Tribuna Expresso

Perfil

Modalidades

Michael Owen agora é jóquei, Bradley Wiggins remador e Rio Ferdinand pugilista: as histórias dos que trocaram de desporto

O antigo avançado da seleção inglesa estreou-se na última sexta-feira numa corrida de cavalos em Ascot. Já o vencedor da Volta a França de 2012 quer ir aos Jogos Olímpicos de Tóquio, mas de barco, enquanto o ex-central do Manchester United treina-se para o seu primeiro combate profissional. Mas há muitos outros atletas que, com maior ou menor sucesso, tentaram a sorte em outros desportos

Lídia Paralta Gomes

Alan Crowhurst/Getty

Partilhar

Seja no futebol, no ténis, na natação, no snooker ou nos dardos, o que une os desportos profissionais é a competição, um bicho que se entranha e que para muitos atletas não dá para controlar.

E é por isso que não faltam exemplos de atletas que depois de abandonarem uma modalidade regressam para tentarem a sua sorte em outra, às vezes com objetivos bem sérios, outras vezes apenas para experimentar ou até por motivos solidários, como mandam as regras do bom coração.

O último atleta a virar a agulha e a dedicar-se a algo completamente diferente, nas sábias palavras de John Cleese, foi Michael Owen. O antigo avançado inglês aceitou o desafio de se tornar jóquei e na última sexta-feira, após meses de preparação, apresentou-se na corrida solidária Prince’s Countryside Fund, criada pelo príncipe William em 2010 e que se corre todos os anos na Meca das corridas de cavalos e dos chapéus estrambólicos, Ascot. Em junho tinha sido a vez do antigo ciclista Bradley Wiggins anunciar a intenção de se dedicar ao remo, enquanto o ex-central Rio Ferdinand se prepara também para no próximo ano fazer o primeiro combate de boxe profissional.

Como Michael Owen passou de criador a jóquei

A história de Michael Owen com cavalos de corrida não exatamente nova. Ainda o Bola de Ouro de 2001 era futebolista no ativo quando decidiu investir numa propriedade para criação de cavalos. Começou com 30 animais e por estes dias já tem centenas, alguns deles vencedores de provas importantes num dos desportos nacionais em terras britânicas.

Mas até há um par de meses, Michael Owen, de 37 anos, nunca tinha montado um cavalo.

“Já tive sucesso em Ascot como proprietário, mas isto vai ser uma experiência completamente diferente e mal posso esperar”, disse o antigo jogador de clubes como Liverpool, Real Madrid ou Manchester United ao portar Racing UK.

Michael Owen em Ascot, a poucos minutos de começar a sua primeira corrida enquanto jóquei

Michael Owen em Ascot, a poucos minutos de começar a sua primeira corrida enquanto jóquei

Alan Crowhurst/Getty

O treino, esse, não foi nada fácil. Os jóqueis querem-se levezinhos e esguios e por isso o antigo avançado de clubes como Liverpool, Real Madrid ou Manchester United, que enquanto jogador nunca foi exatamente um calmeirão, teve de perder cerca de 10 quilos e lidar com a violência que é montar um cavalo a alta velocidade: “A primeira vez que me sentei no cavalo com que vou correr, o Calder Prince, no dia seguinte parecia que tinha feito um combate de 12 assaltos com o Mike Tyson”. Questões como a força, a postura e o equilíbrio tiveram de ser trabalhadas especificamente.

“Sei que sou estúpido. Provavelmente já tinha bebido uns copos quando concordei em fazer isto”, revelou Owen ao “Daily Express” alguns dias antes da corrida, sublinhando que a carreira de futebolista nunca lhe permitiu montar um cavalo e que a primeira vez que o fez foi há sensivelmente cinco meses. “A minha mãe ainda não está nela e pediu-me para não o fazer, tal como a minha mulher, que teve uma queda feia há uns tempos e só me pergunta ‘mas o que é que tu estás a fazer’”.

Os receios são sempre compreensíveis, mas a verdade é que a estreia competitiva de Michael Owen foi um sucesso: o antigo internacional inglês foi 2.º na sua corrida. “Diverti-me como nunca na vida e estarei em casa inteiro, assim que estou muito feliz pela forma como tudo correu”, disse o antigo atacante à BBC.

“Chegar a casa são e salvo, ganhar algum dinheiro para causas solidárias e ter uma experiência destas, em que tive de aprender uma nova disciplina e perder algum peso… acho que há muito de bom a retirar deste dia”, sublinhou ainda.

Bradley Wiggins à procura do 6.º ouro, mas a remar

Vencedor do Tour em 2012, Bradley Wiggins disse adeus ao ciclismo no final do último ano, com 37 anos, alguns meses após ter conquistado no Rio de Janeiro a sua quinta medalha de ouro em Jogos Olímpicos, na perseguição masculina.

Para manter a forma física, começou a treinar em máquinas de remo em ginásios e o que parecia ser apenas uma rotina, de repente começou a ter resultados. “Os meus números começaram a ser mesmo muito bons, assim que comecei a trabalhar como um profissional e a ser treinado sete dias por semana”, disse Wiggins numa conferência em junho passado.

Quando falamos em “trabalhar como um profissional” isso quer dizer exatamente o quê? “Vou fazer os campeonatos britânicos de remo indoor e depois ver quão longe posso chegar. Talvez até a uma sexta medalha de ouro…”

O corpo franzino de ciclista já era: Wiggins foi para o ginásio e em poucos meses pôs 30 quilos de músculo no corpo

O corpo franzino de ciclista já era: Wiggins foi para o ginásio e em poucos meses pôs 30 quilos de músculo no corpo

D.R.

Lá ambição não falta a Wiggins, que está a ser treinado por um antigo campeão olímpico em remo, James Cracknell. Se conseguir um lugar nos próximos Jogos Olímpicos, Wiggins chegará a Tóquio com 40 anos. “Podem chamar-me maluco, mas os meus tempos dizem-me que não e se trabalhar no duro nos próximos 18 meses poderei lá chegar? Porque não?”

Para já, são notórias as transformações físicas de Wiggins. Se durante a carreira de ciclista era conhecido pela sua figura esguia, completamente seca, uma fotografia que publicou há poucas semanas nas redes sociais mostra um britânico muito mais encorpado, próprio do treino de remo. “Estou quase a chegar aos 100 quilos, mais 30 do que tinha quando fazia o Tour”, revelou também o antigo atleta da Sky, que no próximo mês terá então a primeira competição oficial enquanto remador, nos campeonatos britânicos indoor.

Rio Ferdinand e um regresso ao soco

É muito possível que estejamos perante uma enorme manobra de marketing, cortesia da empresa de apostas Betfair, mas a verdade é que Rio Ferdinand está a treinar-se afincadamente para durante o próximo ano fazer o seu primeiro combate enquanto pugilista profissional.

O antigo central inglês de 38 anos deixou o futebol em 2015 e abraça agora uma paixão antiga. Para já, o objetivo é conseguir a licença do British Boxing Board of Control e depois provar que pode competir a um nível profissional. “O boxe é um desporto fantástico para o corpo e para a mente, sempre foi algo que adorei e este desafio é uma oportunidade única para mostrar às pessoas que é possível”, sublinhou Ferdinand ao “The Telegraph”.

Ao mesmo jornal, o jogador que brilhou ao serviço de clubes como West Ham, Leeds e Manchester United admitiu que o boxe foi importante para lidar com a morte da mulher - Rebecca não resistiu a um cancro da mama em 2015.

Ferdinand já de punho em riste na apresentação de um desafio com o alto patrocínio de uma casa de apostas

Ferdinand já de punho em riste na apresentação de um desafio com o alto patrocínio de uma casa de apostas

Chris J Ratcliffe/Getty

Mas apesar do pomposo anúncio e dos afincados treinos (está a trabalhar com outro antigo futebolista tornado boxeur, Curtis Woodhouse), a verdade é que no mês passado Rio Ferdinand deixou no ar que a sua passagem pelo boxe pode ser bem curta. “Não estou à procura de uma carreira. Quero fazer um combate profissional e depois logo vejo o que acontece. Até posso ficar agarrado e dizer ‘quero continuar aqui’”.

A ver vamos.

Outros atletas que trocaram de "ramo":

Fabien Barthez: O currículo do antigo guarda-redes francês que passou por clubes como Marselha, Mónaco ou Manchester United tem, por exemplo, um Mundial e um Europeu pela seleção gaulesa, uma Champions, dois campeonatos franceses e duas ligas inglesas. Coisa pouca. Depois de deixar os relvados, em 2007, Barthez mudou-se para os motores e já participou por três vezes nas 24 horas de Le Mans, mas ainda sem o sucesso da sua carreira de futebolista.

Michael Jordan: Em 1993, o mais icónicos dos jogadores de basquetebol da história decidiu parar de jogar, pouco tempo depois do assassínio do pai. No ano seguinte assinou um contrato com os Chicago White Sox, da MLB - o sonho de James Jordan sempre foi que o filho tivesse sido jogador de basebol. Mas Jordan acabou por nunca passar das ligas menores do basebol norte-americano e em março de 1995 redigiu o mais curto e talvez por isso um dos mais emblemáticos comunicados de imprensa da história do desporto: “I’m back”. A seguir vieram mais três anéis da NBA.

Alex Zanardi: Em 2001, um brutal acidente numa das provas da Fórmula CART deixou o piloto italiano sem as duas pernas. Zanardi ainda conseguiu voltar à competição em automóveis adaptados, mas foi a passagem para o paraciclismo que lhe trouxe títulos: 4 medalhas de ouro e 2 de prata em Jogos Paralímpicos.

Zanardi perdeu as pernas em 2001 e estreou-se nos Jogos Olímpicos em Londres'2012

Zanardi perdeu as pernas em 2001 e estreou-se nos Jogos Olímpicos em Londres'2012

Clive Rose/Getty

Lolo Jones: Uma das grandes especialistas nas provas de barreiras da primeira década do século 21, a desilusão de sempre ter falhado nas finais dos grandes campeonatos e Jogos Olímpicos fizeram Jones tomar outro rumo: dedicou-se ao bobsleigh e foi campeã do Mundo de equipas mistas em 2013, antes de fazer parte da equipa norte-americana para os Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi, em 2014, entrando no restrito grupo de atletas com participações tanto em Jogos de Verão como de Inverno.

Marquise Goodwin: Norte-americano foi campeão mundial júnior no salto em comprimento e nos 4x100m em 2008 e participou nos Jogos Olímpicos de Londres’2012. Mas no ano seguinte resolveu inscrever-se no draft da NFL e hoje é um dos wide receivers dos San Francisco 49ers.

Paolo Maldini: Com quase um milhar de jogos pelo Milan, onde passou toda a carreira, o defesa italiano, retirado desde 2009, decidiu este ano dar uma perninha no ténis: participou num jogo de pares do quadro principal da Aspria Tennis Cup, um torneio ATP da categoria Challenger, em Milão. A experiência, anunciou pouco depois, não é para repetir.

Tim Wiese: Guarda-redes com seis internacionalizações pela seleção alemã e que se destacou principalmente ao serviço do Werder Bremen, Wiese retirou-se em 2014 e dois anos depois fez a estreia enquanto profissional num evento da WWE, empresa que gere a luta livre americana.