daí até aterrar diretamente na categoria rainha do motociclismo foi um tiro. Em 2003 assina com a Honda, uma das powerhouses do MotoGP, onde correu ao lado de pilotos como Valentino Rossi, Alex Barros ou Max Biaggi.

Drama no Estoril

Em 2006, Hayden iniciou a época como um dos grandes candidatos ao título e liderou boa parte da época. Até que viveu em Portugal um dos momentos mais complicados da carreira: um acidente provocado pelo companheiro de equipa Dani Pedrosa colocou Hayden fora de jogo e permitiu a Valentino Rossi subir à liderança do Mundial com 8 pontos de vantagem e apenas uma corrida pela frente.

Mas a sorte que lhe faltou no Estoril acabou por estar do seu lado em Valência. Desta vez foi Rossi a cair, Hayden foi 3.º e conquistou o único título da carreira, numa época em que apenas venceu duas corridas, mas subiu oito vezes ao pódio.

Os últimos anos foram mais complicados, tendo de pilotar motos menos competitivas, nada que lhe retirasse a boa disposição e profissionalismo, imagem que deixará para sempre entre os seus pares.

Cronologia de Nicky Hayden e números no MotoGP

Vitórias em Grandes Prémios: 3

Pódios: 28

Pole positions: 5

Corridas em que registou a volta mais rápida: 7

2002: torna-se no mais jovem campeão de sempre da AMA Superbike, o principal campeonato de motociclismo nos EUA. Tem 21 anos.

2003: entra diretamente na classe rainha (500cc) do MotoGP, e partilha equipa, na Honda, com Valentino Rossi. O primeiro grande prémio em que participa é no Japão, no circuito de Motegi, e termina a época no quinto lugar da classificação. É considerado o rookie do ano.

2005: consegue a primeira pole position (acaba o ano com três) e vitória no MotoGP, e logo em casa, nos EUA. Termina a época na terceira posição, atrás de Marco Melandri e de Valentino Rossi.

2006: é campeão mundial de MotoGP, mas vence o título apenas na última corrida, depois de sofrer uma queda no autódromo do Estoril, na penúltima prova da época. Acaba com a série de quatro títulos seguidos de Valentino Rossi. Não mais terminaria acima do sexto posto no classificação final.

2009: troca a Honda pela Ducati e termina na sua pior posição até então (13º), num ano em que sofre muitos acidentes e problemas mecânicos.

2011: volta a ser companheiro de equipa de Valentino Rossi.

2012: pela primeira vez, fecha uma época sem terminar pelo menos uma corrida no pódio. Não o voltaria a conseguir.

2015: o último ano como piloto oficial de uma equipa do MotoGP. Termina na 20ª posição da classificação geral.

2016: vai competir para o campeonato do mundo de Superbike e conquista o título. Ainda faz duas corridas do MotoGP nesta época, como piloto substituto da Honda, devido às lesões dos dois pilotos da equipa.

2017: é atropelado enquanto faz um treino de bicicleta, em Itália, em maio, e sofre um traumatismo craniano, ao qual não sobrevive. Era o atual 13º classificado do campeonato do mundo de Superbike.