Tribuna Expresso

Perfil

Modalidades

O combate mais improvável de sempre é o combate mais importante de sempre

É como se o Predador defrontasse o Alien ou o Batman aceitasse um combate contra o Super-Homem. Na madrugada deste sábado para domingo (mais precisamente às 01h), a realidade vai ultrapassar a ficção

Rui Gustavo e Tiago Pereira Santos

ilustração tiago pereira santos

Partilhar

Não será exagerado classificar o embate que vai opor Floyd Mayweather a Conor McGregor como o combate do século. Mais do que um confronto de grandes campeões, vai ser uma luta entre um respeitável desporto clássico em decadência — o boxe — e um desporto recente e em ascensão, mas que ainda não é bem levado a sério: o MMA, ou Mixed Martial Arts, anteriormente conhecido como Vale Tudo.

De um lado do ringue vai estar o último grande campeão do boxe, que se retirou aos 38 anos sem sofrer uma única derrota. 49-0. Mayweather, “Money”. Do outro, McGregor, o “Notorious”, campeão em duas categorias diferentes de peso e seguramente o lutador mais popular do mundo no momento em que este texto é escrito. O combate vai decorrer em Las Vegas (onde mais poderia ser?) e será transmitido pela Sport TV a partir das 01h da madrugada de sábado para domingo. E a pergunta que ouvi durante toda a semana foi: quem é que achas que vai ganhar?

getty

O combate vai ser disputado segundo as regras do boxe (só vale murros socos e acima da cintura), o que obviamente favorece Mayweather, campeão sem derrotas e dono de uma defesa impenetrável. O problema é que já tem 40 anos e não combate há dois.

McGregor só fez boxe quando era adolescente mas está no auge da carreira e da forma, tem 29 anos, e o striking é a base de todo o seu estilo. Se conseguir bater Mayweather no seu próprio jogo, nunca mais ninguém poderá por em causa o valor dos lutadores de MMA. E sim, McGregor sabe dar socos. José Aldo que o diga:

Mas, como disse e bem o treinador de boxe Paulo Seco ao jornal “O Jogo”, é como se um carro de todo-o-terreno e um Fórmula 1 competissem no autódromo do Estoril. E é muito difícil apanhar Mayweather.

Portanto, a pergunta de um milhão de dólares: porque é que um campeão milionário aceita um combate em que tem tudo a perder e muito pouco a ganhar? Dinheiro, claro. Mayweather vai receber 100 milhões de dólares, ganhe ou perca o combate, o que lhe aliviará um pouco a situação financeira descrita pelos jornais americanos como desastrosa. Custa a crer que tenha desbaratado os mil milhões de euros que juntou durante a carreira, mas basta ver um dos vídeos em que surge a deitar dinheiro para cima de raparigas meio despidas para aceitar que tem melhor gancho do que jeito para a contabilidade.

McGregor vai receber 75 milhões, mais do que já conseguiu juntar em dez anos de carreira na MMA, o que ajuda a explicar porque é que se lembrou de desafiar o campeão durante uma entrevista no programa de Conan O'Brien. “Quem não gostaria de estar num ringue por 180 milhões de dólares?”

A luta já começou fora dos ringues com vários despiques verbais ensaiados e filmados com talento e que têm sido notícia quase todos os dias, ajudando a manter a bola no ar até ao dia do combate.

Quem é que eu acho que vai ganhar? O meu lado lógico não consegue deixar de pensar na analogia de Paulo Seco e dois anos parado numa garagem não é nada para um Fórmula 1. O meu lado dionisíaco quer ver McGregor a calar o mundo com uma tirada qualquer que ele já deve ter ensaiado centenas de vezes num dos muitos espelhos lá de casa.