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A patinagem artística portuguesa está de boa saúde e Ricardo Pinto é um dos seus maiores expoentes. Regressado do Mundial com uma medalha de ouro ao pescoço, o atleta de Leça do Balio desvenda a intensidade do seu treino. E partilha a sua paixão por uma modalidade que é muito mais do que um (simples) desporto

Margarida Mota

Ricardo Pinto, campeão do mundo 2017 em patinagem artística, na vertente de Solo Dance

Lucília Monteiro

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Há dez anos apenas, Ricardo Pinto era um jovem praticante de patinagem artística entusiasmado com a sua primeira chamada a um estágio da modalidade. Tinha 14 anos e já levava nove de aulas sobre patins — sem grandes objetivos ou ambições. Há pouco mais de um mês, este patinador de 24 anos saboreou, pela segunda vez, a conquista de um título mundial em séniores.

“Foi tudo muito rápido”, admite. “Quando comecei na patinagem, não sonhava que ia ganhar títulos mundiais. Fui praticando e os resultados foram aparecendo. A partir do meu primeiro estágio, ganhei um pouco mais de consciência acerca do que poderia acontecer. Pensei: ‘Quero ir a um Distrital’. Ganhei o meu primeiro Distrital e disse: ‘Fogo, quero ganhar o Nacional’. Ganhei o Nacional e... ‘Quero ir lá fora’. Concretizava um objetivo e logo surgia outro.”

Aos poucos, atinge um nível de excelência com que muitos sonham e poucos conseguem alcançar. Ironia das ironias, a patinagem entrara na sua vida — tinha ele cinco anos — um pouco por arrasto... “A minha irmã mais velha tinha um problema nos joelhos e o médico aconselhou-a a praticar patinagem para fazer correção. A minha mãe tinha vontade que eu praticasse um desporto e, por uma questão prática, colocou-me na patinagem também.”

Tudo se passa em Leça do Balio, no concelho de Matosinhos, onde Ricardo ainda vive e treina, na associação desportiva Rolar Matosinhos, uma espécie de segunda casa. É lá que o Expresso o encontra, num período de pausa dos seus treinos, três semanas após ter conquistado o título de campeão em Solo Dance, nos Mundiais de Nanjing (China), a 6 de setembro passado.

No início, cai-se muito

As férias de Ricardo são só aparentes, já que o atleta reserva alguns fins de tarde por semana para treinar os mais jovens. Na pista do pavilhão, acompanha-os com o olhar, persegue-os de patins, corrige movimentos, acode a quem cai desamparado na pista. “No início, cai-se muitas vezes”, diz. Talvez por isso, a patinagem não o tenha conquistado de imediato. Mas a mãe foi insistindo e ele foi ficando.

A primeira internacionalização — dedicava-se ele ainda à vertente de Pares de Dança (mais tarde optaria pela de Solo Dance) — surge em 2009. No ano seguinte, participa pela primeira vez num Campeonato do Mundo. E em 2011, conquista as primeiras medalhas de ouro: uma na Taça da Europa (que hoje corresponde ao Campeonato da Europa), outra no Campeonato do Mundo de júniores. O primeiro ouro num Mundial de séniores não tarda: conquista-o em 2015, em Cali (Colômbia).

Este ano, à partida para Nanjing, confessa, levava na mala o objetivo do primeiro lugar. “O título de 2015 foi um pouco inesperado. Mas, este ano, foi um objetivo definido entre mim e o meu treinador. Eu disse-lhe que queria lutar pelo primeiro lugar e ele disse-me que esse era um objetivo que ele tinha para mim. E conseguimos concretiza-lo.”

Após ser campeão do mundo, pela primeira vez, o atleta diz que repetir o feito não foi, por isso, mais fácil. “Muito pelo contrário! A cada ano que passa, a patinagem fica mais exigente, como é normal. E depois de se ganhar uma vez, as pessoas ficam à espera de mais. Sente-se uma pressão muito grande. E quando não se corresponde, não é fácil de digerir... Por incrível que pareça, manter é mais difícil do que chegar lá.”

Dada as características da patinagem artística que, para além da competição desportiva, tem inerente uma componente de espetáculo, — “a mistura do desporto com a arte”, como se lê no sítio da Federação Portuguesa de Patinagem —, os treinos são complexos. “Há uma parte física em que fazemos trabalho de cardio, no ginásio. Mais ou menos hora e meia todos os dias. Depois, há o trabalho técnico, com os patins”, com os treinadores que, para além das correções técnicas, escolhem as músicas e vão montando as coreografias. “Este ano, só de patins, trabalhamos cerca de três horas por dia: uma para a dança obrigatória, outra para a ‘style dance’ e outra para a dança livre”, os três estilos obrigatórios no programa individual.

Tudo somado, o título mundial “custou” a Ricardo Pinto mais de quatro horas por dia de dedicação à patinagem. “Fora o tempo que ficamos a praticar sozinhos”, acrescenta. “Se não me sentir cansado, prolongo um pouco o treino para interiorizar melhor o que estive a fazer com o meu treinador e mecanizar as correções.”

Em casa, também se treina. Descansa-se, física e psicologicamente, uma componente fundamental do treino, visiona-se vídeos, a pensar nas coreografias, e experimenta-se movimentos de sapatilhas calçadas, para depois ver como sai em patins. “Tentamos sempre inovar, de umas coreografias para as outras, e também transpor alguma coisa que já seja segura. Normalmente, há um elemento que consideramos a nossa imagem de marca e que tentamos sempre reproduzir.” A de Ricardo é um pião vertical no calcanhar. “O primeiro patinador a apresentar esse pião foi o meu treinador, depois passou-o a mim.”

Os triunfos na patinagem não dão azo a compensações financeiras, mas a recompensas emocionais que ficam para a vida. “Estar no pódio e ouvir o hino do nosso país a ser tocado por nossa causa faz-nos ver que todo o trabalho que desenvolvemos — todo o sofrimento, dores e chatices — valeu a pena.”

A omissão de Marcelo

Do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, que não costuma falhar nestas ocasiões, Ricardo não recebeu qualquer felicitação. Não valoriza a omissão. Congratula-se com a presença de alguns órgãos de informação à chegada dos patinadores nortenhos ao Aeroporto Francisco Sá Carneiro, no Porto. “Há uns anos, não havia nada daquilo, quase nem havia pessoas a esperar-nos. Não temos a projeção de outros desportos e temos resultados muito melhores. Se os grandes clubes de futebol tivessem secções de patinagem, se calhar teríamos uma projeção diferente, mas penso que não é uma condição necessária para que a modalidade continue a crescer.”

Ricardo não consegue falar do seu percurso sem constantemente mencionar e dividir os louros com os treinadores que o têm acompanhado: no início Pedro Craveiro, atualmente Hugo Chapouto, de 32 anos, também ele bicampeão (europeu e mundial) em Solo Dance, em 2009 e 2010.

Ao treinador cabe o enorme desafio de continuar motivar o atleta, dois títulos mundiais depois. “Eu arranjo muita motivação nas coreografias que faço”, diz Ricardo. “Como são diferentes todos os anos e, ainda por cima, este ano, mudou o sistema de ajuizamento, arranjo muito incentivo nas coisas novas. Motiva-me aprendê-las e, depois, surpreender quem as vê.”

“O Ricardo é o exemplo de como se deve encarar o desporto e que não é necessariamente a busca da medalha ou de um reconhecimento”, explica o treinador. “É a entrega e a conquista — no dia a dia, passo a passo — de pequeninas vitórias sobre si mesmo. Ele é a prova de que quando nós nos focamos naquilo que são as nossas conquistas, e trabalhamos as nossas debilidades, atingimos o nosso potencial máximo. Os campeões são aqueles que conseguem demonstrar o seu potencial máximo e não, necessariamente, aqueles que estão melhor.”

Hugo Chapouto, o treinador de Ricardo Pinto, foi o primeiro campeão do mundo da história da patinagem portuguesa

Hugo Chapouto, o treinador de Ricardo Pinto, foi o primeiro campeão do mundo da história da patinagem portuguesa

Lucília Monteiro

“O truque do nosso trabalho”, continua Chapouto, “é o espírito de partilha por parte de um atleta que consegue dividir a pista com milhentos atletas sem problema, que recebe de braços abertos jovens que chegam à categoria máxima, e que passam a competir com ele, sempre numa perspetiva solidária. E que consegue perceber que todos os dias tem de se superar, tem de sacrificar alguma coisa, e que está nesse crescimento constante.”

O elixir do Rolar

Hugo é treinador no Rolar Matosinhos desde 2010. Nos Mundiais de Nanjing, marcaram presença sete atletas desta associação, todos em Solo Dance. O pior resultado que obtiveram foi... o quarto lugar. No total, a participação portuguesa saldou-se por três ouros, três pratas e dois bronzes.

“No Rolar, não há nenhum elixir que brota das águas e que faz com que estes atletas sejam todos talentosíssimos e campeoníssimos”, comenta o treinador. “A metodologia de trabalho baseia-se na partilha, no espírito de sacrifício e no trabalho que depois é recheado com o talento de cada um.” Chapouto diz que na fórmula “99% de trabalho e 1% de talento” prioriza o trabalho. “Só quando ambas as potencialidades estão no máximo é que aquele 1% de talento vai fazer a diferença.”

No ranking das nações que melhor patinam, a Itália é a superpotência. Na China, Ricardo Pinto bateu o pé à armada italiana: Daniel Morandin foi segundo e Alessandro Spigai quarto. Fechou o pódio, com a medalha de bronze, o português Pedro Walgode, também ele atleta do Rolar.

“Treinamos ao mesmo tempo”, diz Ricardo. “É uma competição saudável. Com ele desenvolvi um laço de amizade. Muitas vezes as coisas estão a correr mal e é ele que me dá força para continuar a treinar. Não é bem uma competição direta. Sofro muito quando ele está a competir. Muita gente não compreende como é que eu não torço para que ele falhe... Eu, para ganhar, não gosto que os outros falhem ou que as coisas não lhes corram bem. Gosto de ganhar com mérito e não pensar que só ganhei porque a outra pessoa falhou.”

Depois do ouro nos Mundiais de Cali (2015) e de Nanjing (China), Ricardo Pinto está já de olho no próximo campeonato, marcado para Nantes (2018)

Depois do ouro nos Mundiais de Cali (2015) e de Nanjing (China), Ricardo Pinto está já de olho no próximo campeonato, marcado para Nantes (2018)

Lucília Monteiro

Ricardo Pinto divide tempo e energia entre a patinagem e os estudos na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto. “Tento ser bom aluno, mas reconheço que não sou tão bom como poderia ser. Dedico muito tempo à patinagem e, quando me sinto cansado, os estudos ficam um pouco de parte.”

Enquanto estudante universitário, beneficia do estatuto de atleta de alto rendimento. “Tenho a possibilidade de escolher as minhas aulas práticas, o que me possibilita montar o meu próprio horário, de acordo com os treinos da patinagem. E tenho a facilidade de, quando falto às aulas por causa das competições, as justificações da Federação serem aceites” pelos serviços académicos.

Sente falta, porém, de um acompanhamento diferente por parte dos docentes. “Falta um pouco de compreensão e de proximidade. Se eu me dirigir a um professor, sou tratado como um aluno regular. Compreendo que não pode haver uma valorização entre alunos, mas pelo menos alguma tolerância em relação a prazos, por exemplo. É útil termos as faltas justificadas, mas quando falhamos aulas, a lacuna em termos da matéria que se perdeu fica sempre lá.”

Ricardo estuda Biologia. Os animais são uma paixão que o acompanha desde criança, dos micróbios às girafas. “A minha profissão de sonho é trabalhar num zoo, como se vê na televisão, a cuidar dos tigres.” Quando se imagina na idade adulta, a Biologia é a área que quer exercer. “Gostava de fazer investigação”, diz. “Passamos pelo menos um quarto da nossa vida a estudar. Espero conseguir retirar alguma coisa da minha vida académica.”

Quanto à patinagem, nunca a vai querer largar — como atleta de um grupo, como treinador, como juíz, as opções são múltiplas.

Ricardo Pinto concilia a prática da patinagem com os estudos de Biologia, na Faculdade de Ciências do Porto

Ricardo Pinto concilia a prática da patinagem com os estudos de Biologia, na Faculdade de Ciências do Porto

Lucília Monteiro

Exclusivamente dedicado à patinagem, o treinador Hugo Chapouto viaja pelos quatro cantos do mundo, como membro de instituições internacionais e consultor de várias federações. Diz que, em Portugal, “a patinagem está de muito boa saúde”. Nos últimos dez anos, o número de praticantes aumentou bastante, em 2015 a patinagem foi reconhecida como modalidade no Desporto Escolar e, cada vez mais, a prática desportiva no país é encarada com maior seriedade.

Por avaliar está a influência da telenovela argentina “Soy Luna” (Disney Channel) na popularidade da patinagem entre os adolescentes portugueses... Na série, a jovem Luna Valente adora cantar e sonha em ser patinadora profissional. Ricardo garante que foi importante para levar alguns jovens a experimentar os patins.

“Quando comecei a praticar, aos sete anos de idade, os nossos sonhos eram muito limitados à partida”, diz Hugo Chapouto. “Não se sonhava em conquistar uma medalha num campeonato internacional. Hoje, qualquer atleta que nos aparece já ouviu falar num campeão do mundo ou da Europa. E são tantos aqui no Rolar.”

Apesar da falta de reconhecimento público dentro de portas, Portugal tem-se afirmado como uma potência internacional da patinagem artística. “A Itália não compete com ninguém, está claramente na liderança. Depois há três países mais ou menos em igualdade de circunstâncias: Portugal, Espanha e a Argentina”, diz Chapouto.

“Portugal não tem um problema em relação à patinagem, mas antes um problema de cultura desportiva. Ainda valorizamos unicamente o resultado e não o percurso. Infelizmente, os nossos jovens têm uma aproximação ao desporto que é: ‘Eu quero ser como a estrela que vejo na televisão’. E deveria ser: ‘Eu gostava de executar aquilo, gostava de jogar como aquelas pessoas’. Esse é o nosso défice.” De resto, tudo sobre rodas.

*Crédito dos vídeos: FIRS (Fédération Internationale Roller Sports)