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A incrível (e dramática e violenta) vida de Eamonn Magee, o boxeur que enfureceu o IRA e sobreviveu a ataques com tacos de basebol

A vida do campeão mundial de pesos médios em 2002 deu um livro, embora Magee ache que devia ter dado um filme. Porque envolve crescer católico e republicano numa Belfast a ferro e fogo, cenas de pancadaria, prisões, álcool, drogas e até levar tiros do Exército Republicano Irlandês, mesmo sendo um deles

Lídia Paralta Gomes

Alexander Hassenstein/Getty

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Tudo o que Eamonn Magee quer por estes dias é não apanhar na cara cada vez que põe um pé fora de casa, em Ardoyne.

Ele que, em tempos, ali pelos finais da década de 90, inícios do século XXI, costumava ser o mais bem-sucedido pugilista a lutar pela bandeira da Irlanda - porque Eamonn é católico, nacionalista e republicano, como quase todos aqueles que cresceram e vivem em Ardoyne, no norte de Belfast, capital da Irlanda do Norte, um bairro operário que foi um dos epicentros do conflito conhecido como 'The Troubles' por aquelas terras, que só amainou com a assinatura dos Acordos de Belfast, em 1998.

Eamonn Magee tem chegado a casa todas as noites cheio de nódoas negras e uns ocasionais ossos partidos porque há um par de semanas, em conjunto com o escritor Paul Gibson, lançou a sua biografia, coisa que extravasa (e muito) dos seus feitos desportivos e livro que começa da seguinte maneira:

Um livro? Oiçam, já levei sovas com bastões de baseball, já vi a minha garganta a ser destruída, já fui raptado e expulso do meu país. Já fui baleado duas vezes, já estive na prisão e o meu filho foi esfaqueado até à morte. No meio disto tudo, fui campeão do mundo de peso médio enquanto bebia até cair e metia cocaína suficiente para matar um pequeno cavalo todas as noites. A minha vida não é um livro: é um car**** de um argumento de um filme.

“The Lost Soul of Eamonn Magee”, assim se chama a biografia, não agradou a toda a gente em Ardoyne porque é um retrato talvez demasiado gráfico e detalhado daquilo que foi a violência que grassou no bairro à conta dos confrontos entre republicanos e fiéis à coroa britânica. Ou das drogas e das noites com demasiado álcool. Ou daquilo que é enfurecer o IRA, o Exército Republicano Irlandês, mesmo pertencendo ao IRA.

Álcool que continua a ser omnipresente na vida de Eamonn Magee, hoje com 46 anos e muitas outras marcas na cara, não só as da rua, mas também aquelas que foi ganhando ao longo dos anos dentro dos ringues, onde chegou a ser campeão do mundo em 2002 e entre 1995 e 2007 construiu uma respeitável carreira, com um registo de 27 vitórias em 33 combates, 20 delas por KO.

“Tentei reabilitação”, confessou Eamonn a Donald McRae, jornalista do “The Guardian” que foi até Ardoyne falar com o antigo pugilista. “Mas disse ‘não, não não’!”, continuou, numa referência à conhecida música de Amy Winehouse. Quando Donald McRae encontrou Magee, este tentava abrir uma lata de cerveja com uma mão partida após uma escaramuça na noite anterior. O “The Guardian” chama-lhe um “alcoólico funcional”, algo que Winehouse nunca conseguiu ser: Magee continua a combater e a treinar outros atletas em Belfast, mesmo com muita cerveja no estômago. Ao jornal disse que deixou a reabilitação porque na clínica onde estava não podia ver televisão.

“Tentei mesmo reabilitação, mas o que me lixava lá era que não podia ver televisão. E não ter televisão era pior que não beber. É preferível passar seis meses na prisão”. Magee sabe do que fala porque em 2010 foi preso após agredir um homem com uma cabeçada. Passou ainda pelo banco dos réus acusado de agredir uma ex-companheira, mas o tribunal acabou por condená-lo a pena suspensa, tal era o grau de ansiedade e depressão de Magee.

Porque problemas foi coisa que nunca faltou na vida de Eamonn Magee, que ainda tem na memória como em miúdo era acordado pelo exército britânico, ele e os seus três irmãos, arrastado escada abaixo e colocado de joelhos e de mãos atrás da cabeça, sem aparente razão. Com 18 anos, já depois de conquistar uma medalha de prata no Mundial junior de boxe, envolveu-se numa cena de pancadaria de tal forma violenta que sofreu um corte profundo no pescoço que quase o matava. Pouco tempo depois alistou-se no IRA, ao mesmo tempo que se tornou consumidor e traficante de droga, algo que era um absoluto “no-no” segundo as regras do Exército Republicano Irlandês.

Violações ao código de conduta do IRA eram normalmente tratadas com uma punição que envolvia tiros no joelho ou pior. Eamonn ia combater nos campeonatos nacionais da Irlanda e teve de ser o seu pai, um veterano da luta contra os britânicos, a demover o IRA de destruir o joelho e, causa-consequência, a carreira de Magee.

“Se o meu pai não tivesse falado com eles eu ia levar com o six pack”, revelou o antigo pugilista ao “The Guardian”. E o que é o six pack? “Ombros, joelhos e tornozelos. Mas o meu pai convenceu-os a dar-me só um tiro”.

Levou um tiro na barriga da perna e ainda hoje tem a cicatriz para o comprovar.

Essa não foi a pior dor que sofreu desde aí. Em 2004 foi atacado em Belfast com tacos de baseball. Partiram-lhe a perna esquerda em dois sítios, destruíram-lhe o joelho que o pai em tempos havia salvo dos tiros do IRA e ainda lhe perfuraram um pulmão. Disseram-lhe que a sua carreira estava acabada, mas Magee voltou a treinar um ano depois.

Mas pior que tudo isso, que a ferida no pescoço, que o tiro do IRA, que o espancamento com um taco de baseball foi perder o filho, Eamonn Jr., em 2015. O miúdo que era calmo, estudioso, estudante de engenharia na universidade e que com o pai apenas partilhava a vontade de se tornar boxeur profissional. Foi assassinado à facada pelo ex-marido da namorada do pai e esse assunto é o único que custa a Eamonn falar.

Porque do resto, não tem arrependimentos. “Vi coisas que muita gente não viu, mas se tal não tivesse acontecido eu não seria o homem que sou hoje. Não mudava nem uma vírgula. Estou mais do que feliz com a minha vidinha”, disse.

Vidinha, no diminutivo. Se ele o diz...