Tribuna Expresso

Perfil

Modalidades

De abandonar o futebol por Deus até MVP do Super Bowl: isto foi a vida de Nick Foles no último ano e meio

Há 18 meses, Nick Foles nem sabia se ia continuar a jogar. Há dois meses nem sequer era titular dos Eagles. No domingo, levou a equipa de Filadélfia à vitória no jogo decisivo da NFL, frente aos mais que favoritos New England Patriots, de Tom Brady. A vida do quarterback texano, que deu o primeiro Super Bowl aos Eagles, dava um filme

Lídia Paralta Gomes

Kevin C. Cox/Getty

Partilhar

No verão de 2016, depois de ser cortado pelos St. Louis Rams, Nick Foles tinha uma decisão a tomar. Ele, que já tinha sido um dos mais promissores jovens quarterbacks da NFL, estava agora, aos 27 anos, sem equipa, no pior momento da carreira. Valeria a pena continuar?

Foles resolveu tirar uns dias para pensar. Foi acampar e pescar durante uns dias com o cunhado Ryan. E falou de tudo o que lhe passava pela cabeça com a mulher, Tori. Por fim, rezou, rezou muito - afinal, o jovem texano tinha de decidir entre dar mais uma oportunidade ao futebol ou tornar-se pastor batista.

E isso é uma decisão e tanto.

“Rezei e pedi a Deus que me guiasse. Não estava seguro de nenhum dos caminhos, confiei na minha fé”, disse o quarterback à imprensa antes do jogo mais importante da sua vida, a final do Super Bowl LII, que se jogou no domingo em Minneapolis. E a fé não lhe disse para se entregar a Deus, mas sim para tentar mais uma vez.

Nick Foles deixou de lado a ideia de abandonar o futebol. E hoje é campeão da NFL.

A história de Nick Foles, do Nick Foles vencedor do Super Bowl, é uma história de improbabilidades. Há ano e meio ninguém esperaria que Foles voltasse a jogar. Há seis meses, Nick Foles não estaria a contar voltar a ser titular numa equipa da NFL. Há poucas semanas ninguém pensaria que os Philadelphia Eagles passariam sequer uma ronda dos playoffs. E há 48 horas só alguns maluquinhos apostariam nos Eagles para bater os todo-poderosos New England Patriots no Super Bowl.

Mas tudo isto aconteceu em 18 meses. E por terem ultrapassado todas as improbabilidades, os adeptos dos Eagles, que no domingo viram a equipa de Filadélfia conquistar pela primeira vez na história o título do Super Bowl, resolveram desafiar outras improbabilidades. Como as de não morrer quando se se atira de costas de um toldo do Hotel Ritz-Carlton, por exemplo. Porque na noite de domingo, todos os Eagles foram invencíveis. Talvez Nick Foles tenha sido o mais invencível de todos. Porque os seus últimos meses davam um filme.

Porque ele já esteve no alto, tombou e quase saiu de cena, para voltar ao topo, numa história que começou precisamente em Filadélfia, mas que teria de passar por outras localizações para voltar à casa de partida, essa casa que é, agora, uma casa de felicidade.

Nick Foles a lançar uma bola numa final da NFL: uma história de improbabilidades

Nick Foles a lançar uma bola numa final da NFL: uma história de improbabilidades

Icon Sportswire/Getty

Foram precisamente os Philadelphia Eagles que escolheram Foles no draft de 2012, no lugar 88, já na terceira ronda. Apesar de não chegar à NFL com o carimbo de futura estrela, não teve de esperar muito pela titularidade, depois de Michael Vick, então quarterback titular dos Eagles, se lesionar. Quando Vick recuperou, já Foles tinha agarrado o lugar em definitivo.

Depois de uma primeira época de adaptação à liga, a 2.ª temporada colocou-o entre os melhores, apesar da juventude e de apenas ter começado a jogar à 4.ª jornada. Somou 27 touchdowns e apenas duas interceções, foi escolhido para o Pro Bowl e ainda levou os Eagles aos playoffs, pela primeira vez em três anos.

Parecia o início de uma bela carreira, mas a partir daí veio o descalabro. Na época seguinte, tornou-se numa quarterback pouco fiável: em oito jogos fez quase tantas interceções (10) quanto touchdowns (13), até partir uma clavícula a meio da época. No final da temporada, os Eagles desistiram dele e resolveram enviá-lo para os St. Louis Rams.

Em St. Louis, Foles esperava começar de novo, mas nada correu bem: em novembro já tinha sido relegado para o banco. No final da época, os Rams escolherem o jovem quarterback Jared Goff como n.º 1 do draft. Foles percebeu aí que já não era aposta da equipa e as duas partes acordaram rescindir o contrato.

E então vieram as dúvidas, a viagem com o cunhado, os conselhos da mulher. A hipótese de abraçar definitivamente a vida religiosa, ele que sempre foi um cristão devoto.

“Naquela altura, o meu coração dizia-me para deixar de jogar, mas eu sabia que precisava de alguns dias até as emoções acalmarem. Nem tinha que ver com o facto de na altura não ser titular, era apenas o que o meu coração me dizia”. E durante meses o coração dizia-lhe para nem sequer pegar numa bola.

A fé disse-lhe para continuar, mas Foles impôs as suas próprias condições. Na verdade, foi apenas uma: só jogaria com o seu primeiro treinador na NFL, Andy Reid, o homem que o escolheu no draft de 2012. Reid, então nos Kansas City Chiefs, só tinha o lugar de quarterback suplente para lhe oferecer, Foles aceitou.

Nick Foles tornou-se no primeiro quarterback a lançar e a receber um touchdown num Super Bowl

Nick Foles tornou-se no primeiro quarterback a lançar e a receber um touchdown num Super Bowl

Icon Sportswire/Getty

Estar num papel secundário era algo a que Nick Foles já não estava habituado, mas cumpriu o seu dever com a maior humildade nos Chiefs. Sempre que foi chamado, não comprometeu e no final da temporada os Eagles acenaram com um contrato de dois anos. E mesmo sabendo que a sua antiga equipa tinha agora uma nova cara de futuro para o seu lugar, Foles voltou a aceitar o papel de suplente.

De novo em Filadélfia

Ao longo desta temporada, Nick Foles assistiu no banco ao imparável crescimento de Carson Wentz, quarterback de segundo ano, com ‘estrela’ escrito em todos os lados do corpo. Corpo esse que acabou por ceder ao 14.º jogo da época regular, em que Wentz levou a equipa aos playoffs mas, no processo, lesionou-se gravemente num joelho.

E Nick Foles, sem contar, tornou-se de novo o quarterback titular dos Eagles.

Eagles esses que, até à lesão de Wentz, eram considerados sérios candidatos à presença no Super Bowl. Depois da lesão, foram colocados de parte pelos especialistas. Só que nos playoffs os Eagles venceram com surpresa a ronda divisional, frente aos Falcons, e depois a final de conferência, frente aos Vikings. Em ambos os jogos foram considerados underdogs pelas casas de apostas, o que deu origem a um original protesto com máscaras de Pastor Alemão do qual falámos aqui.

Frente aos Falcons e Vikings, Foles voltou a ser o Foles de 2013. Fiável, seguro no passe longo. Não lançou nenhuma interceção, falhou muito pouco e viu a defesa fazer o resto. E contra todas as expectativas, os Eagles estavam no Super Bowl, onde, mais uma vez, não seriam favoritos.

Porque normalmente não se dá o favoritismo a uma equipa que joga com um quarterback suplente, ainda para mais um quarterback com apenas cinco jogos nas pernas. E mais ainda quando do outro lado está Tom Brady e os New England Patriots, campeões em título, à procura do 6.º título no Super Bowl.

Só que mais uma vez os underdogs foram cães danados. Porque os Eagles nada tinham a perder. Foles fez uso da sua maior qualidade, o passe longo, e lançou para 373 jardas, somando três touchdowns. Os Eagles venceram os Patriots por 41-33, num jogo em que os ataques estiveram on fire e em que foi batido o total de jardas percorridas.

Milhares de pessoas saíram à rua em Filadélfia, depois dos Eagles derrotarem os Patriots por 41-33

Milhares de pessoas saíram à rua em Filadélfia, depois dos Eagles derrotarem os Patriots por 41-33

Corey Perrine/Getty

No final, Foles falou desse sentimento absolutamente libertador que é não ter pressão. “O que me ajudou mais foi saber que não tinha de ser o Super Homem. Tenho colegas de equipa e uma equipa técnica fantástica à minha volta e tudo o que tenho de fazer aqui é jogar com intensidade, jogar para eles, para estes rapazes, sem olhar para o resultado”, disse o homem que, além de dar aos Eagles o seu primeiro título do Super Bowl, à terceira tentativa, e de ter arrecadado o prémio de MVP da final, ainda fez história pelo caminho, ao tornar-se no primeiro quarterback a passar e a receber um touchdown num Super Bowl.

Foi nesta jogada aqui em baixo que Foles se tornou num recetor, num momento de coragem da equipa técnica liderada por Doug Pederson, que decidiu avançar para um trick play (literalmente, uma jogada com truque) num fourth down, a poucos segundos do intervalo, quando, nestas situações, o mais avisado é mesmo tentar os três pontos do field goal.

Mas, lá está, os Eagles não tinham nada a perder e ganharam muito quando decidiram arriscar. E quando Tom Brady, que tinha sido o último quarterback a vencer um Super Bowl depois de começar a época como suplente, em 2001, desperdiçou a última oportunidade para virar o resultado, Lane Johnson, o rapaz que teve a ideia das máscaras de Pastor Alemão, tinha a cara a descoberto. E os olhos cheios de água.

Pastor? Fica para mais tarde

Nick Foles, o herói improvável, está agora numa posição, digamos, curiosa. Apesar de ter liderado as tropas de Filadélfia até ao título do Super Bowl, sabe que nem isso lhe trará de volta o estatuto de quarterback titular dos Eagles. Quando Carson Wentz recuperar, o lugar será dele.

Mas depois daquilo que aconteceu em Minneapolis na noite de domingo não faltarão equipas e malas de dinheiro à procura dos seus serviços enquanto signal caller. É altamente improvável que a história de Foles comece e acabe em Filadélfia.

Aos 29 anos, começa agora uma nova fase na carreira do quarterback que, naturalmente, diz estar “muito agradecido pela decisão de voltar a jogar”. A vida religiosa, essa, terá de esperar. Sim, esperar, porque a vontade de se tornar pastor não morreu. Aliás, Foles diz que seria tão ou mais feliz se tivesse decidido deixar de jogar em 2016. “Dou graças por esta oportunidade de continuar a jogar futebol, mas se tivesse tomado outra decisão não teria sido uma derrota. Eu teria feito algo e glorificado Deus”.

Foles está inscrito num curso online de religião na Universidade de Liberty e no futuro quer trabalhar como pastor em escolas, onde poderá ajudar crianças com as suas experiências. Que nestes últimos 18 meses foram mais que muitas.