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Alma de campeão

Nelson Évora contrariou todas 
as expectativas — menos as suas — e foi terceiro classificado no Mundial de Londres. Em 2020, nos Jogos Olímpicos, há mais? Provavelmente

Alexandra Simões de Abreu

DYLAN MARTINEZ/REUTERS

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Primeiro vamos aos factos. Nelson Évora tem 33 anos e anteontem à noite, em Londres, fez um triplo salto de 17,19 metros que lhe vale muito mais do que a medalha de bronze no Campeonato do Mundo de Atletismo. Era o mais velho entre os 12 finalistas. Christian Taylor, de 27 anos, e Will Clayne, de 26, ambos norte-americanos, alcançaram os dois primeiros lugares da prova. O primeiro saltou 17,68 metros e o segundo 17,63 metros, numa espécie de campeonato à parte com uma diferença de mais de 44 centímetros.

Voltamos aos números do atleta português. Este salto, na sua sétima final entre Jogos Olímpicos e Campeonatos do Mundo, garantiu-lhe a oitava medalha em grandes competições, depois do ouro nos Jogos Olímpicos de 2008; do ouro (2007), da prata (2009) e do bronze (2015) em Mundiais ao Ar Livre; do bronze no Mundial de Pista Coberta (2008); e dos dois ouros em Europeus de Pista Coberta (2015 e 2017). Mais. Estes 17,19 metros fizeram dele o segundo atleta mais medalhado de sempre no triplo salto em Mundiais, superado apenas pelo mítico recordista mundial, o britânico Jonathan Edwards (ouro em 1995 e 2001, prata em 1997 e bronze em 1993 e 1999). E, finalmente, colocaram-no ao lado de Fernanda Ribeiro como o atleta português mais medalhado em Mundiais: quatro. Depois disto tudo, Nelson ainda disse: “Esperava um pouco mais.”

Do contra

Se alguém ainda tivesse dúvidas, Nelson Évora provou que tem a alma dos campeões e que, quanto mais tentam deitá-lo abaixo, mais força ele ganha. Mudou de clube, de treinador e de país em prole da sua paixão, o triplo salto, e da sua vontade de ganhar.

“Desde os meus 14/15 anos que sempre foi posta em causa a minha evolução no desporto”, afirmou dias antes de partir para Londres, numa entrevista ao “Diário de Notícias”. Parecia que deixava um aviso àqueles que olham para ele já como “um velho”. Deu mais uma vez a resposta na pista, depois de ultrapassar um dos períodos mais difíceis da sua vida.

Há um ano, Nelson foi sexto e o melhor europeu nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Logo a seguir viu o treinador de toda uma vida, João Ganço, assumir publicamente que não queria mais treiná-lo. Foi o primeiro abanão a sério, depois de ter perdido o pai em 2011 e de ter vivido uma época de calvário, marcada por lesões, em 2012/13. “Ele não era só o meu treinador, era o meu segundo pai. Passei mais tempo com o professor João Ganço do que com a minha mãe ou o meu pai”, disse o atleta depois do corte, ao fim de 25 anos de ligação. João Ganço era vizinho dos pais quando ‘descobriu’ o pequeno Nelson, na altura com 7 anos, e foi o seu primeiro e único treinador até então.

A relação entre ambos esfriou, mas João Ganço afirmou que continuam a falar sobre a família, mas não sobre a vida profissional. “Continuo a querer que ele faça grandes marcas”, confessou dias antes da final em Londres, reconhecendo que o seu ex-pupilo continua a ser um grande atleta e “também um bom filho”.

Depois desta separação veio outra desilusão, que também acabou em ‘divórcio’. Com o Benfica, o seu clube do coração. “Há mais tempo que sou/fui benfiquista do que português”, lembrou Nelson ao “DN”, recordando o facto de só ter recebido a nacionalidade portuguesa dois dias antes de completar 18 anos, por ter nascido na Costa do Marfim e ser filho de pai cabo-verdiano e mãe costa-marfinense.

Atleta do clube da Luz desde 1997 (com uma passagem pelo FC Porto entre 2002 e 2004 enquanto júnior), Nelson Évora acabou por trocar o Benfica pelo clube rival, o Sporting, por considerar que não estavam a respeitá-lo enquanto símbolo quando quis negociar melhores condições no contrato. E, com o aval de Alvalade, rumou a Espanha, para ser treinado pelo seu ídolo de infância, o cubano Ivan Pedroso, nove vezes campeão do Mundo do salto em comprimento. Agora assume que está melhor, embora tenha piores condições do que em Portugal, e não se cansa de referir que treina com “Ferraris”.

A declaração foi considerada arrogante por alguns, mas Nelson voltou a dar a resposta. Primeiro na pista. Saltou 17,20 metros, a sua melhor marca do ano, no Campeonato Europeu de Pista Coberta em Belgrado, na Sérvia, onde conquistou a medalha de ouro. A seguir, escreveu na sua página de Facebook: “Obrigada por acreditarem em mim. PS: deitaram-me abaixo, mas não me cortaram as asas.”

Outro luto

Após o choque de perder o treinador e segundo pai, de sentir-se desvalorizado pelo clube de sempre e de ter de adaptar-se a um novo país e um novo método de treino, Nelson Évora sofreu a pior das perdas. A sua mãe, Élida Évora, faleceu em maio, dias antes do meeting de Doha, prova da Liga Diamante, onde estão presentes campeões olímpicos e mundiais em várias provas, numa espécie de ensaio geral para o Campeonato do Mundo. Nelson falhou o encontro e, discreto, evitou alarido à volta do luto. No dia 1 de junho não resistiu em lembrar a mãe na sua conta do Facebook.

Seguiu-se o primeiro confronto ‘Sporting-Benfica’ no triplo salto desde que Nelson Évora se mudara para Alvalade. Os ‘encarnados’ tinham contratado Pedro Pablo Pichardo, vice-campeão do Mundo e olímpico. Aconteceu durante o meeting de atletismo de Paris, a contar para a Liga Diamante. Mas foi também o reencontro nos grandes palcos ao fim de dois anos, quando ambos estiveram no Mundial de Pequim, em 20015: Pichardo ficou com a medalha de prata (17,73 metros) e Nelson com o bronze (17,52 metros), numa final ganha pelo norte-americano Christian Taylor com 18,21 metros. Em Paris, o cubano do Benfica ficou em quarto e Nelson em sexto. Pichardo, que admite naturalizar-se português, saltou 17,05 metros, a melhor marca pessoal do ano, enquanto Nelson, na sua primeira época como ‘leão’, fez 16,91 metros.

Voltaram as dúvidas sobre a sua condição física. Nelson Évora chegou a Londres como o concorrente que menos competiu antes deste Mundial e com falta de ritmo. A própria Federação Internacional de Atletismo agarrou nas estatísticas e colocou o atleta português fora da hipótese de ganhar uma medalha. Aliás, por ter a idade que tem, Nelson já nem sequer é chamado para alguns dos meetings da Liga Diamante. É um veterano, e não há mal nenhum nisso. Após a final de quinta-feira, Will Clayne, medalha de prata, disse que aprendeu a saltar a ver o português nos Jogos Olímpicos de Pequim: “Merece os aplausos, por continuar a testar os limites.”

É o que Nelson Évora continuará a fazer, uma vez que já assumiu querer ir aos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2020. O melhor é continuar a espicaçá-lo. Pode ser que...

Texto originalmente publicado na edição de 12 de agosto de 2017 do Expresso

  • O que se passa dentro da cabeça dele

    Modalidades

    O que leva um tipo a quem iam amputando uma perna a regressar ao sítio onde os ossos se desfizeram, uma e outra vez, e testar os limites do seu corpo? Resposta: a busca pelo salto perfeito, que ele diz existir dentro dele e que ele encontrará mais dia menos dia. É a fé e a confiança que o movem e o levam a pular para lá do que é exigido a um campeão olímpico e mundial que não tem mais nada a provar a ninguém - a não ser a ele próprio. Este é um trabalho que publicámos em agosto de 2014, quando o saltador se preparava para os Europeus e falava das metas que tinha traçado para 2015 e 2016: mostrar que não estava acabado.