Tribuna Expresso

Perfil

Modalidades

Mundiais de Natação: Com Caeleb Dressel o nome de Phelps não foi evocado em vão

Pela primeira vez, um nadador conquistou três medalhas de ouro num só dia. Pela segunda vez, arrecadou sete medalhas num só Mundial. Pela enésima vez, é comparado a outro maior do seu tempo (de todos os tempos, neste caso), mas olhando ao currículo, a associação parece longe de exagerada.

Filipa Silva

Adam Pretty

Partilhar

A vida do comum dos mortais é mesmo assim. Pelo menos a de Caeleb Dressel é. Vai-se a um Campeonato do Mundo de Natação bater três recordes nacionais e dois do mundo, conquistar num só dia três medalhas de ouro - coisa nunca vista - e sete no total da competição para no dia seguinte ter de fazer… um exame de álgebra.

Com 20 anos e um curso para tirar na Universidade da Flórida, o jovem norte-americano tem muitas frentes para atacar. Passou a competição, voltam os estudos, daí virá o regresso aos treinos - 23 horas semanais com alvorada às 5h30 - e a mecânica de uma vida impossível de fazer sem ter foco, sem se ser competitivo e sem ter muita capacidade de sofrimento.

Em Budapeste, Caeleb Dressel igualou o deus moderno das águas - só Phelps tinha conseguido sete medalhas de ouro num mundial, em 2007, na Austrália - motivo pelo qual não era difícil de prever a chegada das comparações.

“Não sei se gosto delas, mas sabia que viriam”, confessou Dressel na Hungria. “Não acho que coloquem qualquer pressão em mim. Só quero continuar a fazer o que gosto aqui e no meu futuro”.

A postura de Dressel é relaxada. Segundo o treinador, é um atleta ao mesmo tempo focado e relaxado para quem a família é muito importante, sobretudo as três irmãs mais novas, todas nadadoras de competição.

Além da família, a religião também parece jogar um papel importante na vida deste nadador que aos 11 anos escolheu a natação em definitivo, tendo deixado de lado o futebol. Tudo o que tem conseguido na natação, disse-o Dressler numa entrevista, deve-se ao talento que Deus lhe deu e ao facto de seguir sempre o que os treinadores lhe dizem para fazer.

Caeleb Dressel a festejar a vitória nos 100 metros mariposa.

Caeleb Dressel a festejar a vitória nos 100 metros mariposa.

MARTIN BUREAU

Nascido em Green Cove Springs, na Flórida, a 16 de agosto de 1996, o nome de Dressler começou a aparecer associado a recordes ainda antes da adolescência. Sempre em distâncias de velocidade, ainda que não goste de ser etiquetado como velocista.

“Conheço as minhas limitações, mas não me quero limitar”, disse a propósito de um bom resultado obtido numa prova de 200 metros livres, distância que considera poder vir a trabalhar mais.

Mas para já é nas distâncias mais rápidas e mais curtas que se tem evidenciado. E desde muito cedo. Aos 14 anos, batia o primeiro recorde nacional do escalão nos 50 metros livres. Um ano depois, nos nacionais de inverno batia um recorde nos 100 metros livres que perdurava desde 1990.

Somaram-se recordes nos escalões de formação. Nos Mundiais Juniores do Dubai, em 2013, vence o ouro nos 100 metros livres, baixa pela primeira vez a barreira dos 49 segundos e bate o recorde nacional do escalão 17-18 anos. Quem era o anterior detentor da marca? Michael Phelps. O recorde nacional da distância voltou a baixar na Hungria, desta feita para os 47.17.

Passado o Mundial Junior, Dressel concentrou-se no desporto universitário, extremamente competitivo nos Estados Unidos. O seu nome continuaria com frequência a aparecer associado à palavra “ouro” e “recorde nacional”.

Em 2016, Caeleb Dressel estreou-se nos Jogos Olímpicos e lá conquistou as suas primeiras duas medalhas de ouro, ambas nas estafetas masculinas. Integrou o quarteto da final que conquistou a medalha mais desejada nos 4x100 livres, tendo integrado as eliminatórias no caso da estafeta de 4x100 estilos. Em ambas, participou Michael Phelps, na recolha dos últimos louros olímpicos da carreira (23 ‘ouros’ no total).

Já este ano, nos campeonatos da NCAA (entidade norte-americana que gere as competições universitárias) Caeleb Dressler saiu com três medalhas de ouro nos 50 livres, 100 livres e 100 mariposa e dois recordes nacionais nestas últimas distâncias.

Dos Mundiais de Budapeste, entram para o currículo medalhas de ouro nos 50 metros livres, nos 100 metros livres, nos 100 metros mariposa - nos quais derrotou o ex-companheiro de equipa e campeão olímpico do Rio de Janeiro, Joseph Schooling, com um tempo que ficou a quatro centésimos do recorde do mundo de Michael Phelps - e ainda nos 4x100 livres, nos 4x100 estilos, nos 4x100 livres mistos e nos 4x100 estilos mistos, estas duas últimas com direito a recorde do mundo.

Admirador de Muhamad Ali e Michael Jordan, e com uma grande tatuagem em construção no braço esquerdo - “sei que estou a ser esquisito mas quero que seja o mesmo artista a começar e a acabar a tatuagem e só tenho um braço esquerdo, por isso acho que posso ser esquisito” -Caeled Dressler está aí para dar que falar. E respeito pelo que faz é coisa que não lhe falta, como se pode comprovar neste vídeo em que sugere a uma repórter italiana, nos Mundiais de Budapeste, que ambos se calem para não interferirem com a partida.