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Aos 4 anos, Shaquem Griffin ficou sem a mão esquerda. Agora foi um dos eleitos no draft da NFL

Durante a gravidez da mãe, Shaquem Griffin foi vítima do síndrome de banda amniótica. Nasceu com uma malformação na mão, que viria a amputar e a partir daí foi uma luta diária contra a desconfiança de quem achava que não podia praticar desporto de alta competição, quanto mais chegar à NFL. E ele provou que todos estavam errados

Lídia Paralta Gomes

Logan Bowles/Getty

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Foi a meio da noite. Shaquem Griffin tinha apenas quatro anos mas conseguiu descer do beliche que partilhava com o irmão gémeo, Shaquil, e correu para a cozinha aos gritos. As dores que tinha na mão esquerda deformada eram tais que os pais, Tangie e Terry, encontraram Shaquem com uma faca na mão, pronto para cortar os dedos não desenvolvidos e acabar com o sofrimento ali mesmo.

Tangie e Terry conseguiram impedir o filho de arrancar a sua própria mão, mas decidiram que chegava de dor: o rapaz foi operado no dia seguinte e desde aí que vive sem a mão esquerda.

Shaquem Griffin, hoje com 22 anos, foi vítima de uma condição pré-natal chamada síndrome da banda amniótica, que acontece quando, na gravidez, a membrana amniótica envolve e comprime uma extremidade do feto, causando uma malformação.

Viver sem a mão esquerda tem os seus desafios, mas Shaquem, livre de dores e com o apoio incondicional dos pais e do irmão gémeo, ultrapassou-os a todos.

E mais: este fim de semana foi um dos selecionados no draft da NFL.

Shaquem no primeiro dia do draft da NFL. O defesa só viria a ser escolhido no 3.º dia

Shaquem no primeiro dia do draft da NFL. O defesa só viria a ser escolhido no 3.º dia

Icon Sportswire/Getty

Shaquem foi escolhido pelos Seattle Seahawks na 5.ª ronda e vai juntar-se de novo ao irmão gémeo, que foi uma das picks da equipa do estado do Washington no último ano. É a primeira vez que na era moderna da NFL uma equipa escolhe um jogador amputado e nada disto tem a ver com piedade: Shaquem foi só o melhor jogador defensivo de 2016 na conferência AAC, onde compete a Universidade da Flórida Central (UCF), que recrutou ambos os irmãos.

“Foi duro esperar, ver todos os jogadores serem escolhidos antes de mim. Fiz tudo o que era suposto para ser escolhido, mas estava nas mãos de deus”, disse Shaquem à ESPN, que acompanhou o draft em casa dos Griffin, onde houve lágrimas de emoção e alegria, muitos abraços e dois irmãos felizes por estarem de novo juntos.

O último ano foi o primeiro em que estiveram separados desde que nasceram. Shaquem, esse, deixou desde já o aviso: “Todos os que duvidaram de mim vão perceber quem eu sou”.

É que se há desafio que foi complicado para Shaquem foi mesmo lidar com a desconfiança dos outros.

A ajuda do pai, a ‘traição’ na universidade

O pai dos gémeos, Terry, nunca pensou treinar os miúdos de forma diferente, por Shaquem ter apenas uma mão. Talvez tenha percebido que tal não devia acontecer quando viu Shaquem a ter a coragem de subir a uma árvore primeiro que Shaquil. Há coisas que alguém sem uma mão pode fazer, outras nem por isso, mas para essas Terry tentava sempre encontrar uma solução. Os irmãos lembram-se do pai passar noites em branco na garagem a inventar e construir ele próprio alguns acessórios que permitissem, por exemplo, que Shaquem conseguisse levantar pesos.

Durante a juventude, Shaquem nunca deixou de acompanhar o irmão. Praticaram basebol, atletismo e, claro, a grande paixão de ambos: futebol americano.

Anthony Snead, treinador de atletismo da Lakewood High, onde os irmãos fizeram o secundário, lembra-se do dia em a equipa ia treinar estafetas e de como medos de que Shaquem não conseguisse passar o testemunho ao irmão foram rapidamente desfeitos. “Foi perfeito, nem foi preciso treinar. Nem sequer precisaram daquelas marcas que se põe no chão, para os atletas saberem no treino quando é que têm de começar a correr”, revelou numa reportagem ao site oficial da NFL.

Shaquem a placar um adversário

Shaquem a placar um adversário

Andrew Bershaw/Icon Sportswire/Getty

A vida de Shaquem foi um constante provar aos outros de que não ter a mão esquerda era só mesmo isso. Porque Shaquem sempre foi tão bom ou melhor que os outros. Quando se apercebia de algo que não conseguia fazer tão bem, compensava com outras qualidades.

“Quando ele falhava uma placagem, achava que toda a gente ia pensar que era porque não conseguia agarrar bem o adversário. Eu dizia-lhe na altura que era apenas porque não estava bem posicionado. E ele, na jogada seguinte, metia as bancadas todas a dizer ooh. Porque tinha acabado de ‘destruir’ um adversário”, contou Terrell Holmes, que foi treinador dos gémeos quando estes eram miúdos.

Rapidamente os recrutadores das maiores universidades do país souberam que na Flórida estavam dois irmãos gémeos com grande talento para a defesa. Mas quando sabiam que Shaquem não tinha uma das mãos, ofereciam bolsa apenas a Shaquil.

E Shaquil recusou-as a todas, até a sua universidade de sonho quando era miúdo, Miami.

“Era um package deal or no deal”, sublinha o Shaquil. Quando as universidades começaram a bater à porta de Tangie, para a convencer a colocar juízo na cabeça do filho, a mãe apoiou a decisão dos gémeos.

Até que apareceu a UCF, que quis levar os dois irmãos. Mas a felicidade de Shaquem durou pouco: quando se viu fora da equipa no primeiro ano e depois relegado para as formações secundárias da UCF, percebeu que o treinador George O’Leary apenas o tinha contratado para chegar ao irmão, que entretanto se tornara num dos esteios do Knights.

Shaquem sentiu-se enganado, pensou em deixar o futebol, pedir transferência para outra universidade e juntar-se a um programa de atletismo. Shaquil, que nunca tinha abandonado o irmão, que um dia se meteu em problemas por aos 7 anos ter batido numa miúda por esta ter chamado Shaquem de pickle hand, também sentiu a traição do treinador e colocou a hipótese de sair de UCF.

A reviravolta

Tudo mudou quando George O’Leary foi despedido e para o seu lugar foi contratado Scott Frost. Este olhou para Shaquem e apenas avaliou o seu desempenho, não a mão que lhe faltava. Shaquem tomou de assalto a titularidade nos Knighs e no primeiro ano ‘a sério’ foi o jogador defensivo do ano da AAC. No ano seguinte, UCF não perdeu um jogo que fosse na temporada.

Shaquem (à esq.) e o irmão Shaquil com uma camisola dos Seahawks, numa altura em que ainda não sabiam quem iam ser colegas de equipa

Shaquem (à esq.) e o irmão Shaquil com uma camisola dos Seahawks, numa altura em que ainda não sabiam quem iam ser colegas de equipa

Don Juan Moore/Getty

Foi então que a NFL, onde já estava o irmão, começou a parecer ser um sonho possível, mais um que Shaquem, em toda a improbabilidade de se tornar atleta de alta competição no futebol americano, iria conseguir. Tal como em outras fases da sua vida, houve muita desconfiança inicial: muitos dos olheiros achavam possível que as equipas olhassem para a limitação física de Shaquem e que o jogador não fosse escolhido.

Mas mesmo sem uma mão, Shaquem chegou ao Combine (uma espécie de campo em que os aspirantes a rookie tentam impressionar os olheiros da NFL numa série de provas físicas) e deixou toda a gente de olhos arregalados. “Ele joga com um tal motor… Conhece muito bem o seu corpo e a sua capacidade de atacar e sair de um bloqueio é de jogador de elite”, sublinhou Chris Wiesehan, treinador da Universidade de Temple, rival de UCF e que muito sofreu com a defesa de Griffin.

Foram precisas 141 escolhas para que, este último fim de semana, no draft da NFL, Shaquem Griffin fosse escolhido. Em Seattle já está o irmão e agora o outro gémeo terá ainda de provar que merece um lugar no plantel final de 53 homens. Os especialistas acreditam que Shaquem terá dificuldades no início, que terá tarefas mais marginais nos primeiros tempos na liga, mas que a sua qualidade será mais que suficiente para ter uma carreira na NFL.

Mesmo que tal não aconteça, Shaquem já quebrou barreiras e barreiras de desconfiança, de gozo de colegas e treinadores adversários e das próprias estatísticas e probabilidades.