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Allora, as conversas de Valentino Rossi com a imprensa continuam a valer a pena

Aos 38 anos, o piloto italiano continua a ser (de longe) a estrela mais amada do mundial de MotoGP. E 21 anos depois da estreia nestas andanças, mantém o humor e o carisma que fazem com que qualquer conferência de imprensa seja um espetáculo dentro do espetáculo

Lídia Paralta Gomes

Mirco Lazzari gp

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Não sou novata nisto e, como cantava o Jim Diamond naquela música de fazer chorar as pedras da calçada, I should have known better. Ir para uma conferência de imprensa de Valentino Rossi a apenas 10 minutos do arranque é um risco. Chego e confirmo que já não há muito por onde me mexer, mas ainda assim apanho a última cadeira disponível. Cinco minutos depois já muita gente de amontoa de pé, encostada à parede, de gravadores e garrafas de água na mão, que está um calor perto do humanamente insuportável em Montmeló.

Porque Valentino é Valentino. Isto parece uma daquelas frases do género “o futebol é isto mesmo”, mas é a primeira coisa que ocorre dizer a quem aterra pela primeira vez num paddock do MotoGP. Jorge Jesus disse um dia, para escândalo de meio mundo, que era preciso um jovem do Benfica nascer 10 vezes para substituir Matic. No MotoGP as estrelas vão nascendo, é verdade. Depois de Rossi apareceram Casey Stoner, Jorge Lorenzo e Marc Márquez. Todos eles foram campeões e todos eles são bons. Mas nenhum é Valentino - e por esta altura já toda a gente o trata apenas por Valentino -, nove vezes campeão do Mundo, para muitos o melhor de sempre, e que aos 38 anos continua a ter uma legião de seguidores largamente superior (e colorida, barulhenta, apaixonada) à dos restantes pilotos.

Aos 38 anos, Rossi continua a ser o mais amado dos pilotos do Mundial de motociclismo

Aos 38 anos, Rossi continua a ser o mais amado dos pilotos do Mundial de motociclismo

D.R.

Porque ele tem carisma. Muito carisma. Mesmo quando as coisas lhe correm mal.

Rossi foi apenas 13.º na qualificação para o GP Catalunha, o que não é nada, nada bom. Aliás, há quase 10 anos que Il Dottore não tinha uma qualificação tão má em piso seco. Está calor, a pista não tem aderência, os pneus são uma desgraça. O colega na Yamaha oficial, Maverick Viñales, já tinha apresentado a lista de queixas minutos antes, contam-me. Mas Valentino chega, tranquilo, sorridente, sempre com o seu brinco na orelha esquerda. Nem precisa de perguntas, começa logo a desbobinar, segurando o microfone como uma estrela do hip-hop. Primeiro naquele inglês que basicamente é italiano com palavras em inglês lá pelo meio. Há 21 anos que Rossi anda nisto e há 21 anos que não perde um pingo de sotaque - e ainda bem, note-se.

Tal como Viñales, Rossi não satisfeito com as condições nem com a resposta da sua Yamaha. “Sinceramente pensava que ia sofrer menos hoje. Com o asfalto como está e 50 graus na pista, é um pesadelo pilotar aqui”, diz, naquela forma sincera que nunca abandona.

As respostas em inglês são pontuadas com “alloras” porque podes tirar o homem de Itália mas não podes tirar Itália do homem. “Allora, first of all I think…”, “Allora, if it’s more hot, is more difficult”. A gramática não é fantástica, mas who cares?

O que preocupa Rossi para a corrida de domingo é, basicamente, saber se os pneus aguentam até ao fim. Um drama para quem luta pelo título e que deixaria qualquer piloto em fúria. Rossi prefere gozar com o seu próprio infortúnio. “Posso ir com pneus médios, com os quais não somos assim tão maus, mas só duram seis voltas - e a corrida tem 25. Com pneus duros, bem, aí somos sempre maus! A escolha é ou fazer cinco voltas e depois abrandar ou ir sempre lento. Depois decidimos! ”. E desata-se a rir.

Se há sítio concorrido no paddock do MotoGP são as conferências de imprensa de Rossi

Se há sítio concorrido no paddock do MotoGP são as conferências de imprensa de Rossi

D.R.

Há que ter humor quando as coisas estão a correr mal. Porque até para um piloto experiente como Rossi, há coisas difíceis de entender: “Não estou a conseguir perceber a diferença de desempenho dos pneus de uma corrida para a outra este ano. Dou-vos três exemplos: em Le Mans, a moto e os pneus estavam fantásticos, em Mugello, a moto e os pneus estavam bem e aqui, em quatro dias, estamos a sentir grandes dificuldades. Aqui podes fazer o que quiseres que a moto vai estar sempre mal”.

“Enfim, vai ser uma corrida dura, mas espero que seja uma corrida dura para todos”. Vale é pela democracia.

Rossi, o conspirador?

Foi uma das histórias do GP Catalunha. Com o objetivo de tornar a pista mais segura depois do acidente mortal do ano passado com Luis Salom, o circuito de Montmeló estreou um novo traçado para a prova deste ano. Ao lado da curva onde se despistou o maiorquino nasceu umas nova chicane e, aparentemente, ninguém se queixou nos testes de decorreram na pista há cerca de duas semanas. Mas, de repente, na última sexta-feira as críticas dos pilotos foram tantas que a organização viu-se obrigada a voltar atrás e adotar o traçado utilizado na corrida de Fórmula 1.

De acordo com o jornal catalão “El Periódico”, os responsáveis máximos do circuito apontaram o dedo a Valentino Rossi, alegadamente acusado de ser o máximo instigador e líder da revolta dos pilotos e, consequentemente, de se terem mandado ao lixo os cerca de 200 mil euros gastos nas obras da chicane da discórdia. É que Rossi não esteve nos tais testes de há duas semanas e, mal experimentou as mudanças, espingardou por todos os lados.

“Só espero que não me façam pagar pelas obras!”, brincou o italiano, arrancando uma gargalhada geral à sala, aquela gargalhada que já se está à espera quando se vai para uma conferência de Rossi.

E isso, I knew better.