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Xadrez: quando elas se levantam contra a discriminação

Anna Muzychuk recusou defender os dois títulos no Mundial de rápidas e semi-rápidas em Riade, contra as restrições que as mulheres são vítimas na Arábia Saudita. Mas não foi a única xadrezista a tomar uma posição de força contra a discriminação que são alvo em países árabes

Lídia Paralta Gomes

Anna Muzychuk, com as duas medalhas de ouro conquistadas no Mundial de rápidas e semi-rápidas de 2016, dois títulos que não irá defender este ano, na Arábia Saudita

KARIM JAAFAR/Getty

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Não que seja normal ver xadrezistas a fazer aberturas sicilianas com grandes sorrisos na cara, mas basta olhar para as fotos de Anna Muzychuk durante o Mundial feminino, que se realizou em março último em Teerão, capital do Irão, para perceber que a ucraniana, que ali foi vice-campeã, não estava exatamente contente por ser obrigada a jogar de lenço.

Por isso, quando em novembro a FIDE, federação internacional de xadrez, anunciou que o Mundial de rápidas e semi-rápidas seria jogado em Riade, capital da Arábia Saudita, Muzychuk, campeã em título em ambas as vertentes, não se calou e manifestou o seu desagrado no Facebook.

“Primeiro o Irão, depois a Arábia Saudita… nem quero imaginar onde é que o próximo Mundial feminino se vai realizar. Apesar dos prémios monetários recorde, não vou jogar em Riade, o que significa perder os meus dois títulos. Arriscar a minha vida, vestir abaya? Tudo tem um limite e os lenços no Irão foi mais que suficiente”, escreveu então.

A posição foi reafirmada durante o último fim de semana, a poucos dias do início do campeonato, que arrancou esta terça-feira. “Decidi não jogar de acordo com as regras dos outros, não ter usar abaya, não ter de estar acompanhada no exterior, no fundo, decidi não sentir-me como uma criatura secundária”, escreveu, também no Facebook. “Estou preparada para manter os meus princípios e não participar num campeonato em que ganharia mais dinheiro do que numa dúzia de eventos juntos. Tudo isto é chato, mas o que me perturba mais é que quase ninguém quer saber”, continuou, num texto em que refere que a sua irmã, Mariya, a acompanha na decisão de não jogar na Arábia Saudita.

A verdade é que alguns outros querem saber. Por ser campeã do Mundo em título, o boicote de Muzychuk, de 27 anos, foi amplamente difundido, mas a ucraniana não foi a única a decidir não jogar na Arábia Saudita, que além das restrições à liberdade das mulheres, também não concedeu vistos à delegação israelita, que não conseguirá assim competir.

Também nas redes sociais, a espanhola Ana Matnadze anunciou a sua ausência mas disse “respeitar” a decisão de cada xadrezista jogar ou não no país árabe. As irmãs Muzychuk e Matnadze não são as primeiras mulheres a levantarem a voz contra a discriminação que são alvo nas competições. Nazi Paikidze, grande-mestre norte-americana de apenas 24 anos, recusou-se a jogar no Mundial feminino, em Teerão - o mesmo em que Anna Muzychuk foi vice-campeã - devido à obrigatoriedade de usar hijab. Posição que foi seguida pela campeã argentina Carolina Lujan, entre outras participantes.

A grande-mestre norte-americana Nazi Paikidze recusou participar no Mundial feminino, em Teerão, por não querer usar hijab

A grande-mestre norte-americana Nazi Paikidze recusou participar no Mundial feminino, em Teerão, por não querer usar hijab

D.R.

Convém ainda sublinhar que os protestos não são um exclusivo das mulheres. O norte-americano Hiraku Nakamura também criticou a escolha da Arábia Saudita para sediar o torneio. “Organizar um torneio de xadrez num país em que os mais básicos direitos humanos não são valorizados é terrível. O xadrez é um jogo que permite que permite juntar todas as pessoas, não é um desporto em que as pessoas são separadas por causa da sua religião ou do seu país ou origem”. Naturalmente, não se inscreveu.

Regras (ligeiramente) menos apertadas

Os petrodólares têm muito poder e não é só no futebol que isso se nota. O contrato da FIDE com a Arábia Saudita para organizar o Mundial de rápidas e semi-rápidas é válido por três anos e o país terá pago mais de um milhão de euros para receber os melhores da modalidade.

A federação internacional não demorou a ser criticada. É que a Arábia Saudita, além de não ser exatamente conhecida pela sua cultura de respeito pelas liberdades individuais, está ainda em conflito com o Qatar e Irão pela supremacia regional, num território do Médio Oriente que sempre foi volátil.

Ainda assim, ao contrário do inicialmente relatado e talvez para acalmar as vozes mais críticas, Riade abriu as portas aos praticantes dos dois vizinhos, ao contrário do que aconteceu com os israelitas. Georgios Makropulos, vice-presidente da FIDE, anunciou já em Riade que a organização do campeonato comprometeu-se a conceder vistos aos jogadores de Israel nas edições de 2018 e 2019.

Quanto às participantes femininas, o esforço da FIDE para tornar o ambiente mais acolhedor teve alguns resultados. De acordo com o jornal britânico “The Independent”, a obrigatoriedade de usar abaya cinge-se a locais públicos como centros comerciais ou monumentos turísticos. Nos locais onde decorre o torneio, as mulheres estão autorizadas a não usar lenço, mas devem envergar calças formais de cores escuras, azuis ou pretas, bem como camisolas de gola-alta.

Mesmo internamente a decisão de organizar um torneio de xadrez não foi exatamente pacífica. Isto porque no início de 2016, durante uma entrevista televisiva, Sheikh Abdulaziz Al Sheikh, o grand Mufti da Arábia Saudita (o mesmo quer dizer, o clérigo mais importante do país), afirmou que jogos de tabuleiro vão contra os princípios do Islão, na medida em que são “uma perda de tempo, de dinheiro e causam problemas entre os jogadores”.