Tribuna Expresso

Perfil

Modalidades

O bronze, a desilusão, as cinzas do avô, Trump: a crónica da despedida olímpica de Lindsey Vonn

Aos 33 anos, a mais mediática esquiadora do Planeta fechou a sua carreira olímpica em PyeongChang. Leva na mala uma medalha de bronze, mas também um certo travo agridoce de alguém que não conseguiu replicar por completo em Jogos Olímpicos uma carreira de sucesso. Na Coreia do Sul teve ainda de lidar com a memória do avô e com as críticas dos apoiantes do presidente norte-americano

Lídia Paralta Gomes

Ezra Shaw/Getty

Partilhar

“Grata por representar o meu país pela última vez nuns Jogos Olímpicos. Tem sido uma viagem fantástica e não podia estar mais feliz e orgulhosa”

Esta é a primeira parte da legenda de uma das últimas fotos de Lindsey Vonn no Instagram. Foi postada na quinta-feira e significa adeus. Aos 33 anos, a norte-americana, talvez a única estrela de nível planetário dos desportos de inverno, anunciou que o combinado, disputado nesse mesmo dia, tinha sido a sua última prova olímpica.

Um adeus agridoce. O combinado, prova que junta duas disciplinas do esqui alpino, o downhill e o slalom, era a última oportunidade para Vonn juntar mais uma medalha ao seu pecúlio olímpico, que por esta ou outra razão, nunca igualou um currículo onde estão, por exemplo, três títulos overall seguidos da Taça do Mundo (2008, 2009 e 2010) e um recorde de vitórias em provas da Taça do Mundo (81).

Acontece que depois de ser primeira, com diferença, no downhill, a norte-americana falhou uma porta no slalom e foi automaticamente desclassificada. Não era seguramente a despedida que queria, mas para a história destes Jogos, os seus quartos Jogos Olímpicos de Inverno, ela que se estreou em Salt Lake City’2002, com apenas 17 anos, fica mais uma medalha, a sua terceira medalha olímpica.

Depois de descer pela última vez a pista do Centro Alpino de Youngpyong, onde decorreram as provas técnicas do esqui alpino dos Jogos Olímpicos de PyeongChang, Vonn emocionou-se, mas sem lágrimas. Essas, disse a própria, foram todas gastas na véspera, dia em que foi bronze no downhill.

“Na quarta-feira não conseguia parar de chorar. E isso tem uma razão: eu trabalhei muito duro para conseguir aquele bronze. Para alguns pode parecer dececionante, mas para mim é maravilhoso”, disse após o desaire no combinado. Aparentemente feliz, Vonn rodeou-se de família e amigos e preferiu sorrir a chorar no seu adeus olímpico. “Provavelmente vou chorar mais tarde, mas neste momento o meu coração está a explodir”.

Vonn emocionada na hora de receber a sua última medalha olímpica: o bronze no downhill

Vonn emocionada na hora de receber a sua última medalha olímpica: o bronze no downhill

JAVIER SORIANO/Getty

Os corações explodem quando têm muitas emoções lá dentro. E Vonn tinha. Porque em PyeongChang, apesar de ter conseguido uma medalha, um bronze que a tornou na mais velha medalhista olímpica em provas de esqui alpino, a norte-americana não terá acertado todas as contas com os Jogos Olímpicos onde, noves fora, terá tido mais tristezas que alegrias.

Depois da estreia, em casa, aos 17 anos, em Turim’2006 não conseguiu aproximar-se do pódio: o melhor que conseguiu foi um 7.º lugar no Super G. Nos treinos para o downhill, a sua prova de eleição, sofreu uma queda grave. Foi evacuada de helicóptero para o hospital e ainda passou uma noite internada. Dois dias depois, ainda dorida, apresentou-se para a final - terminou em 8.º.

Quatro anos depois, em Vancouver, Vonn vivia os seus anos dourados: para lá do que ganhava a deslizar na neve, amealhava uma fortuna em contratos publicitários. A sua vida pessoal era escalpelizada nas revistas. A sua legião de fãs ultrapassava largamente os especialistas em desportos de inverno. No Canadá, Vonn vingou o acidente de Turim, ao conquistar o ouro no downhill. Foi ainda 3.ª no Super G. Mas nas provas técnicas, slalom, slalom gigante e combinado, desistiu. O que podia ter sido uma participação retumbante foi apenas muito boa.

Depois de falhar Sochi, em 2014, devido a uma grave lesão no joelho direito, este era o ano do regresso e da despedida para a esquiadora nascida no Minnesota, ainda que o adeus só tenha sido confirmado após a derradeira prova olímpica. Vontade de voltar a uns Jogos não lhe falta, mas Vonn tem noção do quão inclemente pode ser a passagem do tempo: “O meu corpo não aguenta mais quatro anos”. Assim é.

Amores, ódios e homenagens

Falávamos em cima de corações de explodem e de emoções fortes. E em PyeongChang elas não aconteceram apenas na pista de neve para Vonn.

Mas para termos a big picture, é preciso voltar atrás.

Em dezembro, numa entrevista para a CNN, Vonn, cuja história olímpica havia já percorrido dois presidentes (George W. Bush e Barack Obama), foi questionada sobre o significado de representar uns Estados Unidos liderados por Donald Trump em PyeongChang. “Bem, eu espero representar o povo dos Estados Unidos e não o presidente… Os Jogos Olímpicos são uma coisa muito séria para mim, aquilo que significam e representam. Aquilo que significa estar numa cerimónia de abertura perante a nossa bandeira. Quero representar bem o nosso país. E não acho que haja muitas pessoas no nosso governo atual que o façam”, disse, antes de lhe perguntarem se visitaria a Casa Branca com outros atletas enquanto Trump fosse presidente.

“Não, absolutamente. Não”. Ouch!

Escusado será dizer que estas palavras valeram à esquiadora um chorrilho de críticas por parte de apoiantes de Trump e da comunicação social ligada à alt-right norte-americana. Recebeu ameaças, houve quem desejasse que caísse e “partisse o pescoço” e quem relacionasse uma pequena lesão que contraiu entre dos Jogos com um “castigo de Deus” pelas críticas ao presidente dos Estados Unidos.

Lindsey Vonn vai agora em busca de novo recorde: o de vitórias em Taças do Mundo

Lindsey Vonn vai agora em busca de novo recorde: o de vitórias em Taças do Mundo

Ezra Shaw/Getty

Em PyeongChang, quando as coisas correram menos bem, voltaram as críticas, os tweets de satisfação pelos infortúnios de Vonn, que falhou por pouco o pódio no Super G, em que foi 6.ª. “Eu mantenho-me fiel aos meus princípios e valores e não vou abdicar disso”, sublinhou já durante os Jogos. Aos tweets de ódio, a atriz Reese Witherspoon, Arnold Schwarzenegger e a antiga tenista Billie Jean King responderam com palavras de defesa e apoio à esquiadora.

Para lá das polémicas nas redes sociais, competir na Coreia do Sul foi especial para a atleta de 33 anos pela ligação familiar dos Kildow (nome de solteira de Vonn, que se divorciou em 2013 do também esquiador Thomas Vonn) ao país. Vonn dedicou a sua última participação olímpica a Don Kildow, seu avô paterno, falecido em novembro e que lutou na Guerra da Coreia, país que lhe deixou boas memórias.

No final da prova de downhill, após garantir a medalha de bronze, as suas lágrimas também eram para Don: “A nossa família nunca desiste e eu nunca desisto. Estou muito orgulhosa desta medalha e eu sei que o meu avô também está”.

Vonn contou mais tarde que quando a organização dos Jogos de 2018 foi entregue a PyeongChang, o avô ficou radiante. “Nunca tinha falado muito da guerra, mas contou-me então muitas histórias e eu percebi que o país tinha tido muito impacto na sua vida”. Don não viveu para ver a neta a competir em PyeongChang mas esta encontrou uma forma de o homenagear, espalhando algumas das suas cinzas numa montanha perto do local onde decorreram as provas de esqui alpino. “Sei que ele ficaria feliz por voltar cá um dia, porque uma parte dele ficou para sempre na Coreia do Sul”.

A história olímpica de Lindsey Vonn ficará também para sempre ligada à Coreia do Sul. Mas a sua história no esqui alpino não acaba por aqui. Este texto começou com a primeira parte da legenda de uma das últimas fotos publicadas por Vonn no Instagram. A segunda parte fala-nos do que se segue para a esquiadora, agora que o capítulo “Jogos Olímpicos” está definitivamente fechado.

“Agora está na hora de bater mais um recorde antes de fechar a minha carreira: ultrapassar Ingemar Stenmark no topo dos maiores vencedores de sempre de provas da Taça do Mundo. Ele tem 86, eu tenho 81. Vou continuar a lutar por este último sonho”, escreveu.

E ela acredita que não vai demorar muito.