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Porque é que os homens lutam? Porque podem

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Rui Gustavo, em Gdansk (Polónia)

Este é um dos 23 socos com que Darren Till derrotou o favorito Donald ‘Cowboy’ Cerrone. Aconteceu em Gdansk, na Polónia

Jeff Bottari/Zuffa LLC

– Porque é que luto?

Mike Perry franze a cara, mal dá para ler a tatuagem sob o sobrolho direito: ‘Titanium’

– Luto porque era o único miúdo branco de uma escola pública dos arredores de Michigan. Era gozado todos os dias, espancado dia sim, dia não e, claro, tive de lutar. E de aprender a lutar.

‘Titanium’ Mike Perry – a alcunha é uma homenagem a ‘Iron’ Mike Tyson, ex-campeão do mundo de boxe – tem 26 anos e é uma estrela em ascensão do UFC, a maior organização do mundo de MMA, a luta que mistura tudo. Judo, luta-livre, jiu jitsu kick boxing e karaté. Qualquer um destes estilos pode levar mais de dez anos a aprender e todos os lutadores têm de dominar, no mínimo, os princípios de cada um.

Perry é lutador convidado do UFC Gdansk, evento que esgotou a Ergo Arena desta cidade polaca e rendeu 577 mil euros só na bilheteira, fora merchandising, direitos televisivos e passes para o site oficial que transmitiu as lutas para 163 países. No mesmo dia, Lechia Gdansk e Lech Poznan disputavam um clássico de futebol no estádio da cidade, mas mesmo assim 12 mil pessoas pagaram entre 200 e 1200 zlotys (47 e 286 euros) para ver 11 lutas com seis polacos contra o resto do mundo.

O UFC tem à volta de 500 lutadores de mais de 30 países sob contrato, e 13 são polacos. Joanna Jędrzejczyk é a melhor do país e campeã do UFC da categoria peso-palha. Assinou um contrato milionário com a Telecom polaca, tem posters gigantes espalhados em Varsóvia, mas não participa neste evento porque tem um combate agendado para o fim do ano.

À direita, Joanna Jędrzejczyk, estrela polaca do UCF. Maior do que ela, na Polónia, talvez só o futebolista Lewandowski

À direita, Joanna Jędrzejczyk, estrela polaca do UCF. Maior do que ela, na Polónia, talvez só o futebolista Lewandowski

Ronald Martinez

É a maior estrela desportiva do país, só superada por Robert Lewandovski, futebolista do Bayern de Munique e, talvez, Kamil Stoch, campeão do mundo de saltos de ski.

A luta principal é entre o americano Donald “Cowboy” Cerrone, um veterano com mais de trinta lutas e claro favorito; e Darren Till, um inglês de 24 anos com apenas quatro lutas no UFC e um carisma inexplicável. O mestre contra o jovem lobo. “Viemos por causa dele. O meu filho treina taekwondo, é fã e eu fiz-lhe a vontade”, explica Jon Egul, que veio de avião da Noruega com Elias, o filho adolescente enrolado numa bandeira do Liverpool, a cidade natal de Till. “Sim, são lutas violentas, às vezes brutais, mas o miúdo já tem 16 anos, não me parece que seja algo prejudicial. A vida também é violenta”. Jon tem o ar pacato de um professor de liceu e gastou mais de mil euros para ver estas lutas. Porquê? “É da adrenalina.”

Mike Perry está numa das primeiras filas junto ao octógono, uma espécie de jaula onde os lutadores se confrontam e que contribui em parte para a má imagem que o desporto ainda tem. “Luta numa jaula” nunca pode soar bem a ninguém, mas a verdade é que a rede é usada pelos lutadores para se defenderem e aplicarem técnicas.

É necessária.

João Carvalho tinha 28 anos, dois filhos - um de 7 e outro de 12. Morreu na sequência de um combate de Mixed Martial Arts

João Carvalho tinha 28 anos, dois filhos - um de 7 e outro de 12. Morreu na sequência de um combate de Mixed Martial Arts

d.r.

Foi contra uma rede assim que o lutador de MMA português João ‘Rafeiro’ Carvalho foi encurralado num combate na Irlanda organizado por um pequeno clube local em abril de 2016. Foi golpeado com ground and pound, a técnica mais brutal de MMA que consiste em bater no adversário caído no chão com socos na cabeça até este deixar de se defender.

João Carvalho morreu na sequência das lesões sofridas na cabeça e o caso foi investigado e arquivado pela justiça irlandesa. No UFC, apesar de pernas, narizes e braços partidos, nunca houve uma morte a lamentar.

O DINHEIRO

Este é ‘Titanium’ Mike Perry. “Vendi drogas, participei num assalto e estive preso numa cadeia seis meses”

Este é ‘Titanium’ Mike Perry. “Vendi drogas, participei num assalto e estive preso numa cadeia seis meses”

Steve Marcus

Perry não está aqui para lutar lutar mas, por contrato, tem de participar neste eventos e, por exemplo, aguentar uma hora de perguntas dos fãs que só têm de se apresentar na Arena na véspera do combate e fazerem as perguntas que entenderem sem pagar um tostão. “Nasci sem nada, morei sempre em casas pobres e as lutas salvaram-me”, explica, sentado numa cadeira alta semelhante às das estrelas de cinema em noites de ante-estreia. “Comecei a treinar aos 15 anos, fiz lutas profissionais de boxe, mas não ganhava dinheiro suficiente. Vendi drogas, participei num assalto e estive preso numa cadeia seis meses. Aliás, estava em prisão domiciliária quando o meu agente me telefonou a dizer que a UFC queria contratar-me”.

Um telefonema destes é como uma espécie de lotaria para um lutador profissional. A organização não revela quanto paga aos lutadores, os contratos variam e há muitas nuances como prémios pela melhor luta, ou a melhor performance. Mas no início da carreira recebe cerca de 15 mil dólares por luta. No topo da carreira e se atingir um bom nível, o cheque pode chegar aos cem mil ou a valores mais altos no caso de estrelas como Conor McGregor ou Ronda Rousey.

Os lutadores são obrigados a usar os equipamentos da Reebok da UFC e a prescindir de quaisquer patrocínios que tenham com outras marcas. McGregor, o atleta mais conhecido da organização já ganhou 8,5 milhões de euros nos combates do UFC. Mas na luta de boxe que travou (e perdeu) com Floyd Mayweather ganhou 59,5 milhões e expôs a prisão em que vivem muitos dos atletas do UFC, que se queixam de ser mal pagos para a vida que levam e para os lucros que proporcionam ao UFC - que também não revela os seus ganhos, mas que terá gerado 600 milhões de euros em 2015, o último ano em que há dados finais.

Estas lutas chegam a 163 países, estão a expandir-se para a Europa e para a Ásia e há milhões de subscritores do fight pass – assinatura digital paga que permite ver parte dos eventos – em todo o mundo. Um bilião de pessoas vê eventos do UFC na televisão. Porquê? Porque é que os homens lutam e gostam de ver lutas? E porque é que o MMA é a luta em ascensão?

No que toca a milhões, ninguém faz tanto dinheiro como Conor McGregor, o ícone UFC que levou a modalidade até ao topo

No que toca a milhões, ninguém faz tanto dinheiro como Conor McGregor, o ícone UFC que levou a modalidade até ao topo

Michael Reaves

David Mamet, escritor, realizador e dramaturgo americano, pensou sobre o assunto num artigo publicado no “Guardian”. “Dantes, se houvesse um acidente na estrada, os dois automobilistas saiam do carro e gritavam obscenidades até a polícia chegar. Dois tontos. Hoje, há declarações amigáveis e quando a polícia chega, os automobilistas já estão a combinar o jantar para o próximo sábado”. Mas tem de haver um escape: “Podemos forçar a proximidade, mas não o afeto”, argumenta Mamet, que responsabiliza a globalização pelo sucesso do MMA: “Cada cultura tem a sua forma de combate, uma evolução da luta de rua, ‘limpa’ para funcionar como um espetáculo”.

Dá exemplos: “Em França podemos pontapear o adversário na cabeça, na Tailândia usam-se os joelhos e nos Estados Unidos apenas os punhos. Mas esperem: os Estados Unidos estão abraçar a globalização da única maneira que conhecem. Pagando. E o que é o MMA? Uma luta profissional em que mais do que especificar o que os lutadores podem fazer, diz-se o que não podem e deixa-se fazer o que quiserem. Há elementos americanos e ingleses, para o boxe; Japão e Brasil, para o jiu-jitsu; Tailândia, para o muai thay e Japão e China para o Karaté. Com graciosidade, capitalismo e globalização dão as mãos”.

O MAIN EVENT

Andre Fili derrotou Lobov, o protegido e amigo de McGregor

Andre Fili derrotou Lobov, o protegido e amigo de McGregor

Buda Mendes

Em Gdansk, depois de cinco horas interruptas de lutas com derrotas e vitórias dos heróis locais, chega a vez da luta principal, o main event. Cerrone vs Till. Há um apresentador que enuncia as qualidades e características de cada lutador, ring girls que só deixam de sorrir quando as câmaras se desviam delas e um público que podia estar a ver um concerto dos Pet Shop Boys: mais homens, é verdade, mas muitas mulheres, jovens e velhos, miúdos e raparigas vestidas como se fossem sair à noite.

O primeiro momento alto dá-se com a entrada no recinto de Conor McGregor, a principal estrela da modalidade, que vem ver a luta do amigo e companheiro de treino, Artem Lobov. Entra em plena luta com um copo de imperial na mão, dá uma volta olímpica ao octógono, é ovacionado como se tivesse feito um K.O. e passa o combate a dar indicações ao parceiro que é derrotado aos pontos. O vencedor, Andre Fili, tatuado da cabeça aos pés, discursa contra o nacionalismo e os atentados terroristas, e cita Einstein: “Só há uma raça, a raça humana.”

A luta principal começa. O som das mãos a bater na cara é seco. As luvas são tão finas que os lutadores chamam-lhes “sleeping pills”, comprimidos para dormir. Till entra mais forte. Cerrone vai controlando a fogosidade do adversário. Faz parte do fight plan. Deixá-lo cansar-se e contra-atacar. Desfere pontapés, a sua principal arma, e o som das pernas a bater no corpo é surpreendentemente suave, como uma palmada. Till acerta um direto de esquerda que faz o adversário dobrar o joelho. Cerrone aguenta o golpe e recua. Demais.

O adversário cai sobre ele e desfere 23 socos seguidos. “Cowboy” dobra o joelho e limita-se a esperar pela interrupção do árbitro. O combate não durou quatro minutos e os espectadores estão de pé a aplaudir entusiasticamente. O preferido do público está a sangrar do nariz, é abraçado pelo vencedor e mesmo assim não há uma vaia, um desacato, nada.

Darren Till, lutador de Liverpool, também conhecido por The Gorilla

Darren Till, lutador de Liverpool, também conhecido por The Gorilla

Dean Mouhtaropoulos

Antes da normalização e de se tornar um espetáculo aceitável e apetecível para as televisões e o público o UFC teve de percorrer um longo caminho. O primeiro evento ocorreu em 1993 nos Estados Unidos e era uma “evolução” do Vale Tudo brasileiro. Não havia categoria de pesos, nem assaltos, e uma das poucas regras previa que o combate pudesse acabar por morte de um dos lutadores. Uma luta entre um karateca e um peso pesado de luta livre acabou com vários dentes do lutador no pé do praticante de artes marciais.

A luta foi importada por Rorion Gracie, mestre brasileiro de jiu jitsu que tinha como sócio John Milius, realizador de cinema e do clássico “Conan o Bárbaro”, que chegou a propor que as lutas ocorressem num poço. Art Davie, o outro sócio, propôs um ringue rodeado por um fosso com crocodilos. Ficaram-se pelo octógono cercado por uma rede. A jaula.

Nos anos 90, o UFC estava em perigo de extinção, uma aberração condenada ao submundo da televisão por cabo. John McCain, candidato a vice-presidente dos Estados Unidos, falou pelo país quando disse que era o correspondente “à luta de galos humana”.

A organização foi comprada por uns generosos dois milhões de dólares pelos irmãos Fertitta, milionários e donos de casinos em Las Vegas e por Dana White. Os irmãos eram praticantes de jiu jitsu e incluíram no contrato uma clausula que previa que em caso de desacordo disputassem um combate arbitrado por White. Nunca foi necessário. A estratégia seguida revelou-se certeira: ao invés de fugirem da regulação independente, abraçaram-na.

Lorenzo Fertitta (ao meio) e Dana White (à direita), os mentores do UFC

Lorenzo Fertitta (ao meio) e Dana White (à direita), os mentores do UFC

Brad Barket

Os Fertitta pediram à comissão atlética do Nevada que cedesse árbitros e que criasse regras que transformassem o espetáculo num desporto. Foram importadas regras da luta greco romana, do judo, do boxe, do taekwondo e do jiu jitsu. Deixou de valer tudo. O livro de regras tem oito páginas e há 31 motivos para desqualificar um lutador. Não se pode, por exemplo, bater na nuca, na garganta ou enfiar os dedos nos olhos do adversário. Os lutadores passaram a ser controlados pela agência americana anti doping e o UFC contratou um dos maiores especialistas do mundo no combate à dopagem, Jeff Novitzky, famoso por desmantelar o laboratório Balco, que dopou a campeã olímpica Marion Jones. A organização fez um acordo com um hospital de Cleveland para controlar os eventuais danos cerebrais dos lutadores.

O passo seguinte foi a conquista da televisão. Em 2005 foi lançado o Ultimate Fighter, um programa que misturava reallity show com luta. Os lutadores viviam juntos numa casa filmada, disputavam eliminatórios e no final o vencedor ganhava um contrato com o UFC. O programa foi um sucesso e a final, transmitida na televisão pública – foi a primeira vez que o UFC saiu do gueto da televisão por cabo - um sucesso de audiências com dois por cento de share. A luta entre Forest Griffin e Stephan Bonnar foi tão boa que os dois ganharam um contrato e o MMA credibilidade.

Há pouco mais de um mês, os irmão Fertita venderam o UFC à WME-IMG por cinco mil milhões de dólares. Uma valorização de 250 mil por cento.

Mamet conclui: “É um mundo duro e a prática vai sempre superar a teoria, exceto no mundo das universidades. Na prática, nós, no mundo, temos de fazer negócios uns com os outros. Como é que a economia global vai evoluir? Vejam MMA, o verdadeiro mercado de ideias.”

Nota: O jornalista viajou a convite da Monster Energy