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Esta juventude vale ouro. Oito atletas que venceram em Londres pela primeira vez (de muitas?)

No mundo, somos para cima de sete mil milhões. Em Londres, competiram cerca de 2 mil. Desses, menos de 90 sairam dos campeonatos de medalha ao peito. É a elite da elite que ali andou em competição. Oito dos que subiram ao lugar mais alto do pódio têm 23 anos ou menos. Sabe quem são? É melhor apontar porque estes nomes vão continuar a aparecer nos pódios nos próximos tempos

FILIPA SILVA

A expressão de incredulidade de Warholm depois de passada a meta dos 400 metros barreiras.

JEWEL SAMAD

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Karsten Warholm
21 anos - Noruega
400 metros barreiras - Medalha de Ouro

A Noruega não ganhava uma medalha de ouro num Mundial desde 2009. Numa disciplina de pista, o jejum levava 30 anos. Mas Karsten Warholm foi a Londres fazer história para o seu país. Na linha de partida, a tensão latente de quem quer fazer a diferença está lá. Golfadas de ar que calam fundo e uns “tapinhas” na cara para acordar, não vá o corpo cair no engano do sonho que parece mas não é.

Warholm pediu a um repórter para ser beliscado no final dos 400 meros barreiras.

Warholm pediu a um repórter para ser beliscado no final dos 400 meros barreiras.

ANDREJ ISAKOVIC

Com apenas 21 anos, o norueguês bateu na final o campeão europeu Yasmani Copello e o campeão olímpico Kerron Clement, que procurava o terceiro titulo mundial.

O atleta que começou pelas provas combinadas já tinha dado provas de estar em grande forma este ano, primeiro na Liga Diamante, quando derrotou o atual campeão olímpico Kerron Clement; e depois nos campeonatos europeus de sub-23 onde arriscou tentar a dobradinha dos 400 metros planos e barreiras. Ganhou nas barreiras, com recorde dos campeonatos, e foi segundo no plano.

Em Londres, depois de passar a meta arregalou os olhos de espanto. E só acreditou quando pediu a um repórter da Reuters para o beliscar. E não, nada de fake news. Era mesmo verdade.

Yulimar Rojas
21 anos - Venezuela
Triplo Salto - Medalha de Ouro

Aos 21 anos, já arranjou um lugar na história do desporto Venezuelano. Depois da primeira medalha de prata em Jogos Oímpicos, conquistada no Rio em 2016, Yulimar Rojas sai de Londres com a primeira medalha de ouro para o seu país em campeonatos do mundo de atletismo.

Yulimar Rojas, a nova campeã mundial do triplo salto, é companheira de treino de Nelson Évora.

Yulimar Rojas, a nova campeã mundial do triplo salto, é companheira de treino de Nelson Évora.

Patrick Smith

Saltou 14,91 metros, mais dois que a rival Caterine Ibarguen, para trocar de lugar com a colombiana no pódio, face às olimpíadas brasileiras. O ouro, desta vez, é de Rojas.

A facilidade com que a venezuelana salta longe conjugada com a margem de progressão que ainda demonstra ter, sobretudo na parte técnica, levam a acreditar que pode dominar a disciplina nos próximos anos.

Com uma coisa pode contar: a oposição da incansável Caterine Ibarguen, que apesar de já ter entrado na casa dos 30, parece estar aí para as curvas. Perdão, para os saltos.

Nota para os excelentes resultados obtidos pelos pupilos de Ivan Pedroso. O cubano, que montou um grupo de treino em Guadalajara, em Espanha, sai de Londres com o ouro de Rojas, o bronze de Évora, o quarto lugar de Alexis Copello e o sétimo da espanhola Ana Peleteiro.

Nafissatou Thiam
22 anos - Bélgica
Heptatlo - Medalha de Ouro

A brilhante prestação no Rio de Janeiro já lhe tinha valido o título de “Estrela feminina em ascensão” do ano 2016 para a IAAF e para a federação europeia de atletismo. Este ano, Nafissatou Thiam continuou a mostrar porque é que está entre as maiores promessas do desporto europeu. E falar de promessa quando se fala de uma campeã olímpica, agora também campeã mundial, parece engano. Mas não esqueçamos, ela tem apenas 22 anos.

"Nafi" na prova do lançamento do dardo. O ouro no heptatlo é dela.

"Nafi" na prova do lançamento do dardo. O ouro no heptatlo é dela.

Patrick Smith

Em maio, transformou-se na terceira mulher a ultrapassar a barreira dos 7 mil pontos, o que até aí só tinha sido conseguido pela norte-americana Jackie Joyner-Kersee e pela sueca Carolina Kluft, a sua referência na modalidade.

Três meses depois, transformou-se na primeiro atleta a conquistar uma medalha de ouro em mundiais para o seu país.

“Nafi”, como é carinhosamente tratada, está no atletismo desde os 7 anos e recolhe hoje os frutos de muitos anos de trabalho na sua Bélgica natal. Trabalho que soma ao curso de Geografia na Universidade de Liége.

Omar McLeod
23 anos - Jamaica
110 metros barreiras - Medalha de Ouro

Na velocidade, as maiores esperanças da Jamaica estavam depositadas em Usain Bolt e Elaine Thompson, mas foi Omar McLeod quem levou a bandeira do país a voar mais alto.

Omar McLeod foi o melhor de uma prestação fracassada da Jamaica nos campeonatos.

Omar McLeod foi o melhor de uma prestação fracassada da Jamaica nos campeonatos.

Richard Heathcote

O barreirista, profissional apenas desde 2015, fechou um ciclo que poucos conseguiram fechar: somou ao título olímpico e ao título mundial indolor, a medalha de ouro nos campeonatos do mundo de atletismo.

Com o tempo de 13.04, McLeod foi mais forte do que o russo Sergei Shubenkov (13.14) e Balazs Baji, da Hungria (13.28). O título dedicou-o ao atleta do século, Usain Bolt, que se despediu em Londres da alta competição. Uma despedida dramática que o mundo do atletismo vai seguramente guardar por muito tempo.

Conseslus Kipruto
22 anos - Quénia
3000 metros obstáculos - Medalha de Ouro

Ele nem queria acreditar. E o delírio da conquista quase o ia traindo, tão cedo o queniano começou a festejar a vitória. Queria ouvir o estádio, como se o “bruá” das bancadas fosse o beliscar de pele que precisava para se certificar que era mesmo aquilo. O que vale é que Soufiane Elbakkali, de Marrocos, não estava menos emocionado e lá terminaram os dois, incrédulos, com o que aquela corrida lhes acabava de oferecer.

Kipruto começou a festejar vários metros antes da linha de meta.

Kipruto começou a festejar vários metros antes da linha de meta.

David Ramos

Para Kipruto foi o primeiro título mundial. Juntou-se na vitrine da glória ao ouro olímpico que precisamente há um ano conquistou no Rio de Janeiro. Aí, em conjunto com o recorde das olimpíadas.

À entrada do campeonato, muito se discutiu se não seria desta que os 3 mil obstáculos eram ganhos por um atleta não queniano - desde o mundial de 1991 que são -, mas ainda não foi desta. A grande esperança para o feito, o norte-americano Evan Jager terminou em terceiro.

A primeira de Kipruto fica nos livros como a última de Ezekiel Kemboi, o queniano que é já uma lenda, não andasse ele a somar medalhas desde 2003. As últimas quatro, foram de ouro. Agora, como Farah, Kemboi vai dedicar-se às corridas longas.

Faith Kipyegon
23 anos - Quénia
1500 metros - Medalha de Ouro

Estava lá Kipyegon a tentar o primeiro título mundial, depois do ouro conquistado no Rio. Estava Laura Muir e com ela todo o estádio. Estava Semenya apostada na sua primeira dobradinha. Estava Genzebe Dibaba, em baixo de forma, mas ainda assim campeã e recordista mundial da distância. Em suma, estavam lá todas as razões e mais duas para uma corrida de nervos.

Faith Kipyegon tinha concorrência forte mas logrou chegar à frente nos 1500 metros.

Faith Kipyegon tinha concorrência forte mas logrou chegar à frente nos 1500 metros.

Patrick Smith

Mais duas, porque a história tem mais duas personagens. A primeira, Sifan Hassan, da Holanda, que foi a protagonista de um fortíssimo ataque na última volta que, em última análise, embalou Kipyegon para a vitória.

Já a holandesa pagou a ousadia nos metros finais. O ritmo que imprimiu falhou-lhe nos último metros e Hassan foi ultrapassada. Posição atrás de posição, foi relegada para fora do pódio. E aqui entra a outra personagem de quem ainda não falamos: a norte-americana e ex-campeã mundial Jenny Simpson, que vinda de trás, agarrou a prata. O bronze ficou para Semenya. Muir teve de se contentar com o quarto lugar. Hassan selou a corrida com o quinto posto.

Muktar Edris
23 anos - Etiópia
10.000 metros - Medalha de Ouro

Foi o primeiro título de relevo conquistado por Muktar Edris enquanto sénior, mas o dado é curto para encaixar todo o significado da vitória deste etíope. O seu nome vai ficar associado irremediavelmente ao de um dos melhores fundistas de todos os tempos: Sir Mo Farah.

Muktar Edris fica para a história como o homem que conseguiu bater Mo Farah nos 5 mil metros, seis anos depois da última derrota

Muktar Edris fica para a história como o homem que conseguiu bater Mo Farah nos 5 mil metros, seis anos depois da última derrota

Richard Heathcote

O britânico com fama de invencível, habituado a ser atacado por todos mas batido por nenhum, tinha na conquista dos 5 mil metros o epílogo sonhado de uma carreira brilhante na pista. Era a corrida da despedida - depois de duas corridas no final do mês, Farah vai dedicar-se a provas de estrada - e o bolo que faltava à cereja que foi a vitória dos 10 mil metros no dia de abertura dos campeonatos.

Só que, desta vez, o tri-campeão do mundo dos 5000 e dos 10000 metros e bicampeão olímpico nas duas distâncias não foi o melhor.

Numa corrida lenta, já no último quilómetro, Edris e o compatriota Kejelcha testaram Mo Farah até aos limites. No final, Farah costuma resolver, mas sábado não houve pernas para superar pelo menos um dos adversários: Muktar Edris. Paul Kipkemoi Chelimo ficou com o bronze.

Jiayu Yang
21anos - China
20 quilómetros marcha

No final, ganhou a china, como aliás vem sendo hábito. Menos habitual é ter uma atleta de 21 anos a conquistar um título mundial na marcha. Jiayu Yang conquistou o ouro ao cabo de um final dramático, no qual a compatriota Lyu Xiuzhi foi desqualificada a 50 metros da meta e nem se apercebeu.

Sobrou o “ouro” para Yang naqueles que foram os seus primeiros mundiais e quando nada ou quase nada no currículo fazia prever este desfecho.

Jiayu Yang, aos 21 anos, é a nova campeã do mundo da marcha.

Jiayu Yang, aos 21 anos, é a nova campeã do mundo da marcha.

Alexander Hassenstein

E prata com sabor a ouro

Neste "campeonato" da juventude, uma palavra ainda para Christian Coleman, dos EUA, que aos 21 anos fez enorme figura numa das corridas mais aguardadas destes campeonatos: a final dos 100 metros.

O velocista, profissional apenas desde junho, chegou a Londres como o homem mais rápido do ano e saiu do hectómetro com a prata, à frente de Bolt, e da estafeta de 4x100 metros com igual resultado.

Com 9.82, Coleman chegou à final dos 100 metros como o homem mais rápido do ano.

Com 9.82, Coleman chegou à final dos 100 metros como o homem mais rápido do ano.

Matthias Hangst

Também Salwa Eid Naser, do Bahrain, tem motivos para confiar no futuro, quando aos 19 anos se transformou na atleta mais jovem de sempre a chegar ao pódio - foi prata - dos 400 metros.

E para lá chegar, a atleta, filha de mãe nigeriana e de pai do Bahrain, teve de ser melhor do que dois colossos da velocidade: a campeã olímpica Shaunae Miller-Uibo e a campeã do mundo Alison Felix, a sua grande referência no atletismo. Phyllis Francis foi a vencedora.

Ainda, Joshua Cheptegei, do Uganda, que aos 20 anos foi o segundo homem mais rápido na final dos 10000 metros, logo atrás de Mo Farah.

O britânico chegou mesmo a apontá-lo como o maior adversário para a final dos 5000, no penúltimo dia de provas, mas o ugandês foi afastado da corrida por problemas físicos.

Armand Duplantis em conversa com o recordista do mundo Renaud Lavillenie. Aindanão foi desta que o francês chegou ao ouro.

Armand Duplantis em conversa com o recordista do mundo Renaud Lavillenie. Aindanão foi desta que o francês chegou ao ouro.

KIRILL KUDRYAVTSEV

E para fechar, alguém que não chegou às medalhas mas que surpreendeu o mundo só com o seu apuramento para a final. O seu nome é Duplantis, Armand Duplantis, um prodígio do salto com vara que chegou a Londres com a terceira marca do ano. Ele que tem... 17 anos. Na final, o jovem que reside nos EUA mas concorre pela Suécia - nacionalidade da mãe - terminou na nona posição.