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“Sim, sou culpado”. Médico de ginastas olímpicas confessa abusos sexuais

Os atos ocorreram ao longo de décadas, facilitados pelo estatuto de que Larry Nassar desfrutava nos escalões mais elevados da ginástica americana

Luís M. Faria

Larry Nassar (ao centro) declarou-se culpado de abuso de menores

JEFF KOWALSKY/GETTY

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Um médico norte-americano que trabalhou com ginastas menores de idade, algumas das quais viriam a ganhar medalhas olímpicas (entre elas, Aly Raisman, três vezes ouro, e Jamie Dantzscher, vencedora de dezenas de medalhas em campeonatos diversos) declarou-se culpado de abusos sexuais. Larry Nassar, de 53 anos, deverá ser condenado a uma pena de 25 anos de cadeia, no mínimo. Os abusos terão ocorrido ao longo de décadas.

É um dos maiores casos do género jamais noticiados e recorda o de Jerry Sandusky em 2012. Sandusky, um treinador de futebol americano que era uma lenda na Pensilvânia, abusou durante anos de atletas muito novos, que com frequência conhecia através de uma organização de beneficência que tinha fundado. Acabou condenado a uma pena de entre 30 a 60 - na prática, prisão perpétua - e a história mostrou como as autoridades, desportivas e não só, tendiam a fechar os olhos em situações desse tipo, mesmo quando havia denúncias formais, o que nem sempre acontecia.

O mesmo aconteceu em vários dos casos envolvendo Nassar. A pretexto de examinar as atletas, ele introduzia-lhes dedos na vagina, afagava-lhes os seios e praticava outros atos indesculpáveis em atletas com idades por vezes tão baixas como treze anos. Intimidadas pelo estatuto dele, as atletas ficavam sem reacção. Acabavam por contar a alguém, mas as histórias, como é bastante habitual, ficavam em nada.

O dique das denúncias

Gabrielle Douglas, ginasta dos EUA

Gabrielle Douglas, ginasta dos EUA

Quinn Rooney/Getty

A história começou-se a saber no fim do verão de 2016. Em agosto, o jornal "Indianapolis Star" publicou uma longa investigação sobre como as entidades desportivas tinham encoberto abusos praticados por vários treinadores. Encorajada, uma antiga ginasta chamada Rachael Denhollander resolveu apresentar igualmente uma queixa-crime contra Nassar, alegando que, em 2000, aos 15 anos, tinha sofrido abusos de Nassar quando fazia tratamentos para as dores nas costas.

Logo na altura a universidade impediu Nassar de continuar a atender doentes na clínica. Em setembro, quando Denhollander e outra ginasta, medalha de ouro numas Olimpíadas, contaram as suas histórias em público, a universidade demitiu-o de professor. As autoridades entraram em cena e em novembro ele foi formalmente acusado. Negou as acusações e ficou em liberdade, pagando uma fiança de um milhão de dólares, enquanto as investigações prosseguiam.

As denúncias rapidamente se acumularam. No fim de novembro, já eram cinquenta. Em dezembro, Nassar foi igualmente acusado de 37 mil imagens e vídeos de pornografia com menores no seu computador. Por esses crimes, foi-lhe negada fiança. Entretanto, os processos interpostos por vítimas começaram a entrar nos tribunais, dirigidos não apenas a Nassar como à USA Gymnastics, a associação que o empregou durante décadas, e à universidade e a um clube desportivo.

Os crimes alegados incluem molestação, assalto sexual e assédio, e os ex-empregadores de Nassar são acusados de terem fechado os olhos a queixas e não terem averiguado. Também há quem fale num ambiente hostil que fazia com que as jovens tivesse medo de reportar o que lhes tinha sucedido.

Uma fase do processo chegou agora ao fim, com o acordo e o reconhecimento de culpa por parte de Nassar. Em janeiro virá a sentença. E depois há os outros crimes de que ele é acusado...