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Bobby Clay era um prodígio do atletismo. Não comia, só treinava. Com 20 anos, nunca menstruou e sofre de osteoporose

Com apenas 19 anos, Bobby Clay foi campeã da Europa nos 1500 metros. Aos 20, descobriu que tem osteoporose e viu-se afastada de todas as competições

Expresso

Ian MacNicol

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Há histórias trágicas que começam por ser mágicas e a de Bobby Clay é uma delas.

Considerada uma das maiores promessas do atletismo no Reino Unido nos últimos anos, com apenas 19 anos, Bobby Clay foi campeã da Europa nos 1500 metros; aos 17, já tinha conquistado o bronze na mesma competição.

Clay tudo para singrar a longo prazo, para sonhar com provas olímpicas e medalhas de ouro. Mas a carreira competitiva da atleta britânica acabou por terminar, quando ninguém o previa, e de forma precipitada.

O corpo pôs-lhe um travão.

Enquanto nadava, durante uma sessão de treino, Clay sofreu uma fratura num pé. “Estava a nadar e quando virei na piscina empurrando a parede, parti o pé. Não é normal partir um pé a nadar”, revelou num testemunho escrito publicado na revista “Athletics Weekly”.

Os exames médicos trouxeram ao de cima os problemas que até então estavam ocultos. Clay tinha osteoporose. Uma atleta de 20 anos com osteoporose. “Entrei num estado de negação, dizia para mim mesma que ia ficar tudo bem, mas sofri outra fratura, e outra, e mais outra…”, confessou.

A verdade, ela sabia, é que havia um motivo simples para todas aquelas lesões que estavam a surgir.

“Tenho 20 anos e nunca fui menstruada”

Desde os quinze anos, o mindset de Bobby Clay foi sempre “ser a melhor”. Por isso, treinava mais do que lhe era recomendado pelos treinadores, comia menos do que os nutricionistas prescreviam. Valia tudo.

“Sabia que um corpo com pouca gordura significava que não menstruaria, mas para mim isso era positivo. Tinha 15 anos e fazia o mesmo que homens adultos, exigia bastante de mim, ia sempre um pouco mais além em cada treino”, contou.

Querer mais, ser mais. Este modo de pensar acabou por trazer consequências físicas e psicológicas que vão ficar para a vida de Bobby Clay. No ano passado, viu-se afastada de todas as competições e desde há cinco meses faz vários tratamentos para aumentar a sua densidade óssea e estabelecer um ciclo menstrual regular.

Hoje, Bobby Clay diz que é vista no Reino Unido como “aquela menina”. “A menina que treinou demais, a menina que não se alimentou. A menina de quem todos falam e pensam que isto nunca acontecerá com elas. Sempre tive confiança de que poderia ser alguém a correr e a competir, mas esse desejo assumiu o controlo da minha vida”, revelou.

“Tenho 20 anos e nunca fui menstruada. Tenho 20 anos e sofro de osteoporose”, revelou.

Segundo a atleta, a revelação do seu périplo pessoal não teve qualquer objetivo, uma busca de pena por si. “Fiz isto para aquela menina de 12 anos [ela própria] que tinha uma grande paixão pela corrida, por não querer que mais ninguém passe por esta tortura física emocional”, contou.