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Voltaste a fazer das tuas não foi, Tom?

Aos 40 anos, Tom Brady continua a ter cara de galã de Hollywood. Só serve para nos enganar melhor: o quarterback mais famoso da NFL continua um killer e na última noite carimbou a 10.ª presença dos New England Patriots no Superbowl da maneira que mais gosta: com uma reviravolta no derradeira período, pois claro. E esta veio com brinde, já que aconteceu quatro dias depois de ter sofrido um corte profundo na mão direita - a sua mão lançadora - e de ter colocado a hipótese da sua época estar acabada

Lídia Paralta Gomes

Kevin C. Cox/Getty

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O predador é respeitado e temido porque todos os outros animais sabem que ele é o maior da selva. O predador já não é o mais novo, quanto mais o mais rápido, mas continua a ser o mais inteligente. O predador continua a ser o predador porque mesmo em dificuldades, mesmo quando já está cansado, mesmo depois de várias e várias tentativas falhadas de caçar a presa, mesmo quando já está quase a cair, consegue desferir um último ataque, sacando então o antílope mais novinho mas que não teve o cuidado de se proteger.

Isto podia ser um episódio de BBC Vida Selvagem, relatado por Sir David Attenborough, mas é uma metáfora para aquilo que Tom Brady vai fazendo temporada após temporada na NFL.

Em 2000, Brady ouviu 198 nomes no draft antes que o seu fosse chamado, no fim da 6.ª e penúltima ronda. Aos rapazes escolhidos nas últimas rondas do draft da NFL está normalmente traçado um destino de mala na mão, a tentar a sua sorte nas practice squads das equipas da liga, até que se cansam e aceitam um qualquer lugar numa qualquer equipa técnica do high school lá da terrinha.

Só que Tom Brady é um predador. Tem 40 anos, feitos em agosto do ano passado, e 18 anos depois daquela semana de draft, em que foi sucessivamente deixado para trás, está a um passo de se tornar no jogador com mais vitórias na história do Superbowl, dando uma chapada em cheio na cara do destino. E fê-lo à sua maneira: com uma reviravolta no 4.º período, com um renascer na hora da verdade, com o mesmo estoicismo que tornou os anos de Brady nos anos de dinastia dos New England Patriots na NFL - das 10 presenças que a equipa dos arredores de Boston tem no Superbowl, 8 têm o carimbo do quarterback californiano.

No domingo, a menos de 10 minutos de terminar o jogo do título da American Football Conference, o último degrau antes do Superbowl, os Patriots perdiam por 20-10 frente aos Jacksonville Jaguars, que já se viam pela primeira vez na história a discutir o anel da NFL. Estávamos no derradeiro período e, até aí, Tom Brady não tinha conseguido lançar nenhum touchdown. Acontece, até a Tom Brady, por muito raro que seja. É que o ataque não se ligava e a defesa dos Jags marcava o quarterback de forma implacável - Brady passou mais tempo no chão do que o costume, com os brutamontes da linha defensiva dos Jags em cima dele.

Nos três primeiros períodos, Tom Brady não conseguiu lançar nenhum touchdown. A história mudaria nos últimos 10 minutos de jogo

Nos três primeiros períodos, Tom Brady não conseguiu lançar nenhum touchdown. A história mudaria nos últimos 10 minutos de jogo

Barry Chin/Globe Staff/Getty

Só que Tom Brady, além de predador, é um destruidor de sonhos. Estamos a falar provavelmente do maior competidor do futebol americano, do homem com a mentalidade mais forte do jogo - porque só assim se dá a volta ao destino traçado pela 6.ª ronda do draft. E nos últimos 10 minutos, Brady fez tudo o que não tinha conseguido nos outros 50. Em menos de nada lançou dois touchdowns para Danny Amendola, o receiver de recurso depois do homem com as mãozinhas mais magnéticas da equipa, Rob Gronkowski, ter saído lesionado ainda no 2.º período. O resultado virou para 24-20.

Não foi a primeira vez que Tom Brady virou um jogo no 4.º período. Nem a segunda. Foi nada mais, nada menos a 8.ª vez que tal aconteceu - tantas quantas as presenças de Brady no jogo do título. A última das reviravoltas aconteceu no Superbowl do ano passado, jogo no qual os Patriots estiveram a perder por 28-3 frente aos Atlanta Falcons e foram ganhar no prolongamento por 34-28, a maior reviravolta da história da final da NFL.

Os números da cambalhota de domingo, que colocou os Patriots na sua terceira final em quatro anos, final essa que será disputada com os Philadelphia Eagles, foram mais modestos. Mas esta vitória vem com brinde: é que foi conseguida apenas quatro dias depois de um estranho acidente ter colocado Brady na lista dos jogadores em dúvida - e é mesmo muito raro Tom Brady estar em dúvida, apesar dos 40 anos.

No treino da última quarta-feira, enquanto trabalhava uma jogada com o running back Rex Burkhead, Brady rasgou a mão direita, a sua mão lançadora, perto do polegar. As informações sobre a lesão foram tratadas com o habitual secretismo dos Patriots, mas de acordo com a imprensa de Boston, o quarterback foi suturado com 12 pontos. Nas sessões de treino abertas à comunicação social, Brady surgiu sempre de luvas e até ao início de jogo não se sabia se seria titular.

Nem uma lesão feia na mão lançadora impediu mais uma reviravolta made in Tom Brady

Nem uma lesão feia na mão lançadora impediu mais uma reviravolta made in Tom Brady

Matthew J. Lee/Globe Staff/Getty

Mas como qualquer predador, Brady não é homem de desistir. E mesmo com a mão lançadora inchada, enfaixada com uma fita adesiva preta, foi a jogo.

Na conferência de imprensa que se seguiu ao encontro, as perguntas sobre a mão lesionada foram muitas e Brady respondeu quase sempre sem abrir muito o jogo.

“Já tive umas quantas lesões estranhas, mas esta foi sem dúvida a mais estranha. Na quarta-feira ainda não sabia o que podia acontecer, nem na quinta. Na sexta-feira fiquei mais confiante”, revelou aos jornalistas, aos quais assegurou que já teve “lesões bem piores”.

Bill Belichick, treinador dos Patriots e um homem que não é propriamente conhecido pela sua subtileza ou modos galantes, também não perdeu muito tempo com a questão da lesão, tratando-a com a seu sobejamente conhecido sentido prático: “O Tom é um tipo duro. Não estamos propriamente aqui a falar de uma operação de peito aberto.

Mas a verdade é que Brady, o impassível Tom Brady, chegou a temer não conseguiu jogar. “Na quarta-feira olhei para mão e pensei: ‘depois de tudo o que fiz para aqui chegar, esta época não pode acabar por causa de um handoff [jogada em que o quarterback deixa a bola nas mãos de um running back]’”.

Não só não acabou como ainda vai durar mais duas semanas terminando onde terminou três vezes nas últimas quatro épocas, oito vezes nas últimas 18: no Superbowl, dia 4 de fevereiro, no novo estádio dos Vikings, em Minneapolis, frente aos Eagles, uma reedição da final de 2005 que, surpresa, foi ganha pelos Patriots.

É na mais importante cidade do Minnesota que Brady vai tentar reforçar o estatuto de imortal, de GOAT, como gostam de dizer os norte-americanos - e não estamos aqui a falar de gado caprino mas sim da sigla para The Greatest of All Time, o melhor de todos os tempos, portanto, aquela sigla que está reservada para gente como Michael Jordan ou Tiger Woods.

É que os números, neste caso, não mentem. Tom Brady vai jogar a 8.ª final da carreira e caso ganhe o 6.º anel de campeão, isola-se na lista de jogadores com mais vitórias no Superbowl. E ainda ninguém o ouviu falar de reforma.