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Marc Márquez: um “marciano” que quer ser melhor que Rossi

O catalão de 23 anos tornou-se no último domingo, em Motegi, Japão, no mais jovem piloto de sempre a vencer três títulos mundiais no MotoGP, aos quais junta outros dois conseguidos nas categorias inferiores. O objetivo é claro: chegar às 10 coroas mundiais e assim ultrapassar Valentino Rossi, antigo ídolo, agora inimigo

Lídia Paralta Gomes

Mirco Lazzari gp/Getty

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As contas eram tão emaranhadas quanto um novelo de lã. Marc Marquez chegou ao GP Japão com hipóteses de ser campeão, mas para tal era necessário que todos os astros se alinhassem. Ganhar a corrida de Motegi era obrigatório e o único que estava nas mãos do jovem espanhol da Honda. Depois, teria de contar com a sorte - ou falta dela - dos rivais: Valentino Rossi não podia ser melhor que 15.º, Jorge Lorenzo tinha de ficar fora do top 4.

Ainda antes da bandeira de xadrez esvoaçar no circuito desenhado duas horas a norte de Tóquio, já Rossi e Lorenzo tinham cumprido parte da equação necessária para Márquez festejar. O italiano caiu logo à 6.ª volta e o espanhol imitou-o a quatro voltas do final, quando era segundo. Nunca Rossi e Lorenzo tinham desistido no mesmo Grande Prémio e o novelo começava a ficar menos enleado. Márquez fez a sua parte: venceu e tornou-se aos 23 anos e 242 dias no mais jovem piloto de sempre a conquistar três títulos de campeão mundial de MotoGP, aos quais se juntam um título nas 125 cc. e outro no Moto2.

O miúdo de Cervera, uma terriola catalã com menos de 10 mil habitantes, sabe bem o que significa este título, que se segue aos de 2013 e 2014, os dois primeiros anos em que esteve na categoria rainha do motociclismo e onde dominou como quis, batendo recorde atrás de recorde. Depois veio o annus horribilis de 2015: fraturou por duas vezes a mão esquerda em acidentes fora de competição, caiu que se fartou nela, e, pior, envolveu-se numa guerra feia (e nada fria) com o até então ídolo Valentino Rossi. Foi apenas terceiro e começaram a surgir dúvidas: teria Márquez estofo para continuar a dominar?

Chegou cedo a resposta de Márquez, que em tempos admitiu gostar mais de motos do que de miúdas - "as motos nunca se queixam" - e até de férias é incapaz de abandonar as duas rodas: nos tempos livres anda de bicicleta em Cervera e aventura-se no motocrosse. “Foi muito difícil perder em 2015. Este título tem um gosto especial depois do ano passado, dos erros que cometi, da pressão. Queria muito ganhar para tirar todo este peso de cima”, admitiu o rapaz de eterna cara de adolescente e sorriso fácil, que dedicou o título à avó Sole, falecida de forma trágica em maio, após oito dias a lutar pela vida depois de um atropelamento.

“A minha avó dizia-me sempre ‘ Filho, tenta ver sempre mais além, mas com inteligência’”, recordou o campeão do Mundo, feliz por dar uma alegria ao avô Ramón: “Ele diz que as minhas vitórias são gasolina para as suas veias”.

A mão esquerda já está, a direita é já a seguir

É difícil fazer uma compilação de todos os recordes batidos por Marc Márquez desde que se estreou no Mundial. Foi no Estoril, a 13 de abril de 2008, quando os melhores motociclistas do Mundo ainda por cá paravam. São várias páginas de feitos, mas damos aqui os mais suculentos: foi o piloto mais jovem de sempre a sagrar-se campeão (20 anos e 260 dias) e bicampeão do MotoGP (21 anos e 237 dias), o mais jovem de sempre a vencer uma corrida na categoria principal (GP EUA, aos 20 anos e 63 dias) e o mais jovem de sempre a conquistar uma pole position no MotoGP (GP EUA, aos 20 anos e 62 dias).

Márquez em luta com o antigo ídolo, Valentino Rossi

Márquez em luta com o antigo ídolo, Valentino Rossi

MANAN VATSYAYANA/Getty

Além disso, nunca nenhum rookie tinha ganho tantas provas no MotoGP (seis), e Márquez foi ainda o mais precoce a chegar às 50 vitórias no Mundial, com apenas 22 anos e 243 dias. Não é em vão que a “Gazzetta dello Sport” o apelidou este domigo de “marciano”.

Márquez não parece, de facto, deste mundo, mas entre ele e a imortalidade faltará ainda um recorde que ele admite estar à procura. “Tenho 23 anos e já tenho a mão esquerda [cinco títulos mundiais]. Não vou parar por aqui, agora quero a mão direita”, garantiu durante as celebrações em Motegi.

E porquê duas mãos cheias? Porque Márquez quer ultrapassar Valentino Rossi, ainda hoje o homem que mais títulos mundiais conquistou na história da competição. São nove, um nas 125 cc., um nas 250 cc e sete na categoria máxima. Il Dottore chegou aos cinco títulos com 24 anos, sete meses e 24 dias, praticamente um ano mais velho que o espanhol.

Até há um ano, Márquez e Rossi eram amigos, eram pupilo e ídolo, eram até parceiros de negócios. Mas no GP Argentina, em março de 2015, a relação começou a esfriar. Na luta pela vitória, aconteceu um toque e Márquez acabou no chão. Em junho, na Holanda, mais uma luta acessa, mais um toque. Desta vez Márquez ficou de pé, mas Rossi voltou a ganhar.

A bomba acabaría por explodir na Malásia. “Márquez prefere que Lorenzo ganhe o campeonato. Creio que é pelo que se passou na Argentina e na Holanda, ainda está chateado”, atirou o italiano na conferência de imprensa antes da prova de Sepang. Na pista, a guerra terminou da pior maneira: quando ambos lutavam de forma agressiva pela 3.ª posição, Rossi defendeu-se para lá das regras, pontapeando a moto do espanhol, que acabou mais uma vez no chão. A relação, que já não andava boa, terminou ali. “Estou muito dececionado. Rossi perdeu o meu respeito e o de muita gente”. Foi a primeira vez que não se viu um sorriso nos lábios do catalão.

A ação, que Rossi nunca admitiu ser intencional, valeu uma penalização ao italiano, que foi obrigado a arrancar do último lugar da grelha no derradeiro Grande Prémio do ano, em Valência, retirando-o praticamente da luta pelo título. No final da prova, que coroou Lorenzo como campeão do mundo, Rossi voltou a atacar Márquez acusando-o de não ter dado o máximo, entregando assim a vitória a Lorenzo, pelo simples prazer de ver o veterano de 37 anos perder.

Agora, Rossi que se prepare, porque Márquez, o rapaz que recebeu a primeira moto aos 4 anos e que não se diz supersticioso, apesar de subir para a máquina sempre pelo lado esquerdo, vai atrás da vingança perfeita: ele quer ser o melhor de sempre.