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Quem tem medo de Colin Kaepernick? Para já, todas as equipas da NFL

A três dias de arrancar a nova época, o quarterback mais falado da NFL continua sem clube. A discussão gerada pelo seu protesto - ajoelhou-se durante o hino dos EUA, nos jogos - deu lugar a uma nova sobre o seu desemprego: justificam-no razões políticas e raciais ou puramente desportivas? Com ou sem clube, Kaepernick vai continuar a pairar sobre a NFL

FILIPA SILVA

Colin Kaepernick ao serviço dos San Francisco 49ers.

Thearon W. Henderson

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“Não façam dele um mártir”. Harry Edwards enviou o aviso, via email, ao responsável máximo da NFL em junho. A mensagem, a que o site Politico teve acesso, antevia o que em pleno agosto se veio a confirmar. O facto de Colin Kaepernick, o jogador mais falado da NFL no ano passado, estar sem clube, ia aquecer ainda mais a discussão. Afinal, são razões políticas e raciais as que tornaram Kaepernick persona non grata na NFL ou o facto de ele já não ser o quarterback que chegou à final da Super Bowl em 2013?

Harry Edwards não é um opinador qualquer. O sociólogo e ativista de direitos civis dos afro-americanos nos EUA, foi quem inspirou os sprinters Tommy Smith e John Carlos a aproveitarem a cerimónia das medalhas dos 200 metros nos Jogos Olímpicos de 1968 para levantarem os punhos cerrados, no pódio, em sinal de solidariedade com o movimento Black Power.

“Durante cerca de um ano, tivemos Colin Kaepernick a falar sobre racismo e desigualdade. É como se a máscara tivesse caído com Charlottesville [quando morreu uma mulher atropelada numa manifestação nacionalista]. As pessoas viram e pensaram: ‘Deus, o Kaepernick tem razão”, comentou Edwards ao site norte-americano.

O sociólogo critica a gestão que a NFL fez do caso Kaepernick e considera que o facto dele não ter sido contratado por nenhum clube desde março - a nova época arranca na quinta-feira - só veio aumentar o volume da conversa que Kaepernick lançou.

“Eles transformaram o quarterback suplente de uma equipa com duas vitórias e 14 derrotas e fizeram dele um mártir. Não precisava de ser um Nostradamus para antevê-lo”, declarou ainda o ativista.

O protesto

A história começa há um ano, na pré-época. Durante o entoar do hino, que antecede todos os jogos da NFL, Colin Kaepernick, o então quarterback suplente dos San Francisco 49ers, decidiu ficar sentado. O protesto mudou de forma logo no jogo seguinte, com o jogador a passar a ajoelhar-se em vez de ficar no banco.

Kaepernick ajoelhado ao lado de dois colegas de equipa durante o hino nacional americano.

Kaepernick ajoelhado ao lado de dois colegas de equipa durante o hino nacional americano.

Thearon W. Henderson

Motivo? Os sucessivos casos reportados de uso desproporcionado de força policial sobre afro-americanos, muitos deles com consequências fatais.

”Não me vou levantar e mostrar orgulho numa bandeira de um país que oprime pessoas negras e de cor”, justificou pela primeira vez Kaepernick. “Para mim, isto é mais importante do que o futebol e seria egoísta da minha parte olhar para o lado. Há corpos nas ruas e pessoas a saírem em liberdade e a safarem-se com homicídio”.

A ação do jogador cedo cativou a atenção dos media. Kaepernick prosseguiu com o protesto e foi seguido nele ao longo de toda a época. Alguns jogadores dos 49ers ajoelharam-se ao seu lado, outros passaram a fazê-lo noutras equipas. Até noutras modalidades.

As críticas vieram de muitos lados também. Donald Trump, a quem Kaepernick chamou de “racista” enquanto o agora presidente era ainda candidato, comentou o caso, primeiro no Twitter e depois numa entrevista radiofónica: “Pessoalmente, acho que não é uma coisa boa. Acho que é uma coisa terrível. Talvez ele deva procurar um país que lhe sirva melhor. Ele que tente. Não vai conseguir”.

De Obama à juíza do Supremo Tribunal norte-americano, Ruth Bader Ginsburg, toda a gente foi chamada a dar a opinião sobre o gesto do atleta. À equipa e à NFL, muitos fãs e comentadores pediram que Kaeperrnick fosse sancionado. A resposta oficial foi sempre alicerçada no respeito pela liberdade de expressão individual do atleta.

Chegamos a março e ao fim da época regular, uma época fraca para os San Francisco 49ers. Kaepernick estava de saída ao cabo de quase seis anos no clube. Foi contratado em 2011, quando era um dos mais promissores quarterbacks do futebol americano e atingiu o ponto alto da carreira dois anos depois, quando chegou com a equipa da Califórnia à final da Super Bowl, em 2013.

Kaepernick despediu-se em março dos 49ers.

Kaepernick despediu-se em março dos 49ers.

Sean M. Haffey

Os últimos anos não têm sido um conto de fadas. O jogador perdeu a titularidade. Na última temporada ainda alinhou de início em 11 jogos, mas, para o atleta de 29 anos, a sua história com os 49ers tinha chegado ao fim e antes de saber se a equipa o ia dispensar, Kaepernick desvinculou-se. Abdicou do ano de contrato que tinha e veio para o mercado como agente livre à procura de novo clube.

Uma coisa dava por garantida: a sua manifestação de protesto não iria continuar na época que agora está prestes a começar, por considerar que o objetivo que perseguia, o de abrir um debate, tinha sido amplamente conseguido.

O desemprego

Desde que o mercado abriu em março e à medida que o tempo passou sem que uma notícia de uma contratação de Kaepernick aparecesse, começaram a surgir as primeiras questões. Está a ser vítima de discriminação por causa do protesto que levou a cabo? Ou a falta de atenção dos emblemas deve-se a razões puramente desportivas?

O realizador Spike Lee terá sido dos primeiros a usar as redes sociais para dizer que a situação de Kaepernick “cheirava mal”. Estariam os 32 emblemas da NFL em conluio num acordo tácito para não contratar o jogador? Nem pensar, considerou Eric Macramalla na Forbes, para quem não contratar Kaepernick é mais uma questão de bom senso.

Vários sites atacaram outra frente. É estranho que um quarterback com o currículo de Kaepernick não tenha lugar entre os 64 melhores dos EUA, considerando que todas as equipas precisam de um titular e de um suplente no plantel. Ele pode não estar a caminho do pico de forma da carreira, mas será descartável a este ponto? O FiveThirtyEight explorou as estatísticas do jogador.

Dan Graziano, da ESPN, por sua parte não alinhou nas justificações de conluio, fator de distração ou dos méritos do atleta, para explicar que talvez valesse a pena neste caso descartar velhos argumentos para uma discussão nova.

Há ainda as razões económicas difíceis de avaliar uma vez que ninguém, publicamente, assumiu qualquer proposta pelo jogador. Sabe-se que abandonou um contrato de 14,5 milhões de dólares (cerca de 12 milhões de euros) mas as suas perspectivas de rendimento têm de estar associadas à posição, de titular ou suplente, que vier a ocupar.

Em junho, o jogador ainda foi convidado a treinar com os Seattle Seahawks, mas não ficou. Pete Carroll, o treinador, veio mais tarde a público justificar: “Ele é um titular. Nós já temos um titular! Mas ele é um titular e não consigo acreditar que ninguém lhe vá dar uma oportunidade nesta liga”, declarou.

O presente e as origens

Em Nova York, no mês passado, um milhar de pessoas manifestou-se frente à sede da NFL a pedir explicações pelo desemprego de Kaepernick. Há duas semanas, num jogo de pré-época, um grupo de jogadores dos Cleveland Browns ajoelharam-se em círculo durante o hino e contaram com a solidariedade de alguns companheiros de equipa brancos, naquele que é considerado o maior protesto do género até aqui.

Manifestação em Nova York de apoio a Colin Kaepernick.

Manifestação em Nova York de apoio a Colin Kaepernick.

Drew Angerer

O "efeito Kaepernick" está para durar, consiga o jogador um novo clube ou não. E a questão racial está de volta à mesa da NFL, uma organização onde 70% dos jogadores são afro-americanos, mas cuja base de seguidores - para não falar de proprietários dos clubes - é eminentemente branca.

O sucesso dos últimos 50 anos da organização, diz a “The Atlantic”, talvez se justifique pela forma como ela representa o ethos norte-americano. “O futebol de domingo é uma espécie de Sabbath para o país, e a NFL é a igreja mãe de uma nova religião civil americana”. Mas no que congrega, a organização pode passar a separar se não souber responder aos desafios que os casos como o de Kaepernick e seus seguidores lhe colocam.

A história de Colin Kaepernick já o ultrapassou. É hoje mais um espelho ou uma arma de arremesso de uma sociedade altamente polarizada no debate de questões que lhe são fundamentais.

Não deixa de ser curioso que o centro da história seja um homem adotado e criado por um casal branco. A mãe biológica viu-se forçada pelas circunstâncias a entregá-lo - tinha apenas 19 anos e tinha sido abandonada pelo pai biológico, afro-americano.

“Fomos sempre muito abertos em relação à adoção e em relação à cor da pele”, contou Teresa Kaepernick, a mãe adoptiva, ao "The New York Times". “Sempre o apontamos como positivo. Ele percebeu o que o distinguia e sempre se sentiu confortável com isso”.

A paixão do futebol americano também esteve sempre lá. Na quarta classe, quando já vivia na Califórnia com os pais, previu numa carta que seria, no futuro, um quarterback profissional nos 49ers. Conseguiu-o.

A raça e o mérito nunca terão sido problema pessoal para Kaepernick. O que não significa que ele não queira manifestar-se por aqueles que não possam dizer o mesmo.