Tribuna Expresso

Perfil

Modalidades

Super Bowl LII: Underdogs danados contra Tom Brady

Este domingo, a partir das 23h30 (na Sport TV1), os New England Patriots são favoritos à vitória na final da NFL. Se tal acontecer será o 6.º título da equipa do Massachusetts e do seu quarterback, o quarentão Brady. Mas do outro lado estão uns Philadelphia Eagles que chegam ao Super Bowl após uma temporada atribulada e em que derrotaram todas as probabilidades. Tudo isto também graças a umas máscaras muito particulares

Lídia Paralta Gomes

Não, de repente os poodles e os pastores alemães não desataram a jogar futebol americano. Debaixo destas máscaras assustadoramente realísticas estão Beau Allen e Chris Long, jogadores dos Philadelphia Eagles, que este domingo vão disputar o Super Bowl com os New England Patriots

Patrick Smith/Getty

Partilhar

O que é que a Creepy Party, empresa de máscaras hiper-realistas fundada por dois amigos perto da cidade de Dongguan, no sul da China, tem que ver com o Super Bowl LII, que se joga no domingo em Minneapolis e que vai colocar frente a frente os New England Patriots e os Philadelphia Eagles?

Jason Lee também não sabia até àquela manhã de 14 de janeiro.

Nessa manhã de domingo, Jason, um dos sócios da Creepy Party, acordou e como habitualmente abriu o computador para dar uma vista de olhos nas vendas online dessa noite. Num mundo ligado por cabos de fibra ótica e com tantos fusos horários, as vendas da Creepy Party fazem-se a qualquer hora. E abriu a boca de espanto. Numa boa noite, o normal seria vender cerca de 10 máscaras de Pastor Alemão (esta aqui). Naquela noite, Jason tinha vendido 230 máscaras, todas as que tinha em stock.

Enquanto Jason dormia, do outro lado do Mundo os Philadelphia Eagles haviam batido os Atlanta Falcons na ronda divisional dos playoffs da NFL. Foi uma surpresa: as casas de apostas de Las Vegas colocavam os Falcons, finalistas na última temporada, como favoritos. Ninguém dava nada pelos Eagles, mas os Eagles venceram por 15-10. E na hora de festejar, Lane Johnson e Chris Long, dois dos grandalhões da equipa, tão grandes cujo o objetivo deles nem sequer é jogar a oval, é mesmo não deixar passar ninguém, sacaram de duas máscaras de Pastor Alemão, assustadoramente realistas, compradas uns dias antes através da Amazon, e assim se passearam pelo Lincoln Financial Field, de Filadélfia.

Conta a “Sports Illustrated” que treze minutos após o final do Eagles-Falcons, a Creepy Party recebeu a primeira encomenda. Duas horas depois, já não havia máscaras de Pastor Alemão.

Uma brincadeira muito séria

Mas porque raio dois rapagões de 140 quilos haveriam de festejar uma vitória com máscaras de Pastor Alemão, uma imagem que rapidamente começou a correr as redes sociais porque, lá está, são dois rapagões de 140 quilos a usar uma máscara de Pastor Alemão?

Porque aquela máscara não era apenas uma máscara: era uma mensagem para todos aqueles que deixaram de acreditar nos Philadelphia Eagles no momento em que a equipa perdeu o seu líder, o quarterback Carson Wentz, ainda antes do início dos playoffs.

Os Eagles estão pela terceira vez no Super Bowl, numa caminhada improvável nos playoffs, depois de perderem o seu jogador mais influente

Os Eagles estão pela terceira vez no Super Bowl, numa caminhada improvável nos playoffs, depois de perderem o seu jogador mais influente

Al Bello/Getty

Nessa jornada 14, frente aos Los Angeles Rams, Carson Wentz alimentou os seus receivers de passes para touchdown e quando o jogo começou a complicar tentou ele próprio chegar à endzone. Conseguiu, mas na queda rebentou um joelho. Os Eagles, que até ali gozavam do estatuto de equipa-sensação da temporada, garantiram a vitória na divisão NFC Este e a presença nos playoffs, mas Wentz terminou ali a época, com uma grave rotura nos ligamentos.

A caminhada tinha sido tão boa até ali que os Eagles acabaram mesmo por ser a melhor equipa da conferência NFC, garantindo desde logo a vantagem de jogar em casa nos playoffs. Mas apesar do estatuto, toda a gente deixou de olhar para a equipa de Filadélfia como uma séria candidata à presença no Super Bowl. Até porque havia outras peças fundamentais que já haviam caído por lesão ao longo da época e porque os Eagles teriam de recorrer ao quarterback suplente, Nick Foles, ele que em tempos até já tinha sido o quarterback titular dos Eagles, mas que acabou por ser trocado em 2015, somando más experiências em outras equipas até voltar à casa de partida para ser o número 2 de um quarterback mais novo.

Por tudo isto, quando as casas de apostas lançaram as odds para o primeiro jogo dos playoffs, os Falcons eram mais favoritos. Na cabeça de muito boa gente, os Eagles seriam carne para canhão, os underdogs, essa expressão anglo saxónica que literalmente significa o “cão que está por baixo” e que no desporto se cola àquelas equipas que têm menos hipóteses num embate.

Só que os jogadores dos Eagles não queriam ser os underdogs. Queriam ser os dogs.

Nick Foles, quarterback n.º 2 que até já foi quarterback n.º 1, foi chamado ao serviço depois da lesão grave de Carson Wentz, o rapaz que aparece ali atrás de canadianas

Nick Foles, quarterback n.º 2 que até já foi quarterback n.º 1, foi chamado ao serviço depois da lesão grave de Carson Wentz, o rapaz que aparece ali atrás de canadianas

Mitchell Leff/Getty

Foi por isso que Lane Johnson, um dos tais rapagões de 140 quilos, resolveu meter as mãos à obra. Irritado com os artigos que lia diariamente, com a falta de confiança reinante quando se falava dos Eagles, com o carimbo de underdogs, o offensive tackle foi à Amazon e comprou as mais realísticas máscaras de cão que encontrou - precisamente as da Creepy Party. As máscaras chegaram da China ainda a tempo do jogo.

“É para estas coisas que se paga Amazon Prime: envio grátis em dois dias”, escreveu o tight end Zach Ertz no “The Players’ Tribune”, num texto chamado “We the Dogs” em que explicou toda a história por trás das máscaras de Pastor Alemão. No texto, Ertz conta como Lane Johnson irrompeu num jantar da equipa, na véspera do jogo com os Atlanta Falcons e disse “Yeah, nós vamos ganhar, digo-vos, nós vamos ganhar isto, e depois vamos fazer tudo com as máscaras metidas: media, entrevistas pós-jogo. Tudo. Como cães!”.

No dia seguinte, os Falcons morreram na última jogada do encontro, não conseguindo passar pela agressiva defesa dos Eagles. Ou pelo braço firme do suplente Nick Foles, que lançou para 246 jardas nesse jogo. Chris Long apareceu na televisão nacional a dar uma entrevista com uma máscara de Pastor Alemão enfiada na cabeça.

A equipa de Philadelphia seguiu para a final de conferência, com os Minnesota Vikings, e mais uma vez as casas de apostas colocaram os Eagles como underdogs. Durante essa semana, Jason Lee enviou mais 300 máscaras de Pastor Alemão para os Estados Unidos e rapidamente ficou de novo sem stock. Sem Pastores Alemães, os adeptos dos Eagles começaram a comprar máscaras de cães de outras raças (afinal, um dog é um dog): Huskys, Basset Hounds, até de Caniches e Poodles, que também acabariam por esgotar.

Com a Creepy Party já com os armazéns vazios, as gentes de Filadélfia começaram a procurar máscaras de autenticidade menos admirável em qualquer loja da cidade e no dia em que os Eagles receberam os Vikings as bancadas do Lincoln Financial Field estavam cheias de mascarados de cães das mais diversas cores e raças - as regras de segurança do estádio, que não permitem a presença de adeptos com a cara tapada, tiveram mesmo de ser suavizadas.

Os adeptos dos Eagles seguiram os jogadores e encheram as bancadas do Lincoln Financial Field de Filadéfia de máscaras de cães

Os adeptos dos Eagles seguiram os jogadores e encheram as bancadas do Lincoln Financial Field de Filadéfia de máscaras de cães

Icon Sportswire/Getty

E tal como frente aos Falcons, os Eagles começaram o jogo como underdogs e acabaram a ganhar, e desta vez de forma bem convincente, por 38-7, garantindo o título da NFC e a terceira presença no Super Bowl.

Na final vão encontrar a mesma equipa conta a qual jogaram (e perderam) na última vez que estiveram a discutir o título da NFL, em 2005, os New England Patriots.

Agora, adivinhem: frente aos New England Patriots, os Eagles partem como, lá está, underdogs. Mas uns underdogs danados que vão atrás do homem de todos os recordes, Tom Brady.

Como Brady não há nenhum

Com mais ou menos discussão, conforme os gostos, há nomes no desporto que são intocáveis. Michael Jordan, Tiger Woods, Usain Bolt ou Roger Federer, só para dar alguns exemplos, são daqueles a quem já nos habituamos a chamar de GOATs, o acrónimo em inglês para The Greatest of All Time, o melhor de sempre, portanto, nos seus respetivos desportos.

E se há um GOAT no futebol americano, ele dá pelo nome de Tom Brady.

Aos 40 anos, o quarterback dos New England Patriots vai tentar um 6.º título da NFL, um feito que nenhum outro jogador conseguiu, ainda para mais na mesma equipa. É a 8.ª vez que Brady leva os Patriots à final da NFL. Na última delas, no ano passado, liderou a maior reviravolta da história do Super Bowl: os Patriots chegaram a estar a perder por 28-3 e ganharam no prolongamento por 34-28.

Os Patriots que são aquela equipa que já não surpreende ninguém: nos últimos quatro anos têm três finais e mesmo quando não estão na melhor forma são sempre favoritos ao título.

Para chegar a mais uma final, a 10.ª do palmarés dos Patriots, Tom Brady voltou a fazer das suas: a 10 minutos do fim do 4.º e último período, a equipa do Massachusetts perdia por 20-10, mas acabou por vencer por 24-20, graças a dois touchdowns do veterano quarterback, que ainda por cima jogou com a mão direita enfaixada, depois de sofrer um corte profundo durante um treino, que lhe valeu 12 pontos perto do polegar.

Tom Brady pode chegar ao 6.º título no Super Bowl, feito inédito na história da NFL

Tom Brady pode chegar ao 6.º título no Super Bowl, feito inédito na história da NFL

Adam Glanzman/Getty

Mas nem as lesões parecem preocupar o quarentão Brady, que em conferência de imprensa a meio da semana aborreceu-se com os repórteres que, disse, estão mais preocupados com a sua reforma que ele próprio. “A única coisa que me preocupa mesmo é o Super Bowl”, respondeu. E as últimas notícias até são boas para os Patriots, que poderão contar com o tight end Rob Gronkowski este domingo, ele que é provavelmente o alvo preferido de Brady.

Se ganhar, Brady aumenta a lenda, cria uma dinastia, tornar-se-á definitivamente intocável. Mas do outro lado há cães esfomeados, uns Eagles que valem pelo coletivo e que querem escrever uma das mais improváveis estórias da história do Super Bowl: aquela de como uma equipa órfã do seu líder e com um quarterback de recurso tombou os gigantes Patriots, uma das equipas mais tituladas da liga.

Ah, e para aqueles que não ligam muito aos downs, às jardas, aos handoffs, aos field goals e aos touchdowns, o hino norte-americano será cantado por Pink e o espectáculo do intervalo terá como protagonista Justin Timberlake. Em Portugal a transmissão começa às 23h30 de Lisboa, na Sport TV1.

Já pensou que desculpa vai dar no emprego na segunda-feira de manhã?