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Michael Phelps e a luta contra a depressão: “Chegou a um ponto em que não queria estar vivo”

Ele foi o maior dentro de água mas fora dela, no final de cada competição, lutava contra os seus demónios interiores. Numa entrevista à CBS em que voltou a assumir que chegou a pensar no suicídio após os Jogos de Londres, Michael Phelps afastou ainda o cenário de regresso às piscinas e não se mostrou particularmente entusiasmado com a possibilidade dos dois filhos lhe seguirem os passos: "Preferia que eles jogassem golfe"

Lídia Paralta Gomes

LIONEL BONAVENTURE/Getty

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A expressão castelhana “La bajona no perdona” é familiar a Michael Phelps. Os nossos vizinhos usam-na para falar daquele sentimento de vazio que de nós se apodera quando termina a euforia de um momento feliz.

Phelps teve muitos momentos felizes dentro de uma piscina, 28 momentos felizes, 23 deles de ouro. Nunca ninguém venceu tantas medalhas olímpicas como o nadador norte-americano, mas cada uma delas teve o seu preço: durante anos e anos, Phelps sofreu de depressão e os piores momentos seguiam-se sempre às grandes competições. Só após os Jogos do Rio, em 2016, ganhou coragem para assumir a sua luta e os pensamentos suicídas que surgiram após os Jogos Olímpicos de Londres, em 2012, altura em que anunciou uma primeira retirada da competição.

“Chegou a um ponto em que não queria estar vivo”, revelou o antigo atleta, de 32 anos, numa entrevista ao canal CBS. “Quando és olímpico, tens ali quatro anos para trabalhar para aquele momento. E quando esse momento termina ficas meio perdido, Nessa altura não sabes mesmo o que fazer, não sabes para onde te virar, não sabes com quem falar. Muitos de nós começam a sofrer de depressão”, disse ainda.

Poucos meses após os Jogos de Atenas, em 2004, Phelps foi preso por condução sob o efeito de álcool e na ressaca dos Jogos de Pequim, em 2008, competição em que ganhou 8 medalhas de ouro, foi apanhado a consumir drogas.

“Depois dos Jogos de 2004, 2008 e 2012 passei por momentos de depressão bastante maus. Acho que ninguém falava no passado sobre isso porque é suposto seres aquela figura forte, de macho, que não tem qualquer fraqueza”.

Após Londres’2012, Phelps começou a isolar-se e foi aí que entendeu que precisava de pedir ajuda. Fez terapia, tratamos em centros especializados. “Desde que comecei a falar é como se a vida ficasse… fácil. Ou melhor, mais fácil. porque não estou a guardar todas as coisas aqui dentro, sou capaz de me abrir e sinto-me confortável a falar do que sinto. É-me cada vez mais fácil falar dos problemas pelos quais passei. Para mim o segredo foi começar a comunicar, a falar sobre as minhas lutas, pedir ajuda. Eu nunca tinha pedido ajuda, nunca, e acho que parte era pelo medo da rejeição”.

Michael Phelps despediu-se nos Jogos do Rio'2016 com cinco medalhas de ouro. Um regresso não está no seu horizonte

Michael Phelps despediu-se nos Jogos do Rio'2016 com cinco medalhas de ouro. Um regresso não está no seu horizonte

Tim Clayton - Corbis/Getty

Phelps acredita que o seu exemplo vai ajudar outras pessoas na mesma situação: “É OK não estar OK porque ninguém é perfeito”. Phelps, apesar dos feitos sobrenaturais dentro de água, também não é perfeito, mas aprendeu a aceitar as suas fraquezas emocionais. “Acho que neste momento tenho as ferramentas necessárias para enfrentar as minhas lutas. Eu sei que elas não vão embora, sei que elas vão estar aqui toda a minha vida, mas eu não tenho problemas com isso. Faz parte daquilo que eu sou e eu estou bem como aquilo que sou”.

Regresso? Nem pensar

Michael Phelps disse adeus à competição em 2012 mas a meio do ciclo olímpico para o Rio’2016 decidiu tentar mais uma vez. E não correu mal: no Brasil, o nadador nascido na cidade de Baltimore, na costa leste dos Estados Unidos, conquistou seis medalhas, cinco delas de ouro.

Aos 32 anos, Phelps diz estar em “melhor forma” do que quando decidiu começar a treinar para o Rio’2016, mas quando questionado sobre um possível regresso para Tóquio’2020, a resposta é cabal: “Não, no way. Já não tenho objetivos na natação, não há nada que me faça ficar entusiasmado para saltar para uma piscina”.

Pai pela segunda vez há dois meses, agora é tempo de se dedicar à família. “Quando o Boomer nasceu eu estava a treinar para os Jogos Olímpicos e não estive muito presente nos primeiros meses. Assim que agora com o Beckett é uma experiência nova”, revela. Ver os dois filhos a seguir-lhe os passos não é uma obsessão e, pelos vistos, nem sequer um desejo. “Preferia que eles jogassem golfe, mas se eles quiserem nadar… eu tive sorte porque a minha mãe nunca me pressionou e eu também não quero colocar qualquer pressão nos meus filhos. Só quero que eles descubram aquilo que querem ser”.