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Mayweather vs McGregor: quem são os homens por trás do “Money Fight”?

Não são discretos, nem humildes. A palavra derrota diz-lhes pouco ou nada. Cresceram em contextos que não são para meninos. São hoje duas máquinas de fazer dinheiro. Quem são Floyd Mayweather e Conor McGregor?

FILIPA SILVA

Mayweather e McGregor na promoção ao combate desta madrugada.

Ethan Miller

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No fim de contas, são só dois homens.

Será abusivo dizer que enfrentam o destino porque dizê-lo seria conceder que o destino os escolheu. O combate milionário que oporá Floyd Mayweather a Conor McGregor esta madrugada na cidade do pecado tem mais mão humana do que isso.

E que move essa mão? A ganância? O orgulho? O desejo compulsivo de vencer? Vontade de ficar na história? Ou o puro entretenimento?

À falta de respostas cabais, o melhor é deixar baixar o microfone e passar às apresentações.

Floyd Mayweather

De um lado, Floyd Mayweather. Um dia pretty boy, no outro, money boy. O homem cansou-se de dividir lucros. E lucro podia ser o seu nome do meio. Mas é “Money”, pelo menos desde 2007, quando deu nome à empresa que hoje gere e que gera milhões como quem vende sardinhas em noite de Santos Populares. Não para!

A carreira profissional começou em 1996 ano em que foi medalha de bronze em Atalanta, nos Jogos Olímpicos que os Estados Unidos acolheram. Profissionalmente, a primeira vitória foi contra Robert Apodaca. Depois foi sempre a ganhar. Rocky Marciano style. O norte-americano, visto como um dos melhores lutadores de boxe da sua geração, provavelmente o melhor em técnica defensiva, leva 49 combates sem derrota.

Não que a luta lhe ocupe os dias desde aí. Mayweather reformou-se em 2015 - e não foi a primeira tentativa -, depois de bater Andre Berto em Las Vegas, cidade que é quase espelho da sua excentricidade. Bling bling!

Floyd começou “pretty” porque se defendia como ninguém dos golpes adversários, mantendo limpo o registo e o rosto. No ringue ele é mais mover que atacar, mas quando o faz, faz. Não é só desviar. O pugilista tem o soco mais certeiro desde que a contagem é automatizada.

Virou “money” em 2007, depois de ter derrotado De La Hoya e de lhe ter imitado a criação de uma entidade para gerir o negócio. Nascia a Mayweather Promotions.

Não é bem um negócio. Ele é o negócio: dita o prémio em disputa, a divisão de lucros, o preço dos bilhetes, o valor do pay-per-view... Em 2015, na chamada "Luta do Século", na qual derrotou Manny Pacquiao, foi registado um novo recorde de pay-per-view de 4,5 milhões de dólares, no agora mais que provável segundo combate mais lucrativo da história.

Nascido há 40 anos em Grand Rapids, no Michigan, cresceu num contexto que não é para meninos. O pai, Mayweather Senior, que tem no currículo 35 combates como profissional, acabou preso por tráfico de droga e cumpriu cinco anos de prisão. A mãe era toxicodependente. Não era pretty, nem havia money, mas Floyd, que tinha Joy no nome, havia de transformar a fome em fartura. E de que forma.

Mayweather patenteou as marcas "TMT 50" e "TBE 50". O interesse mediático que recolhe é avassalador.

Mayweather patenteou as marcas "TMT 50" e "TBE 50". O interesse mediático que recolhe é avassalador.

Isaac Brekken

I am a winner”, gosta de repetir. “It’s money power respect”, diz para descrever a sua TME, “The Money Team”. Pode ser, mas o dinheiro, já se sabe, não compra tudo. Muito menos o respeito. Ou ao que parece, o respeito muito menos. É que se no ringue Mayweather é incontestavelmente o melhor de uma geração, no plano pessoal fica a dever muito ao conceito de referência.

São vários os episódios em que foi acusado de violência contra mulheres, acusações que nunca assumiu como justas em público. O seu melhor argumento? “Não há imagens. Só diz-que-disse e acusações. Nada foi provado. É a vida”. A verdade é que um desses casos levou Mayweather à prisão em 2011. Em causa, a agressão a Josie Harris, mãe de três dos seus quatro filhos. Cumpriu dois dos três meses a que foi condenado. Saiu por bom comportamento.

Apostador inveterado, tem hordas de seguidores. O mais famoso é também ele bling bling quanto baste: o rapper 50 Cent de quem recebeu como presente aos 35 anos um carro de valor estimado em meio milhão de dólares.

Líder vários anos da lista de atletas mais bem pagos pela Forbes, Mayweather quer ser o homem das 50 vitórias. E para isso já deu alguns passos. Patenteou as marcas “TMT 50” e TBE 50”. Querendo dizer? “The Money Team 50” e “The Best Ever 50”. A ver vamos.

Vs Conor McGregor

E no outro canto, “The Notorious”. O homem que se fez notar logo ao primeiro combate no UFC, em 2013, quando derrotou o adversário, Marcus Brimage, por KO em um minuto e sete segundos. Para cartão de visita, estamos conversados.

McGregor, atual campeão de pesos leves do UFC, a organização de topo em eventos de Artes Marciais Mistas (MMA em inglês), transformou-se no primeiro lutador profissional irlandês a deter em simultâneo títulos em duas categorias de peso diferentes.

McGregor, um campeão nas artes marciais mistas, a treinar boxe nas vésperas do "MoneyFight"

McGregor, um campeão nas artes marciais mistas, a treinar boxe nas vésperas do "MoneyFight"

Ethan Miller

Um desses títulos foi conquistado em dezembro de 2015, num não menos lendário combate no qual McGregor derrotou José Aldo em… 13 segundos. Um golpe de esquerda que transformou aquele KO no mais rápido na história do UFC.

Nascido e criado em Dublin - a mãe jura que nasceu com os punho cerrados frente ao rosto em prenúncio de uma carreira que os progenitores estiveram longe de adivinhar (e aceitar) - Conon McGregor iniciou-se nas MMA em 2006 quando se mudou com a família de Crumlin para Lucan e conheceu Tom Egan, um futuro lutador do UFC, e começaram a treinar juntos.

Um ano depois, deixava a construção - era canalizador - para se dedicar ao combate profissional. Não sem antes ter de levar a cabo outra luta, mesmo física, com o pai, que não aceitava que o filho renegasse uma vida de classe trabalhadora. Os dois deixaram de se falar, mas McGregor estava decidido e seriam os seus adversários a enfrentarem a ira que a violência do pai lhe instigava.

“Todo esse conflito pai-filho não é agora mais do que uma memória. Nunca um pai se mostrou tão entusiasmado ao admitir que estava errado”, conta Wright Thompson da ESPN numa grande reportagem que dedicou ao lutador.

Aos 29 anos, pai desde maio, Conor McGregor transformou-se num ídolo no seu país e, tal como Mayweather - se bem que ainda a anos-luz do ‘cofre’ do norte-americano - também McGregor aprendeu a fazer dinheiro com o seu nome e a sua imagem. Para a Forbes, é o 24º atleta mais bem pago do planeta tendo encaixado mais de 27 milhões de libras no ano passado.

O pecúlio pelo combate desta madrugada é muito maior. E não é só pelo dinheiro. O impacto mediático é assombroso.

No mercado de apostas, contudo, o cenário para McGregor é o da derrota. Não admira. Afinal, o irlandês não é um profissional do boxe e é com as regras do boxe que o combate se vai fazer. McGregor não se mostra temerário. A sua versatilidade pode ser um trunfo. Ele começou no boxe e no kickboxe, mas experimentou capoeira, taekwondo e karaté, muay thai, jiu jitsu. E a sua forma de lutar denota essa variedade de fontes.

“Sou um artista marcial e estou aberto a todas as formas de combate”, disse ao “Bloody Elbow”. “Se alguém quer lutar, então vamos lutar. Onde quer que seja o combate, seja o combate. Estou preparado para tudo. Não temo qualquer homem”.

Lá destemidos, são ambos. E trash-talkers, também, para usar a expressão inglesa que baixou o rating do fala-barato para o nível “lixo”. Valha-nos o combate para ver mais ação e menos conversa. Não é uma apologia à violência. Mas no fundo é, porque como tão bem definiu Sugar Ray Robinson: “Boxing is the hurt business”. Ou pelo menos era.