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Ciclismo acusa Marcelo de só ter olhos para futebol e futsal: “Corrida ao aeroporto não é critério de medalhas”

Associação de Ciclismo do Minho acusa Marcelo Rebelo de Sousa de discriminar positivamente o futebol em relação às restantes modalidades. Federação subscreve missiva enviada à Presidência da República e lamenta, em declarações ao Expresso, falta de equidade no tratamento dos atletas e selecionadores campeões europeus e mundiais que não atraem centenas de pessoas ao aeroporto, como o futsal

Isabel Paulo

Tiago Ferreira competiu nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016

Ryan Pierse/Getty

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José Luís Ribeiro, presidente da Associação de Ciclismo do Minho, não se conforma com “o tratamento de discriminação de Marcelo Rebelo de Sousa”, afirmando que o presidente da República “não trata com equidade todas as modalidades e os feitos desportivos dos portugueses”. Esta é a segunda vez que José Luís Ribeiro escreve a Marcelo Rebelo de Sousa, questionando se o Presidente da República “vai persistir no tratamento diferenciado das modalidades desportivas”.

O dirigente não retira valor aos campeões europeus de Futsal, recebidos domingo em Belém e que irão ser agraciados com as insígnias de Ordem do Mérito, mas queixa-se de falta de critérios na atribuição de louvores aos atletas nacionais, selecionadores e dirigentes de outras modalidades “menos populares”.

“Não está minimamente em causa o mérito desportivo da Seleção Nacional de Futsal. O que está em causa é o tratamento diferenciado das seleções, atletas e agentes desportivos de outras modalidades que são menosprezados e ignorados. Onde está o mesmo tipo de reconhecimento por parte da Presidência da República para com os Campeões da Europa e Campeões do Mundo de outras modalidades ? É fundamental que o senhor Presidente da República saiba que há desporto para além do futebol e do futsal”, argumenta José Luís Ribeiro, em comunicado.

Ao Expresso, José Luís Ribeiro sustenta que Marcelo Rebelo de Sousa vive com “os olhos postos no futebol e no que é mediático”, distribuindo louros sem critério. O dirigente lembra a propósito que o futsal nem é modalidade olímpica, ao contrário do ciclismo.

“Não existem portugueses de primeira e portugueses de segunda, incumbindo inclusive ao Senhor Presidente da República defender, cumprir e fazer cumprir a Constituição da República Portuguesa”, refere o dirigente desportivo, exemplificando que “o ciclista português Tiago Ferreira (campeão da Europa de BTT Maratonas em 2017 e campeão do Mundo de BTT Maratonas em 2016), entre outros, não foi recebido pelo Presidente da República nem agraciado com qualquer distinção, apesar do mérito das conquistas desportivas e da grande qualidade e muito trabalho para os alcançar”.

O responsável da associação minhota sustenta que “a atitude discriminatória não é um exclusivo do senhor Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, tendo sido também uma prática do seu antecessor”, que também foi oportunamente interpelado por atitudes de desigualdade..

“Em 2015, escassos quatro meses depois de ter vencido o Campeonato do Mundo de Futebol de Praia, o Senhor Presidente da República condecorou atletas, técnicos e dirigentes da Seleção Nacional de futebol de praia e o próprio Presidente da Federação Portuguesa de Futebol. O ciclista português Rui Costa venceu no dia 29 de setembro 2013 o Campeonato do Mundo de Ciclismo de Estrada mas - depois de muitas pressões nesse sentido – só vinte meses depois é que foi distinguido”, recorda José Luís Ribeiro na carta endereçada a Belém.

“Triste com o atestado de menoridade e desincentivo” às modalidades ditas amadoras, o líder da Associação de Ciclismo do Minho lembra que foram ignorados os atletas Tiago Machado e André Cardoso, o selecionador nacional, José Poeira, técnicos e dirigentes da Seleção Nacional de ciclismo e o próprio Presidente da Federação Portuguesa de Ciclismo, Delmino Pereira, que contribuíram para a conquista do Campeonato do Mundo pelo português Rui Costa.

Na esperança que “o Senhor Presidente da República coloque um ponto final na discriminação do ciclismo e de outras modalidades”, alertou também para a necessidade de ser valorizado e reconhecido o trabalho dos dirigentes desportivos voluntários que dedicam grande parte do meu tempo e de meios à promoção da prática desportiva, à ocupação dos tempos livres e à criação de oportunidades aos mais jovens e que - enquanto alicerce e motor do desporto nacional – contribuem também para a obtenção de títulos e a conquista de medalhas desportivas nacionais e internacionais.

Federação assina por baixo

Apesar de salientar não ser a autora da dura missiva, Delmino Pereira subscreve as críticas do dirigente do Minho. Sem beliscar os méritos da seleção de futesal, lembra que são dezenas os atletas que sobem ao pódio em diferentes modalidades, do judo ao triatlo, e que são esquecidos.

“É injusto que a popularidade seja o único critério”, afirma ao Expresso o presidente da Federação Portuguesa de Ciclismo, que defende uma uniformização de critérios e de afetos para além do “número que portugueses que vão a correr à chegada das seleções ao aeroporto”.

Delmino Pereira sublinha que nas modalidades que as conquistas e as medalhas são ainda mais difíceis, “dado debaterem-se com mais falta de meios e menos apoios” do que o desporto-rei. “Em 2016, no verão em que Portugal foi campeão da Europa de futebol, Jéssica Augusto, mulher do guarda-redes, teve de colocar o braço no ar a dizer que também gostaria de ser comendadora”, lembra Delmino Pereira, numa alusãoi ao fato de os campeões e medalhados do Europeu de Atletismo, em Amesterdão, só terem sido “recebidos e medalhados pelo presidente após protestos da Federação de Atletismo.