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Felicidades, Ricardo Melo Gouveia: “Vou casar este fim de semana e depois vou jogar sete torneios seguidos”

Dar a cara pelo Portugal Masters, recentrar a cabeça, treinar e… casar. Eis os motivos que justificam a última passagem de Ricardo Melo Gouveia, o número 1 português no ranking mundial do golfe, por Vilamoura esta semana. Depois de uma série de torneios com resultados aquém das expectativas e uma lesão, a pressão impôs-se. Com o lugar no ciclo profissional em risco, o golfista português voltou às origens (por quinze dias) e está focado na importância do treino mental. Está prestes a fazer sete torneios seguidos, sete semanas ao mais alto nível de competição. E a lua de mel? “Só no final do ano”

Fábio Monteiro

Andrew Redington/Getty

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O ponto forte de Ricardo Melo Gouveia no golfe, o drive - a tacada de longa distância inicial - “fraquejou este ano” e isso deixou-o numa posição complicada, admitiu o próprio, de sorriso nervoso e face um pouco crispada, na terça-feira ao falar com os jornalistas, durante a apresentação do Portugal Masters, prova que integra o European Tour e irá decorrer de 21 a 23 de setembro, em Vilamoura.

Dez meses atrás, “Melinho” fazia história no desporto português e obtia a sua melhor classificação numa prova do European Tour: alcançou um terceiro lugar no Masters da África do Sul. E foi jogar o torneio de encerramento da época, o DP World Tour Championship, no Dubai, reservado aos 60 melhores do ranking do circuito.

Neste momento, o golfista tem a vida muito mais complicada: a sua permanência na competição ao mais alto nível depende do seu desempenho nos próximos torneios. Vão ser sete semanas muito intensas.

Em entrevista à Tribuna, Ricardo Melo Gouveia, 26 anos, conta como “maus pensamentos” prejudicaram-lhe o jogo. E como isso fez-lhe redescobrir a importância do treino mental. Está na 138ª posição do ranking e todos os pontos conseguidos nos próximos torneios serão preciosos.

Podemos dizer que jogar em Vilamoura para ti é jogar em casa, não é?
Sem dúvida que Vilamoura é um sítio muito especial para mim. Foi aqui que cresci a jogar golfe, foi aqui que comecei nas escolas. Sempre que participo do Portugal Masters é um sentimento especial, por estar perto do público português, da minha família e de ficar em casa.

Por já conheceres bem o field, achas que estás em vantagem perante os outros concorrentes?
Sim. Acho que qualquer português tem sempre vantagem neste campo, principalmente aqueles que somos do Algarve. Crescemos a jogar neste campo, sabemos todas as manhas...e isso traz grandes vantagens.

Há mais de um ano mudaste-te para Londres, para facilitar as tuas deslocações para os vários torneios do European Tour. Agora, estás por Vilamoura há quanto tempo?
Cheguei há uma semana e meia. Vim depois do meu torneio na Alemanha. Estou cá em treinos desde então, mas também para recarregar baterias. Vou casar este fim-de-semana e depois vou regressar aos torneios do European Tour. Vou jogar sete torneios seguidos.

Vais passar por onde?
Na próxima semana vou já para a Suíça. Depois será na Holanda. A seguir, na terceira semana de setembro, é o Portugal Masters. Depois é British Masters, o Dunhill Masters, o Italia Masters e Valderrama [Andaluzia] Masters.

Isso vai ser intenso.
Tem de ser. Não posso faltar a mais nenhum [torneio], na posição em que estou preciso de ganhar o máximo de pontos para o ranking [do European Tour].

Por comparação com o ano passado...
Tem sido um ano bastante mais complicado. Não tenho conseguido os resultados que consegui em 2016. Faz parte da carreira de um desportista de alta competição. Estava preparado para que pudesse acontecer, mas uma pessoa nunca quer que aconteça. Há que continuar a trabalhar, cada vez mais, e focar-me. Trabalhar muito a parte mental, que não tem estado tão bem este ano - é nisso que tenho apostado bastante.

Pegando na parte mental. Durante a “clínica de golfe” que deste aos jornalistas no campo de treino, ainda há pouco, disseste que tentas fazer os teus jogos só com um “pensamento técnico”, um mantra, em mente. De que tipo de pensamento é que estamos a falar? Podes explicar melhor?
Em campo gosto de ter um só pensamento técnico, algo prático. Não gosto de pensar muito em técnica, porque uma pessoa acaba por não se concentrar e as coisas acabam por não sair tão naturais – foi essa a minha dica para os amadores. Não tenho nenhuma superstição, nada desse género. Faço o meu aquecimento [físico] normal no dia do jogo, os meus exercícios mentais no dia anterior.

Isto leva-nos a outra faceta tua. Continuas a meditar?
Sim. Faço meditação, faço várias técnicas de visualização, respiração, no dia antes de todos os torneios em que participo. Por vezes, no dia do torneio, se me sentir um pouco mais nervoso, utilizo algumas técnicas de relaxamento e respiração, para me ajudar nesse sentido.

Podes dar exemplos mais concretos?
São jogos mentais, aplicações para o telemóvel ou técnicas de respiração. Uma das que costumo uso é tapar uma das narinas e com um metrónomo alinhar as inspirações e expirações, de forma a controlar a ansiedade.

Também uso jogos mentais, como imaginar um triângulo e em em contagem decrescente de 150 ir contando as pontas, até chegar a um ponto que a técnica está tão apurada e desenvolvida que não preciso de contar e fico a ver números em cada vértice a passar. Coisas deste género que me vão ajudar a controlar as emoções e pensamentos durante os jogos...

Continuas, então, a sentir a pressão em cada jogo: mesmo com a experiência isso não muda?
Melhora, mas há sempre situações novas que acontecem em todas as épocas: se estiver a liderar uma prova ou se as coisas não me estiverem a correr tão bem como este ano. Tentar controlar esse tipo de pensamentos negativos e passá-los a pensamentos positivos, tentar arrumar a cabeça, é importante.

Para além das questões mentais, também tiveste uma azar “físico” no teu último torneio na Alemanha...
Lesionei-me [no ombro direito] a aquecer quando estava a bater bolas no próprio dia do torneio. Não senti logo, mas logo a seguir comecei a fazer movimentos com o pescoço, começou a doer-me. O fisioterapeuta do European Tour deu-me uma massagem e consegui jogar. Não senti muita dor, mas quando o corpo esfriou foi o pior. Depois disso, vim para Portugal e comecei a ser seguido pelo meu fisioterapeuta. Normalmente, estas lesões costumam ser resolvidas numa sessão, mas esta foi uma coisa forte e foram precisas quatro sessões.

Assustou-te?
Não porque eu sabia que isto ia ao sítio, não era uma daquelas lesões mais chatas em que as pessoas são obrigadas a parar. Joguei mais curto, já que no jogo comprido não conseguia fazer bem o swing.

Nem por acaso, em muitas das entrevistas das que concedes, referes quase sempre a tua equipa técnica, em particular o fisioterapeuta. É uma prioridade para ti?
É bastante importante ter uma equipa por trás. Não só um fisioterapeuta, como um preparador físico e um treinador. Tem de haver sempre alguém a apoiar e orientar.

Há dois anos que chegaste ao nível profissional. Como é que analisas a tua evolução?
Neste momento, para acabar bem a época tenho de manter-me no European Tour, é esse o meu objetivo. Tenho treinado bastante, tenho-me focado bastante nesse objetivo - as coisas vão correr bem. Preciso de continuar a trabalhar a parte mental: no início, se calhar não estava a apostar tanto – como os resultados não são tão visíveis – e pensava que era menos importante. Agora estou convencido e tive de recuperar tempo.

Para terminar, podemos falar só um pouco da tua génese como desportista? Há alguns anos, circulavam na internet vídeos do Tiger Woods, com cinco anos, já a dar tacadas. É possível que encontremos algo semelhante teu?
[Risos] É capaz de haver qualquer coisa lá em casa, não sei bem, num baú. Cassetes daquelas antigas e eu muito jovem a bater bolas.

O dom do golfe parece nem ter ficado só em ti na tua família. Existe a possibilidade do teu irmão Tomás, três anos mais novo que tu, também competir no Portugal Masters?
Ainda não sabemos. Ele ainda é amador e está à espera da seleção da federação [portuguesa de golfe]. Vão ser escolhidos dois amadores. Acho que para a próxima semana já se deve saber quem é que vai jogar.

Tens lhe dado algumas dicas?
Temos treinado bastante juntos nas últimas semana e sempre que ele está em torneiros vamos falando. Dou-lhe algumas dicas, falo-lhe de experiências que já tive. No fundo, estamos sempre em contacto.

Há só mais uma pergunta que se impõe: como se encaixa a lua de mel com os próximos torneios?
[Risos] Só no final do ano. Tenho muito trabalho para fazer e a Carolina também está ocupada com o trabalho dela. Foi isso que acordámos.