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O gancho de Deus

Foi um dos grandes da história do boxe. Nos anos 30, defrontou todas as lendas do pugilismo mundial. Foi campeão absoluto de Portugal em todas as categorias. Teve o título de campeão europeu ao alcance do seu gancho de direita e o título mundial ao virar da esquina. Pela sua voz se falou pela primeira vez português num filme estrangeiro. Chamavam-lhe o “gigante vareiro”. Para os amigos, Santa Camarão

Luís Pedro Cabral

Foto Biblioteca Municipal Ovar

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Largo da Poça, Bairro da Arruela, Ovar. 25 de dezembro de 1902. Não se sabe se lhe chamaram José por causa da data, mas o simples facto de ter nascido no dia em que se celebra o nascimento de Jesus já era de si um bom tema de conversa para qualquer alminha temente. Não foi isso que nesse dia conduziu os vizinhos em romaria para o número 98 da Rua dos Ferradores, da Arruela. No bairro, não havia segredo que durasse muito tempo. Josefa — a Ti Josefa Santa, como ficaria para a história daquele lugar — tinha dado à luz às nove da manhã. Pela tardinha, já toda a gente sabia que na sua casa tinha nascido um gigante. Feito assinalável, num país de baixotes. No alvor do século XX, a estatura média do homem português era de 1,64 m. Em relação à norma, era um recém-nascido com a altura e o peso de dois. Os pés, mais pareciam chanatas. Seria um exagero afirmar que o menino tinha a cabeça grande, pois era apenas proporcional ao seu corpo. Ao abrigo do seu anonimato, tinha nascido o fenómeno do dia, que havia de entreter por muito tempo as comadres e os compadres vareiros, assim como as crianças que cresceram com com ele nas ruas de Ovar, condenadas a meias-lecas perante a sua maldição de gigante.

Com 8 anos, José Santa já sabia muito bem como se sentiam aquelas atrações de circo que de vez em quando passavam pelos seus lados. O catraio convenceu-se que era fruto do azar. Um defeito de fabrico, são como um pero, sólido como uma rocha, frágil como um menino envergonhado dentro do corpo de um gigante. Se não fossem as suas medidas invulgares, tinha tudo para ser uma pessoa como as outras. Era tão grande. E era tão pequeno. Mas era só isso que ele queria ser. Ainda assim, era o mais sortudo de quatro irmãos. Pelo menos ele foi à escola, o tempo suficiente para aprender a ler e a escrever. Os três irmãos (dois eram gémeos) só tiveram tempo de crescer para poder trabalhar.

Havia uma razão específica para que entre cada um dos irmãos, tirando obviamente os gémeos, haver uma diferença etária de cinco anos. António Soares Santa e Josefa Pereira dos Santos casaram para se separar. Não foi litigioso nem coisa que o valha. Foi a necessidade, simplesmente. O pai de José Santa era de uma família de fragateiros. Mudou-se para Lisboa, para trabalhar com um irmão, nas embarcações à vela que inundavam o Tejo, assegurando o transporte de bens. De Lisboa, sempre chegou dinheiro para as necessidades básicas da família. Mas o pai só vinha a Ovar de cinco em cinco anos. Ao longe, o miúdo sonhava com Lisboa.

A família Camarão, em 1910. José Santa, à direita, tinha então 8 anos

A família Camarão, em 1910. José Santa, à direita, tinha então 8 anos

Foto Biblioteca Municipal Ovar

Um dia chegou uma carta do pai, com a quantia exata de uma viagem de comboio. O rapaz que fizesse a trouxa e embarcasse para Lisboa. Corpo para trabalhar não lhe faltava, embora fosse bem capaz de tornar minúscula a pequena casa do pai, no Beco da Cardosa, em Alfama, onde também moravam parentes seus. À despedida, a mãe chorou como se assistisse ao seu funeral. E ele acenou-lhe com o seu chapéu de homenzinho, sem ter lágrimas para lhe devolver. Estava demasiado entusiasmado. E o comboio da sua vida estava em andamento.

SONHO ENVENENADO

José Santa descreveria assim a sua chegada, em 1911: “Cheguei de noite. O Rossio deslumbrou-me. Não tinha palavras. Agarrado à mão do meu pai, atravessei aquela multidão, desci por uma rua de grandes montras iluminadas e meia hora depois, com a cabeça transtornada de tanta coisa linda que vira num relance — estava dentro de uma fragata.” Fazia sentido. Seria a fragata a sua segunda casa.

Ainda era um menino. E, para mal dos seus pecados, em crescimento. Só tinha mais oito anos que a I República. A vida de fragateiro era de trabalho árduo, muscular. O tempo só desenvolveria a sua maldição. Quanto mais crescia para homem, menos eram os sítios onde um gigante se podia esconder. A malta das fragatas deixou-lhe claro que o pesadelo só estava a começar. Acolheram-no bem. Quase como um deles. Mas a coisa azedou quando começaram a falar do comprimento das suas pernas. Chamaram-lhe “camarãozinho”, por ironia. Não há arte mais portuguesa que a da alcunha. A sua estabilizaria em “Camarão”, embora nenhuma se orientasse pela sua fisionomia, julgando ele o contrário. “Camarão” era a alcunha do seu tio, irmão do pai. António Soares Santa era uma pessoa muito séria, de muitas maneiras imponente. Não era muito dado a alcunhas. Chamavam-lhe Santa.

Cartaz do combate de despedida, em finais de 1934, contra o espanhol Claudio Vilar. Uma derrota, que lhe deixou amargo de boca para o resto da vida


Cartaz do combate de despedida, em finais de 1934, contra o espanhol Claudio Vilar. Uma derrota, que lhe deixou amargo de boca para o resto da vida


Foto Biblioteca Municipal Ovar

Na fragata, Camarão era a melhor companhia que alguém podia ter. Ganhou estatura, estatuto e uma boa quantidade de apostas. Se o Santa Camarão era capaz de levar um barril aos ombros? Era. Se era capaz de pegar num saco com 100 quilos só com uma mão? Ficou provado que sim. Se Lisboa correspondeu ao amor da sua primeira vista? Nem por sombras. A terra firme da cidade maltratou-o tanto que o Tejo se transformou no seu único refúgio. A sua força era motivo de orgulho para qualquer um. Mas a sua altura envergonhava-o quase sempre.

Uma certa namorada, a quem Santa Camarão se afeiçoou muito, debelou circunstancialmente os seus complexos. Se era possível uma mulher gostar dele, talvez o seu caso não estivesse perdido. Durou pouco, a terapia do amor. E ele deixou-se abater de novo pelo seu trauma de estimação. “Pelas ruas, eu sofria, humilhado, vencido, ouvindo a gente que se ria à minha passagem e os comentários desagradáveis das mulheres dos homens. Andava descalço, de boina enterrada até aos olhos e uma camisa esfarrapada a cobrir-me o tronco rijo. E mirava-me nos vidros das montras — a odiar-me, a querer mal a mim mesmo, a cumprir à pressa o meu dever, para me ir encafuar no fundo da fragata, sossegado e livre. Só no barco era feliz.”

As ruas tornaram-se um pesadelo. Em 1915, com apenas 13 anos, já media mais que a maior parte dos homens. Passava pelas pessoas como se estivesse sobre um andarilho, olhando para elas como se as visse de um pináculo. Que estranho fenómeno ele era. Quanto maior ficava, mais pequeno se sentia. Com 19 anos, em 1922, calçava para lá de 49 e media mais de dois metros de altura. As ruas já não o assustavam tanto. Em bando com a rapaziada das fragatas, as pessoas continham-se mais. Num desses dias, a “canalha” decidiu ver um espetáculo de circo ao Coliseu dos Recreios. E a sua vida nunca mais seria igual. O espetáculo incluía um freak-show e umas quantas sessões de luta. Para freak-show, tinha o espelho. Quanto à luta, foi com grande deslumbramento que viu irromper pela multidão homens tão altos e até mais que ele, robustos, ostentando a envergadura em vez de a esconder. A maralha aplaudia-os com genuíno apreço. Contando os encantos da sua amada, foi aquela a mais bela epifania da sua juventude. Seria aquele o seu futuro? A alforria? “Foi a pior época da minha vida. Compreendia que podia ser aproveitado, mas não sabia como. Não tinha ninguém que me ensinasse o caminho a seguir. As pessoas com quem convivia eram uns ignorantes como eu, que sabiam apenas carregar sacos no cais.”

Em vez de descobrir esse caminho, foi antes descoberto por ele. Foi igualmente no Coliseu dos Recreios, onde se tornou assíduo, para ver os seus irmãos gigantes a digladiar-se. Numa dessas lutas, no eflúvio da vitória, o lutador vitorioso disse que era capaz de derrotar qualquer homem que ousasse pisar o tablado com ele. Os companheiros exultaram Santa Camarão a aceitar o repto. Estava no auge da sua força. Se não estava, andava lá perto. Mas hesitava. O outro gigante era um profissional da luta e ele um paz de alma, que só se envolvia em violência quando não tinha outro remédio.

Subiu para a arena, colhendo os primeiros aplausos da sua vida. Em minutos, Santa Camarão subjugou o adversário, aplicando-lhe, pela via do instinto, uma chave imobilizante. Segundo os relatos, “uma autêntica tenaz de força”.

Na plateia encontrava-se Manuel Grilo, campeão de Portugal de luta livre. Foi ele quem descobriu Santa Camarão. Viu no pupilo as qualidades que ele tinha, sendo que era mais forte e mais alto, mas não dominava as técnicas da luta livre. Convenceu-o a iniciar-se no “Sport”. Mas o fragateiro sabia lá o que era isso. Convenceram-no a treinar num ginásio três dias. “Só levantava pesos e alteres”. Camarão apanhou uma tal crise de tédio que resolveu fugir para as fragatas. Para levantar pesos não precisava de um ginásio. Em Lisboa, nessa época, realizavam-se muitos eventos de luta. E o Coliseu era o grande palco. O Campo Pequeno, outro. No Porto, o Palácio de Cristal. Santa Camarão sentia um certo apelo, mas desistiu da ideia de tornar-se lutador. Desistiu ele. Grilo não.

Uma série de coincidências havia de juntá-los de novo. Passados uns meses, estava anunciada uma luta de titãs, cujos lucros reverteriam para instituições de caridade do Porto, com o alto patrocínio do governador da Invicta. Manuel Gonçalves, grande campeão de luta, ia enfrentar um aspirante a campeão, que desistiu à última hora, por lesão. Foi por isso que o secretário do governador se deslocou ao cais, à procura do gigante fragateiro, para lhe dirigir o convite, a conselho de Manuel Grilo, que era precisamente o manager do desistente. Santa declinou o convite. Mas pensou melhor quando lhe ofereceram 50 escudos, uma pequena fortuna para as suas posses. Depois de lhe pagarem também o almoço, deram-lhe instruções precisas. O campeão, disseram-lhe, estava preocupado com a sua envergadura, temendo não o conseguir derrubar logo nos instantes iniciais do combate, o que afetaria muito a sua reputação. Havia nestas lutas muito de encenação, informaram-no. Dava jeito que ele caísse redondo longo no primeiro round. Ficou também combinado que ele se sentaria na assistência, para corresponder ao desafio do absoluto campeão. Assim fez o debutante. Se o campeão pensava que ele ia tombar como uma pena, estava muito enganado. Santa Camarão entrou com todas as suas forças. E acabou por esgotá-las, perdendo no primeiro assalto. A encenação não era assim tanta. Em menos de dez minutos de luta, ganhou uma dor de pescoço para mais de uma semana.

O seu primeiro combate a sério foi no Palácio de Cristal, contra um lutador belga, que ele venceu mais pela força que pela técnica, apresentando-se em combate com apenas um treino, sob os auspícios de Alexandre Cal, antigo sportsman do Porto, que seria o manager da sua vida, pelas melhores e pelas piores razões. A sua carreira na luta livre foi curta. Depois desta, só fez mais uma luta. Cal aconselhou-o a dedicar-se ao boxe. Via nele grandes argumentos para um peso pesado. Tinha encontrado, por fim, o antídoto para o seu complexo de gigante. Um desporto que glorificava os homens como ele. Estava decidido: seria boxeur.

SOOU O GONGO

O pugilista Benjamim Branco fez o seu batismo de ringue, ganhando Santa Camarão por KO. Mas a sua estreia profissional no boxe seria no Campo Pequeno, em 1922, contra Demour, boxeur francês, com muita prosápia e pouca resistência. Ao segundo round, apagaram-se as luzes. Foi quase necessário um escadote para o árbitro levantar o braço do novo fenómeno do ringue. “Senhoras e senhores: Santa Camarão, o gigante vareiro, acabado de chegar do convés de uma fragata para partir as ventas a quem se colocasse na sua rota.” O speaker exagerou. Mas a apresentação estava feita. Em Ovar, fizeram uma festa de arromba, com banda de música e tudo, para o receber em glória. Tinha passado de aberração a herói. Isto já ninguém lhe podia tirar. Nunca percebeu porque é que no seu bairro as pessoas se admiravam tanto com o seu tamanho. O pai pesava quase 90 quilos e media para lá de 1,85 m. A mãe, que era magrinha, não se ficava muito atrás em altura.

Passado pouco tempo, já dispensava apresentação. Passou de challenger a cabeça de cartaz. Bateu todos os recordes que havia para bater até se tornar campeão nacional em todas as categorias, conservando sempre a modéstia e o manager, que se ocupava do seu canto e dos contratos. Confiava tanto em Alexandre Cal que um dia “ele disse-me que eu tinha de deixar de fumar e eu deixei”.

Casamento com Mary Loreto Oliveira, nos EUA, em 1932

Casamento com Mary Loreto Oliveira, nos EUA, em 1932

Foto Biblioteca Municipal Ovar

Em 1925, a máquina de combate estava no ponto. Santa Camarão disputou 19 combates, dez em Lisboa, nove no Porto, mantendo-se invicto. A Europa chamava por ele. O título europeu era um sonho no horizonte, disse-lhe o empresário. Ele acreditou. Partiram em périplo por Espanha, França, Itália, Inglaterra e Alemanha, onde Santa conquistou vitórias, experiência, prestígio e umas quantas nódoas negras. Voltaria a Portugal só para mostrar o seu poderio, depois fariam de novo as malas, para a primeira aventura intercontinental. O grande pugilista português e o seu empresário chegaram ao Brasil em 1926, trazendo na bagagem estatuto de invencibilidade. O Brasil era a porta de entrada para os EUA, onde o boxe era rei e os pugilistas verdadeiras estrelas. Se tudo corresse bem no Brasil, talvez no sonho americano se encaixasse um cinturão de campeão do mundo.

Mas nem tudo correu bem no Brasil, onde os pugilistas brasileiros estavam perfeitamente ao alcance de Santa Camarão mas, tal como ele, andavam por ali grandes pesos pesados a piscar o olho à USA. Os argentinos tinham escola. Eram os mais temíveis. E o seu primeiro combate era contra Epilánio Isla, argentino. Não era bem isla, era uma montanha.

Foto premonitória. Mary Loreto, em fundo, separou-se de Santa Camarão quando este já estava retirado. Regressou aos EUA com o filho do casal, deixando-lhe apenas memórias

Foto premonitória. Mary Loreto, em fundo, separou-se de Santa Camarão quando este já estava retirado. Regressou aos EUA com o filho do casal, deixando-lhe apenas memórias

Foto Biblioteca Municipal Ovar

Qualquer coisa se passou de muito errado nesta peleia. Santa Camarão não se tinha apresentado no Brasil em grande forma física e o seu manager não era dado à técnica. Mas nada podia explicar o facto de o campeão português ter beijado a lona mesmo antes de começar o combate. Mesmo assim, conseguiu levar o combate até ao fim, perdendo aos pontos. Marcou-se desde logo o mais parecido que havia com uma conferência de imprensa para explicar, sem outras provas que não a palavra de honra do “gigante Adamastor” de que alguém o havia intoxicado com uma droga que horas depois do combate ainda o tinha sob “hipnose”. Só muito tempo mais tarde ficaria ‘quase’ provado que fora o seu próprio “segundo” (ajudante) a drogá-lo para que ele perdesse. A derrota valeu ao seu empresário muito dinheiro. Esta derrota, afirmaram muitos especialistas, havia de impedir Santa Camarão de ser um dia campeão do mundo. E podiam ter a certeza que o seu merecimento não tinha nada a ver com isso. Apesar do percalço, Santa Camarão estava certamente entre os melhores pesos pesados do mundo.

O pugilista português permaneceu no Brasil quase três anos. O cômputo geral não era famoso: 17 combates, 11 vitórias, seis derrotas, mas nenhuma por KO. Pelo meio, houve muitas polémicas. Uma relacionada com uma dívida astronómica de Alexandre Cal às entidades do boxe, outra que envolvia uma distinta senhora da sociedade carioca, casada e mãe de filhos. Camarão foi acusado de “Don Juan”. Mas, depois de ele assegurar que nunca tinha faltado ao respeito à senhora e de esta ter assegurado que nunca fora desrespeitada, o caso ficou arrumado.

O Brasil não foi um marco na sua história. Em 1928, estava de volta a Portugal com os sonhos ainda intactos. Contra adversários de grande calibre, Camarão voltou às vitórias sucessivas e à melhor forma. O sortilégio do boxe é assim. Num golpe tudo se perde ou tudo se ganha. E ele ganhou uma oportunidade de ouro. Pierre Charles, o campeão europeu da modalidade, estava disposto a arriscar o título contra Santa Camarão. 15 rounds, como era de regra. Dizem as crónicas desse combate, realizado em 1929, que o gigante português foi grande. Mas não chegou para derrotar o pugilista belga, habituado a grandes palcos e a enormes adversários. Santa perdeu aos pontos. Aos pontos, ele sabia, é muito difícil derrotar os campeões.

Foi uma digestão difícil, mas não foi lenta. Empresários alemães endereçaram-lhe convite para uma série de combates em várias cidades da Alemanha, para onde partiu poucos meses depois. O gigante luso combateu ainda em Inglaterra e França, regressando à Alemanha, para Berlim. Nesta estranha fase da sua carreira, entre vitórias por KO, algumas derrotas por pontos e outras de secretaria, dava a impressão que o boxe era o que menos lhe interessava. Interessavam-lhe mais os encantamentos da sociedade alemã, mais liberal, menos provinciana. Santa acertou contas com a indulgência. Dançava mais do que combatia. Houve quem tivesse escrito num jornal que foi o período mais feliz da sua vida. “Pagou tributo à sua mocidade”. Tinha então 27 anos.

Com um amigo de infância em Ovar, para onde regressou depois de pendurar as luvas e onde ficou até à sua morte

Com um amigo de infância em Ovar, para onde regressou depois de pendurar as luvas e onde ficou até à sua morte

Foto Biblioteca Municipal Ovar

Foi em Berlim que recebeu um apelo irresistível, daqueles que imortalizam as pessoas. O realizador alemão Reinhold Schuntzel convidou-o para entrar num filme, em que Santa Camarão faria dele próprio, contracenando num combate com Max Schmeling, a grande estrela do boxe, do cinema, do teatro e das variedades, campeão europeu de pesos pesados, campeão do mundo da mesma categoria entre 1930 e 1932. Schmeling era um astro em ascensão, que Hitler usaria anos depois como protótipo da supremacia ariana, quando este venceu Joe Louis nos EUA. Camarão, era a personagem secundária, com o papel de vender cara a derrota. O filme era uma comédia romântica à volta do boxe. Para ele estava reservada a cena final, em que o campeão vence o duro vilão que lhe quer roubar a glória e a namorada. O cenário do grand finale era um circo berlinense, com uma multidão em redor. Os lutadores não tinham grande noção de câmara. Para eles, lutar era lutar. Não tinham intenções de simular o fervor da luta. No guião, estava previsto que Santa Camarão fosse ao tapete no 4º assalto, por KO, para tornar a cena mais emocionante. Mas o campeão português tinha outra ideia em mente. “Não caio. Nunca um gajo me pôs a dormir.” Aos 15 assaltos, Schmeling e Camarão eram poças de sangue e suor, trocando golpes até soar o gongo final. O produtor do filme teve de encontrar uma solução airosa. Propôs que se faria com as filmagens do combate um documentário sobre boxe. Quanto ao “Liebe im Ring” (“Amor no Ringue”), se o senhor Camarão não se importasse, filmariam mais um take de luta, em que ele recebia um golpe que o deixasse de joelhos, já que teimava em não cair. Assim foi.

Foi neste filme, que estreou na Alemanha em março de 1930, que pela primeira vez se falou português num filme estrangeiro, falando com Arthur Duarte, ator, realizador, diretor do “Leão da Estrela”, por exemplo, que nesta película fazia de seu “segundo”. O filme fez por Santa Camarão mais que mil combates. A sua popularidade foi aos píncaros. Ainda em Berlim, foi contratado para uma longa temporada nos EUA. Seria apaniguado de um manager americano. A imprensa americana badalou a sua vinda como o sino de uma catedral. O “grande campeão português”, o “gigante de Ovar”, o “gigante Adamastor”, passou a ser o “big fellow”. A enorme diáspora portuguesa recebia-o em toda a parte como se recebesse um deus. E Santa Camarão não tinha intenções de atirar a toalha dos seus sonhos ao chão. Que se cuidasse quem lhe havia vaticinado a curva descendente. O lutador estava de volta.

Em Nova Iorque, na fase mais importante da sua carreira, com as marcas frescas de mais um combate

Em Nova Iorque, na fase mais importante da sua carreira, com as marcas frescas de mais um combate

Foto Biblioteca Municipal Ovar

Pelo menos nisto o seu novo manager não o enganou. Teria de combater com os melhores. Santa, por nunca ter cometido o “pecado da imodéstia”, nem pensou que o mesmo ia acontecer aos seus adversários. Que coisa bizarra. Quando estava no filme, parecia que era a sério. Agora que era a sério, parecia que estava num filme. Em 1931, Santa Camarão teve uma incrível série de 11 vitórias consecutivas, que o conduziu inevitavelmente aos monstros sagrados do momento, muitos deles lendas da história do boxe. Exatamente como Santa Camarão, sem ter na ilharga os cinturões de campeão da Europa e do Mundo, que se escaparam pelo suor das luvas e pela ausência de escrúpulos dos seus managers, como ele próprio reconheceria nas suas memórias. Podia ter ficado inscrito no Olimpo do pugilismo, quando em 1932 defrontou Primo Carnera — a “montanha andante”, italiano, menino-bonito de Mussolini —, na arena das arenas: Madison Square Garden. O seu empresário bem sabia que ele estava a recuperar de uma batalha, que estava doente a poucos dias do combate, que o seu adversário já tinha morto outro no ringue. Sabia que ele estava debilitado e nada fez. Camarão perdeu ao sexto assalto. Se não fosse o seu casamento com Mary Loreto Oliveira, nascida em Newark, filha de portugueses, tinha sido um ano para esquecer.

Está na alma de um pugilista o instinto de se levantar. Camarão podia ser muita coisa, entre as quais um excelente dançarino, mas não era um desistente. À derrota, seguiram-se vitórias, embora o “gigante de Ovar” começasse a denotar dentro e fora do ringue os efeitos secundários de tanta pancada. Os seus managers enriqueciam. Ele, nem por isso. Entre alguns combates no Rio de Janeiro e a sua carreira nos EUA, surgiu mais um convite para participar no “The Prizefighter and the Lady”, filme da Metro-Goldwyn-Mayer que tinha como protagonista Max Baer, americano, que tinha derrotado Max Schmeling e estava a caminho de conquistar o título mundial a Primo Carnera (o mundo era pequeno), que também era estrela neste filme, junto com Jack Dempsey, campeão do mundo entre 1919 e 1926. Como eles, Santa Camarão nunca teve a fortuna de ostentar um título. Na verdade, os oito mil dólares deste filme foi o maior cachê que alguma vez lhe pagaram.

Cena do filme “Liebe im Ring”, de 1930. Foi a primeira vez que se falou português num filme estrangeiro, pela voz de Santa Camarão

Cena do filme “Liebe im Ring”, de 1930. Foi a primeira vez que se falou português num filme estrangeiro, pela voz de Santa Camarão

Foto Biblioteca Municipal Ovar

Antes de Max Baer defrontar Primo Carnera no quadrilátero da realidade, em 1934, meses antes teve de medir forças com Santa Camarão no Arcadia Pavillion, em Oakland, na Califórnia. Embora tivessem simpatizado sob o signo de Hollywood, no ringue não havia simpatias. Foi uma serenata de 10 assaltos, uma das mais leais e mais violentas da história da modalidade. Ganhou a lei da natureza, a lei da juventude, ganhando em última análise a lei da gravidade. Era possível que estivesse no palco certo, estando na estação errada da sua carreira de pugilista. Se dúvidas havia sobre a alma do grande campeão português, ficaram desfeitas perante um dos maiores pugilistas de todos os tempos. Acordou um quarto de hora depois, quando toda a gente lhe dizia que tinha sido o maior combate da sua vida. Ele disse um dia, quando já estava retirado, que tal combate tinha sido contra King Solomon, um pugilista mais ao menos desconhecido, com queixo e punhos de ferro, que lhe fez sentir pela primeira vez a vertigem de um KO.

A contenda com Max Baer, porém, deixou-lhe muitas marcas. Nessa altura, neurociência era um gancho de direita. Ou de esquerda, consoante o caso. Esse combate pode até não ter sido o mais difícil da sua vida, mas determinou o fim da sua carreira, mais exibição, menos exibição. Prestes a completar 32 anos, Santa Camarão abandonou os EUA, com um sabor amargo de dever cumprido, 42 combates, sete derrotas e uma família. Mary Loreto sempre fez jus ao seu apelido de Santa, mas nunca quis ser Camarão. O lutador com quem tinha casado fez oficialmente o combate de despedida em finais de 1934, tinha então averbados mais de 100 combates oficiais. Desta vez, era contra Claudio Vilar, um espanhol, incapaz de igualar os seus 115 quilos de peso e os 2,02 metros de altura. Santa Camarão passou o resto dos seus dias a tentar perceber como tinha perdido o seu último combate. Tecnicamente, fora um KO. O equivalente ao naufrágio de uma fragata, que se foi perdendo no tempo, tal como ele, que fez o caminho inverso de Lisboa para o berço. A última viagem de Santa Camarão foi para Ovar, onde em 1935 nasceu Renaldo José Santa, o seu único filho. Na verdade, Mary nunca se habituou à herança daquele ringue. Era demasiado moderna, para o seu tempo. Em 1949, tinha o eterno campeão 49 anos, ela partiu para a procedência, com um filho de 14 anos. O lutador, lutou consigo o resto dos seus dias. Renaldo regressou à sua terra em 1966, para viver com o pai duas semanas, que ficaram na sua memória como um último combate.

Santa Camarão morreu a 5 de abril de 1968, em Ovar. Tinha 66 anos. Na mesma casa onde nasceu, morreu exatamente como tinha nascido: um gigante. Ainda hoje há quem diga que ele só foi metade do que podia ter sido.

Ver crítica a “Santa Camarão”, de Xavier Almeida