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Uma catarse coletiva chamada Astros

Dois meses após o furacão “Harvey”, os Houston Astros venceram pela primeira vez na história a World Series

Lídia Paralta Gomes

Redenção. Alex Bregman, um dos muitos jovens talentosos que os Astros foram ‘roubar’ ao draft, ergue os braços em Los Angeles, festejando um inédito título que a equipa quis oferecer à cidade, devastada em finais de agosto pelo furação “Harvey”, que matou mais de 40 pessoas na cidade texana

eugene garcia/epa

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Naquele final de agosto, quando caiu tanta água em Houston que muitos pensaram que o apocalipse estava a chegar, os Astros estavam a jogar fora da cidade. O outfielder George Springer entrava em campo sem saber se a sua vivenda ainda estava de pé. O colega José Altuve sabia que a mulher e a filha de meses estavam bem, mas presas em casa, rodeadas de água e destroços. “Quanto mais tempo vou ter de jogar nestas condições?”, perguntou a certa altura ao treinador A.J. Hinch.

Os Astros regressariam alguns dias depois a Houston para encontrar uma cidade destruída pela passagem do furacão “Harvey”. Tal como outros atletas, colocaram as mãos à obra: visitaram desalojados, ajudaram em abrigos de animais, fizeram doações. Mas mais que a solidariedade, os jogadores dos Astros sabiam que o que estava verdadeiramente nas suas mãos era jogar basebol. E fazer história.

História que aconteceu a 1 de novembro, dia em que todos os santos se juntaram pela vitória dos Astros no jogo 7 da World Series, a final do campeonato norte-americano de basebol (MLB). O primeiro título da história da equipa texana, fundada em 1962, teve de esperar 56 anos e aconteceu apenas dois meses depois do “Harvey”. Na quarta-feira, enquanto jogavam com os Dodgers, em Los Angeles, no derradeiro duelo da final, os Astros sabiam que não podiam trazer de volta as mais de 40 vidas perdidas para o furacão de Houston. Mas podiam, pelo menos, dar uma alegria aos que ficaram, muitos deles ainda desalojados, outros sem modo de acompanhar o dia mais importante da história da equipa, que até começou por se chamar Colts .45s, mas que em 1965 decidiu preferir as estrelas aos revólveres. Não pensem que isto foi só uma vitória: isto foi uma catarse coletiva.

harry how /getty

Os campeões sentimentais

O desporto tem destas coisas: mexe com as emoções. E ainda antes de chegarem à World Series, já os Astros eram os favoritos sentimentais de boa parte da América. Não só porque do outro lado estavam os Los Angeles Dodgers, ricos no palmarés e nos cofres, a equipa das estrelas de Hollywood — e toda a gente gosta de um bom underdog —, mas também pelo poder curativo que uma vitória dos Astros teria em Houston. O mesmo aconteceu com os Yankees depois do 11 de setembro de 2001 ou com os Red Sox em 2013, meses após o atentado na Maratona de Boston.

“Em todo o lado que passo, as pessoas que foram afetadas pela tragédia vêm ter comigo e agradecem-me. O furacão foi devastador e frustrante, mas também inspirador. E a motivação dos jogadores é grande: à medida que vamos avançando na postseason, sabemos o papel que temos na reconstrução de Houston”, revelou Reid Ryan, presidente dos Astros, à “Rolling Stone” em finais de setembro, quando a equipa já brilhava mas estava ainda longe de chegar à final da MLB.

Uma final em que os Astros não eram favoritos. Porque nunca haviam ganho sequer um jogo numa World Series e do outro lado estavam uns Dodgers detentores de seis títulos da MLB e que chegavam ao duelo decisivo com o melhor registo da temporada, com a vantagem de começar em casa e a maior folha salarial da liga, superior a 207 milhões de euros. Para percebermos a diferença, basta dizer que no início da temporada os Astros eram a 18ª equipa em 30 em termos de gastos com salários (106 milhões de euros).

Mas nisto do desporto, não é só a força do dinheiro que conta. E nas World Series ganhou a força de uma cidade despedaçada. “Passámos por muita coisa. E, para muitos de nós, não estar lá com os nossos quando tudo estava a acontecer ainda dói. Isto é a nossa redenção. Isto é o que nós damos de volta”, disse Dallas Keuchel, um dos pitchers da equipa, após levantar o troféu de campeão.Mas a história melhora. É que há quatro anos os Astros eram só a pior equipa da MLB.

mike nelson /epa

Perder como estratégia

De 2011 a 2013, os Astros perderam qualquer coisa como 324 jogos e as audiências televisivas chegaram a aproximar-se do zero (sim, zero). Ninguém queria saber dos Astros. Mas tudo fazia parte de um plano maior. Um plano que a revista “Sports Illustrated” destapou numa profética capa em 2014, em que afirmava que a equipa de Houston seria campeã da MLB em 2017. Isto porque o sistema de draft dos desportos americanos faz com que perder possa ser uma estratégia, porque as piores equipas da temporada têm a oportunidade de escolher as melhores esperanças no ano seguinte. E os Astros fizeram-no particularmente bem: foi assim que conseguiram George Springer, MVP (jogador mais valioso) das World Series, em 2014. Foi assim que escolheram Carlos Correa em 2015 e Alex Bregman no ano seguinte. Depois, chegaram ainda dois veteranos consagrados, mas a quem faltava um título: Carlos Beltrán e Justin Verlander. E assim se construiu uma equipa vencedora.

Tudo isto se fez com muita ajuda da análise de dados. Desde a publicação de “Moneyball”, sobre o milagre operado pelos Oakland Athletics, equipa que se tornou competitiva apesar dos problemas financeiros na viragem do século através de um sofisticado programa de estatística, que os dados passaram a ter uma importância fulcral no basebol. O general manager dos Astros, Jeff Luhnow, havia trabalhado na área da estatística antes de chegar à MLB e com ele a equipa mergulhou nos números.

Os resultados estão à vista. E nos EUA há quem arrisque que, com um núcleo tão jovem, esta vitória poderá não ser filha única: é uma dinastia à espera de acontecer.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 4 de novembro de 2017