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Volvo Ocean Race: quem disse que os barcos não voam?

A Volvo Ocean Race anunciou mudanças radicais na regata, incluindo novos barcos. Na próxima década, os veleiros usados na mais importante regata oceânica serão de 60 pés com foils e vão ter desafio extremo, talvez o mais radical desde a sua criação, em 1973, uma volta completa à Antártida. Já nas regatas In-Port, como a que decorre em Lisboa, as equipas vão usar catamarans voadores. O Expresso foi a Gotemburgo conhecer as novidades

Jaime Figueiredo

Jaime Figueiredo

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Previsão do tempo para dia 18 de maio em Gotemburgo: céu com sol durante todo dia. A temperatura começou baixa com 7ºC e elevou-se aos 20ºC ao fim da manhã, a contrastar com o dia chuvoso e frio do dia anterior. Não há nenhuma metáfora aqui, apenas um relato meteorológico.

O sol é muito bem-vindo no Norte da Europa e Gotemburgo, uma cidade com meio milhão de habitantes, não é exceção. Foi precisamente num ambiente quente e bem- disposto no museu da Volvo em Gotemburgo que Mark Turner, CEO da Volvo Ocean Race, subiu ao palco para desvendar o segredo mais bem guardado dos últimos meses e para apresentar uma visão ousada para a próxima década.

Monocasco ou multicasco?

"Tivemos muitos debates sobre usar multicascos ou monocascos e, de facto, a solução para nós é fazer as duas coisas. Então haverá três cascos nas futuras edições", referiu Mark Turner. "Para a Volvo Ocean Race foi um desafiado extremo e com essas mudanças - talvez as mais radicais desde que a regata começou em 1973 - vamos levar a competição a outro patamar. Uma obsessão que levou gerações de velejadores a procurar a vitória continuamente. No entanto, para levantar o troféu, os candidatos têm agora uma maior exigência, dedicação, habilidade e sacrifício".

A organização revelou que vai construir oito novos barcos One Design (com um desenho igual para todas as equipas) com um investimento de 50 milhões de euros e que entregará os modelos em janeiro de 2019 às equipas, assumindo também que não haverá um aumento de custos para a participação de uma equipa por os planos futuros das equipas incluírem uma segunda embarcação.

Monocasco VOR60

Nos veleiros de competição a revolução começou pelos multicascos, mas aos poucos tem-se vindo a alargar aos monocascos. E é essa a principal mudança pensada para a próxima geração de veleiros que constituirá a frota da Volvo Ocean Race. Assim, as etapas oceânicas tenderão a tornar-se mais rápidas, encurtando o tempo global da prova.

A partir de 2020, serão utilizados monocascos de 60 pés (18,29 metros) equipados com a última geração de tecnologia foiling - patilhões laterais ajustáveis em forma de V que elevam o casco acima da água, endireitando o barco, diminuindo assim brutalmente o atrito, fazendo aumentar substancialmente a velocidade, que poderá chegar aos 40 nós.

O novo veleiro é mais pequeno do que os atuais que vão partir de Alicante a 22 de outubro deste ano, para próxima edição da regata mundial, os VOR65 de 65 pés (20,37 metros)

O novo design, permite ainda que a plataforma do barco seja convertida, de forma barata e rápida, num IMOCA60, os barcos de 60 pés são usados em regatas icónicas, como a Vendée Globe, uma competição de circum-navegação que acontece a cada 4 anos, à volta do planeta, à vela, em solitário, sem escalas.

Tal seria também prenúncio para a redução do tamanho das equipas que não ultrapassará os 7 elementos, mandendo as regras de incentivos para existirem equipas mistas. Nos VOR65 as tripulações podiam ser compostas até 11 pessoas.

Arquitecto naval francês Guillaume Verdier

Arquitecto naval francês Guillaume Verdier

Jaime Figueiredo

Verdier o inovador

Os novos barcos são desenvolvidos pelo arquiteto naval francês Guillaume Verdier e construídos pelo estaleiro Pérsico em Itália, um sólido parceiro da Volvo ao longo dos últimos anos.

Verdier admite que se prevê um futuro promissor para os novos monocascos da Volvo. “Eu acho que é muito possível que o ‘top’ IMOCA seja um Volvo. As pessoas dizem que não é possível, mas eu acho que eles estão errados. São embarcações diferentes, mas a evolução tecnológica tende a aproximá-las, uma vez que os IMOCA pretendem ser mais velozes e para isso têm antes de se tornar mais fortes. Os barcos da Volvo, que já são fortes, pretendem tornar-se mais rápidos.”, explicou o francês ao Expresso.

Guillaume Verdier é uma pessoa simples e discreta. Tem estado envolvido nos principais projetos desta modalidade nos últimos anos: os multicascos gigantes como o Gitana Maxi Edmond de Rothschild, o barco-voador do Team New Zealand, participante nesta edição da America’s Cup, a maxis monocascos como o Comanche e barcos IMOCA 60 com foils de primeira linha na Vendée Globe.

Projeto do novo catamaran de dois cascos

Projeto do novo catamaran de dois cascos

Jaime Figueiredo

Catamaran voador

Além dos monocascos, a Volvo Ocean Race está a lançar concurso para um novo catamarã de desenho único. A partir da 15ª edição, as regatas costeiras (In-Port), que se realizam quando a equipa está atracada numa das cidades que acolhe o evento, vão deixar de o ser com o mesmo barco com que se navega pelos oceanos, passando cada equipa a ter uma segunda embarcação. Neste caso serão utilizados catamarãs ‘voadores’ de dois cascos, com 32 a 50 pés (10 a 15 metros), uma embarcação muito mais leve e rápida que usará algumas das tecnologias conhecidas da ‘America's Cup’ .

"O vencedor da Volvo Ocean Race no futuro será aquele que melhor dominará a navegação em todo o mundo através dos grandes oceanos. Mas vamos colocar um pouco mais de valor nessa habilidade costeira, usando as ferramentas certas para ganhar. Assim, teremos monocascos com tecnologia foiling em todos os oceanos e catamarãs nas corridas costeiras. Para ganhar a Volvo Ocean Race as equipas terão que dominar ambas as provas. Você tem que ser o melhor marinheiro” referiu Turner.

Mudanças radicais nas rotas

Os detalhes ainda estão por confirmar, mas Turner revelou que estão a ser consideradas alterações na periodicidade das provas para um ciclo de dois anos, em vez de três como é atualmente. Esse processo está já em curso prevendo-se que a partir da próxima edição, que começa em outubro, a direção da corrida pretenda a seguinte em 2019.

Outra possibilidade para os próximos anos é uma volta ao mundo sem escalas. Mas enquanto as rotas podem variar, a regata compromete-se a visitar a América do Norte, América do Sul, Austrália, China, e pelo menos cinco grandes mercados europeus, no mínimo uma vez a cada duas edições. Os portos também poderão escolher entre uma variedade de formatos de escala flexíveis - desde uma paragem de 24 a 48 horas até mais longas, de cinco dias, ou de duas semanas com ativação completa. Alicante vai continuar como cidade sede do evento por mais duas edições mas a chegada pode passar a ser fora da Europa.

Dos vários mapas apresentados por Turner, com possíveis trajetos para as edições futuras, houve um que prendeu a atenção de todos os que estavam na apresentação. Um desafio extremo, talvez o mais radical desde a sua criação em 1973 como Whitbread Round the World Race, uma volta completa à Antártica.

“Nunca ninguém terá navegado a Antártida de uma ponta à outra”. É levar a competição para outro nível completamente fascinante. Isto é a corrida”, afirma Mark Turner durante uma conversa com jornalistas portugueses (Expresso, DN e Sapo 24)

Instalações da ‘Boatyard’ na Doca de Pedrouços

Instalações da ‘Boatyard’ na Doca de Pedrouços

Jaime Figueiredo

Volvo quer continuar em Lisboa

Com os dois novos veleiros, o monocasco e o multicasco, faz todo o sentido que a Doca de Pedrouços, local escolhido para instalar o Boatyard, continue a permanecer no mapa da Volvo Ocean Race durante os próximos anos.

“Queremos que aquelas instalações sejam parte da próxima década. Está claramente nos nossos planos. Mas não é uma certeza” confessa Nick Bice, o australiano responsável pelo departamento de manutenção das embarcações, dando a entender que a burocracia portuguesa pode complicar o processo. “Temos a ambição de ficar”, refere.

Passados praticamente 9 meses de existência do estaleiro na Doca de Pedrouços, onde as embarcações utilizadas na última edição de 2014/2015 são reparadas, o balanço que Nick Bice faz é positivo.

Para o Boatyard de Lisboa, a organização pensa ainda instalar uma academia de formação de velejadores, sendo o objetivo permitir que marinheiros olímpicos façam a transição para a vela oceânica.

Nos próximos meses haverá um grande movimento no porto de Lisboa até que as embarcações partam para Alicante, em Espanha, cidade onde irá começar a regata à volta do mundo.

Por agora, é apenas certo que a capital portuguesa será a segunda paragem dos velejadores que participarão na próxima edição da prova de regata à volta do mundo. A edição atual da Volvo Ocean Race começa em Alicante, no dia 22 de outubro, e visitará 12 cidades-sede e seis continentes. Os barcos percorrerão 46 mil milhas náuticas - o equivalente a 83 mil quilómetros - até à chegada em Haia, em junho de 2018.

*O Expresso viajou a convite da Volvo Ocean Race

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