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Ninguém dava nada por Katie até ela tornar simples as coisas impossíveis

Foi cinco vezes campeã olímpica, 13 vezes campeã do mundo e bateu 13 recordes mundiais. Uns dizem que é a grande promessa da natação feminina e outros, mais ousados, arriscam dizer que é a melhor nadadora do mundo neste momento. Ela, por outro lado, poucas vezes parece ciente do que está a acontecer, como se tudo lhe fosse estranho. Tudo menos o mundo da piscina. O que se segue é uma tentativa de a compreender um pouco melhor

Helena Bento

Adam Pretty/Getty Images

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“Melhor nadadora do momento”, “um verdadeiro fenómeno” e “a maior promessa da natação feminina”. São expressões como estas que têm sido usadas para descrever Katie Ledecky, nadadora norte-americana que, desde a sua estreia olímpica em Londres, em 2012, foi cinco vezes campeã olímpica, 13 vezes campeã do mundo e bateu 13 recordes mundiais. Quando usadas, estas expressões são, não raras vezes, seguidas de perguntas como “Como é que ela consegue?” e “Qual é o seu segredo?” - perguntas de quem não consegue compreender como é que uma nadadora com apenas 20 anos conseguiu alcançar o que ela alcançou e granjear comparações a nadadores como Michael Phelps, comparações que seriam absolutamente disparatadas não fossem as semelhanças óbvias entre os dois, não só nos feitos alcançados, como também na forma de nadar (quanto a isto, já lá vamos).

Em cinco anos, Katie Ledecky alcançou um estatuto de vencedora incondicional. De tal modo que, hoje em dia, de cada vez que ela entra no recinto de uma piscina e sobe ao bloco para uma prova, a questão que se coloca não é tanto se ela vai vencer - porque vai, “claro que vai” - mas por quanto é que vai vencer, isto é, por quantos segundos é que vai ficar à frente das suas adversárias. A própria Ledecky já foi muitas vezes questionada sobre o seu “segredo”. Em pelo menos uma das vezes, a sua resposta foi simplesmente esta: “Gosto de ouvir a água, simplesmente. É ao ouvir o seu ritmo que consigo perceber como é que me estou sair em cada prova” (entrevista à rádio “WTOP”).


“Amanhã é outro dia”

A resposta surpreende de tão simples que é. Mas bastam algumas leituras de entrevistas ou artigos mais longos para perceber que este é o tipo de respostas que Ledecky dá quando questionada seja sobre o que for. Respostas simples, breves, diretas. Completas no sentido em que não dão azo a especulações ou segundas e terceiras interpretações. E quase frias, tal é a ausência de adornos ou floreados. Para muitos, refletem até aquilo que Ledecky é. Sue Chen, treinadora do Nation’s Capital Swim Club, que trabalhou com a nadadora até esta ter ido para Stanford, este ano, e começado a treinar com a equipa da universidade, usou a expressão “muito equilibrada” para descrever Ledecky numa entrevista à “Sports Illustrated”. “Vi-a ter de fazer uma pausa, a dada altura, por não estar na melhor forma, e a resposta que ela me deu foi ‘Bom, amanhã é outro dia’”.

Adam Pretty/Getty Images

Uma resposta muito semelhante deu-a a própria nadadora recentemente, depois de ter perdido os 20o metros livres para a italiana Federica Pellegrini, nos mundiais em Budapeste (14 a 30 de julho), e deixado escapar a possibilidade de se tornar a segunda nadadora a conseguir conquistar seis medalhas de ouro numas provas mundiais. Alguns meios de comunicação apressaram-se a noticiar o segundo lugar de Ledecky como “a sua primeira grande derrota da vida” e a levantar suspeitas sobre a forma física da nadadora e a sua futura prestação no Campeonato Pan-Pacific de 2018 (evento que se realiza de quatro em quatro anos e que, a seguir aos Jogos Olímpicos e ao campeonato mundial, é provavelmente a mais importante prova de natação). A nadadora norte-americana, pelo contrário, reagiu com aquela calma estóica que já se lhe conhece. “Acontece. Acontece a todos os atletas em algum momento da sua carreira. Consegui a medalha de prata e não me posso queixar”, disse.

A vitória “surreal” em Londres e o resto

Katie Ledecky é um mistério para muita gente. Não só pela sua postura e (provavelmente só aparente) resignação face às pequenas derrotas do dia a dia, como também pela sua força, energia e resultados. A nadadora norte-americana tinha apenas 15 anos quando foi apurada para os Jogos Olímpicos de Londres e ficou em primeiro lugar nos 800 metros livres, com mais de quatro segundos de avanço sobre uma adversária que, apostas houvesse, recairiam de forma esmagadora sobre ela. Ninguém tinha dúvidas de que Rebecca Adlington, nadadora britânica, seria a grande vencedora da prova (conseguimos imaginar o ar regalado e tranquilo de muitos dos que estavam a assistir à prova nas bancadas, escusando-se sequer a prestar atenção aos primeiros minutos da prova porque 'obviamente está ganho'). Mas não foi isso que aconteceu. A vitória de Ledecky foi uma surpresa até para ela própria. “[Quando percebi o que tinha acontecido] pensei ‘Oh meu Deus. O que é isto? Isto não está certo. Isto não é real. Foi simplesmente surreal… ser capaz de fazer aquilo, naquela prova, naquele ambiente”, contou a nadadora numa entrevista.

Mas Londres foi apenas o começo para Katie Ledecky. Nos mundiais de 2013, em Barcelona, venceu o ouro nos 400, 800 e 1500 metros livres, a que somou outra medalha da mesma cor na estafeta de 4x200 metros livres. Foi também nessas provas que bateu os seus dois primeiros recordes mundiais, nos 800 e 1500 livres (esse ano terminou ainda com uma nomeação para “melhor nadadora do ano” e outra para “melhor nadadora norte-americana” pela revista “Swimming World”). Em 2014, na 12ª edição do Pan-Pacífico, na Austrália, voltou a ficar em primeiro lugar nos 400, 800 e 1200, a que somou uma vitória nos 200 livres, tornando-se a primeira nadadora a vencer quatro medalhas de ouro individuais naquele evento desportivo (bateu, além disso, mais dois recordes mundiais). Já em 2015, nos mundiais em Kazan, na Rússia, repetiu o feito dos cinco ouros e bateu três recordes mundiais.

Finalmente, em 2016, nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, venceu quatro medalhas de ouro e uma de prata e bateu outros dois recordes mundiais, tornando-se a atleta norte-americana mais medalhada numas únicas provas olímpicas. Simone Biles, como quase todos se recordam, venceu quatro medalhas de ouro e uma de bronze (e longe de querer, com esta comparação, inferiorizar uma atleta em função da outra, mas somente dar um lamiré - sim, porque houve mais além destas - do que têm sido as subidas ao pódio de Ledecky). Em vez disto, ou em complemento a isto, também podíamos referir que a nadadora foi considerada uma das “100 pessoas mais influentes de 2016” pela revista “Time”, embora não saibamos exatamente (e provavelmente nem ela) o que isto significa.

Adam Pretty/Getty Images

“Ela falha mais do que qualquer outro nadador do grupo”

Katie Ledecky, como dizíamos, é um mistério para muita gente. A começar por Bruce Gemmell, seu treinador aquando da participação nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, para quem o desempenho extraordinária da sua antiga nadadora continua a fazer pouco sentido, dada a ausência, nela, de quaisquer características físicas remotamente extraordinárias. “Se prestarmos atenção ao pódio, ela é normalmente a atleta mais baixa que lá está. Não tem um tronco longo nem pernas pequenas como Michael Phelps. As mãos são pequenas e os pés têm um tamanho dentro da média”, disse Gemmell numa entrevista, em 2016, à “Sports illustrated”, revista à qual fez questão de contar que a nadadora foi submetida, há uns tempos, a uns testes de avaliação de perfil cujos resultados foram “extraordinariamente banais”. Também não teve problemas em dizer que quando Ledecky lhe chegou às mãos, em 2012, para se preparar para os Olímpicos, não conseguia fazer “três flexões nem correr mais do que um quilómetro e meio”.

O que aconteceu desde então? A resposta é simples (tão simples que podia ser dada pela própria Ledecky) - treino, treino e mais treino. Uma rotina que começa de madrugada, na piscina, e termina já ao final do dia, com mais piscina e outros exercícios fora de água. Isso e uma persistência do camandro, que já imaginávamos que houvesse, mas que Bruce Gemmell deixa bem claro na referida entrevista, ao descrever toda uma rotina de derrotas diárias de uma nadadora que estabelece para si metas que qualquer um julgaria absurdas, menos ela. “Há dias em que ela falha catastroficamente. Falha mais do que qualquer outro nadador do grupo, porque para ela cada treino é como se fosse uma prova. Estabelece tempos e vai repetir cada exercício até conseguir fazer esses tempos. Repete umas seis vezes até a piscina ficar vazia e ela simplesmente cair para o lado de cansaço. Mas sabes que mais? No dia a seguir, ela chega e volta a fazer o mesmo. E ao terceiro dia já conseguiu. Katie é assim desde o primeiro dia em que a conheci”.

Clive Rose/Getty Images

Na verdade, Katie Ledecky é assim desde que começou a nadar num clube de natação local, o Palisades Swim Club, em Maryland, quando tinha seis anos. Numa espécie de lista a que deu o nome de “Wanted Times”, apontava os tempos que queria fazer - tempos esses que, muitas vezes, não estavam sequer ao seu alcance - e treinava com esses números na cabeça. Foi por incentivo indireto do irmão, Michael Ledecky, que Katie fora aprender a nadar. “Eu queria fazer tudo o que ele fazia. Na piscina, andava sempre atrás dele e queria pertencer ao mesmo grupo que ele pertencia. Foi com ele que aprendi a gostar de nadar. Acho que se não fosse ele, eu nunca teria começado a gostar de nadar como hoje gosto”, disse a nadadora numa entrevista à rádio norte-americana “WBUR”. Naquela altura, porém, Ledecky era só uma miúda que achava piada à natação e que nem sequer conseguia nadar 25 metros sem parar na pista ao lado para descansar (conta-se, aliás, que quando conseguiu fazê-lo pela primeira vez, numa das suas primeiras provas, rejubilou de felicidade. Finalmente tinha conseguido chegar ao outro lado da piscina sem parar).

A apoio da família e o estilo imitado a Phelps

Quando se tenta perceber como é que Ledecky consegue ser tão constante nas suas vitórias (e é quase só isso que se tem feito ultimamente), muitas vezes procura-se na sua família as razões da sua determinação e força. É o avô materno, que era judeu e esteve ao serviço da marinha dos EUA enquanto cirurgião durante a Segunda Guerra Mundial. É o avô paterno, que aos 19 anos passou pelas agruras de deixar a sua terra-natal, a antiga Checoslováquia, para partir para os Estados Unidos. É o pai, advogado licenciado em Harvard e doutorado em Yale. É a mãe, antiga administradora de um hospital que, durante os tempos da faculdade, também fez natação de competição. É o tio, multimilionário e diretor de uma equipa de hóquei no gelo. E é o irmão mais velho, ele próprio licenciado em Harvard (onde continua a escrever para o jornal da faculdade, o “Harvard Crimson”). “Da forma como os nossos pais acreditavam na educação, era quase impensável que Katie não se tornasse uma nadadora profissional”, admitiu o pai, Dave Ledecky, numa entrevista à “ESPN”. É à família mais próxima da nadadora - pai, mãe e irmão - que muitas é também atribuída a responsabilidade pelo seu sucesso. Ledecky é o centro do mundo dos pais, cujas rotinas vão-se adaptando às rotina da filha. O apoio que lhe dão é constante. Para a mãe, porém, é tudo muito mais simples. “Tentamos manter-nos no nosso lugar e assegurar-nos apenas de que ela está feliz”, disse numa entrevista à “Vogue”.

Quando Ledecky começou a nadar, não só não conseguia fazer “três flexões e correr mais do que um quilómetro meio”, como nadava de uma forma diferente da que nada hoje. Yuri Suguiyama, que a treinou dos 10 aos 15 anos, explicou ao “Washington Post” que Katie nadava “como uma nadadora clássica de longas distâncias”. “Respirava para os dois lados e batia pouco as pernas”. Suguiyama não gostava da forma como ela nadava e, depois de ver um vídeo de uma prova de Phelps de 2007, em que reparou no quão este “estava sempre a bater as pernas” e “nadava como se estivesse a galopar”, o treinador pediu-lhe para tentar reduzir o número de braçadas por piscina (ou por cada volta) e impulsionar o corpo para alcançar a parede de modo a “tirar vantagem da fúria com que nadava”.

Laurence Griffiths/Getty Images

O resultado está hoje à vista. Katie Ledecky, tal como muitos nadadores (e ao contrário da maioria das nadadoras, por causa da estrutura e força física, que não o permite) nada como se estivesse a balançar, como se estivesse em desequilíbrio, dada a ausência de simetria, se é que podemos dizer assim, entre as suas duas braçadas - braçada direita mais longa que a esquerda (assim: tu-tum, tu-tum, tu-tum). Começou também a respirar quase sempre para o mesmo lado, o direito, depois de perceber que isso lhe iria permitir poupar tempo e energia. Mais poético e menos técnico, Jon Urbanchek, que treinou a equipa de natação norte-americana em mais do que umas provas olímpicas, descreveu assim a sua forma de nadar: “Ela nada como se se fundisse com a água em vez de lutar contra ela. Tem um ritmo espantoso, uma rotação incrível e uma ligação muito forte com a água. É como um pequeno torpedo” (entrevista ao “Washington Post”).

Admitindo que Ledecky fá-lo lembrar-se de si em miúdo, Michael Phelps dizia há uns tempos que ela é uma nadadora “sem medo”, “que nunca desiste” nem “deixa que nada se intrometa à sua frente”. A própria Ledecky, numa entrevista a uma rádio norte-americana, dizia uma coisa parecida: “Estou focada naquilo que estou a fazer. De cada vez que mergulho, estou em autocontrolo. Tento lembrar-me de uma ou duas coisas que o meu treinador me disse. Mas, à parte disso, trata-se de fazer aquilo para o qual treinei e esquecer tudo o resto”. Simples, não é? É Ledecky, o que é que esperavam? Se nadar dezenas de quilómetros todos os dias, vencer cinco medalhas de ouro em menos de 15 dias e ainda bater uns quantos recordes mundiais pelo caminho é assim tão simples, o que é que, na vida, pode não o ser? Ledecky faz o mundo parecer fácil e isso, de alguma forma, deixa-nos um pouco mais descansados.