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Mourinho: acabou por correr mal no Chelsea, começa a correr pior no United

Os maus novos tempos, se calhar, não ficaram para trás. Após fartar-se de perder, discutir com os jogadores e treinar uma equipa (Chelsea) que jogava mal, José Mourinho parece estar a ter outra fase negra: no domingo perdeu pela terceira vez seguida (3-1, contra o Watford), algo que não lhe acontecia desde 2006

Diogo Pombo

Richard Heathcote

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Era a primeira vez que o conhecia, em pessoa. Houvera telefonemas, sms, valores pedidos e pagos, um negócio que terminou com o preto no branco. Ele apanhou um avião e, mal aterrou, foi-se encontrar com quem lhe ia dar ordens. Chega, dá um passou bem, senta-se. Depois ouviu um treinador, que só o conhecia de ver jogos na televisão ou no estádios, a dar-lhe uma massagem caridosa no ego e a dizer que o holandês era o melhor. "Tu jogas amanhã a titular. Confio em ti, confia que vais ganhar o dérbi”, ouviu. Ficou pasmado, achou estranho. Tinha acabado de chegar de Madrid, nem um treino fizera ou teria tempo para fazer, e o novo treinador já lhe inflacionava a confiança desta forma.

No dia seguinte estreou-se pelo Inter e ficou 74 minutos em campo frente ao AC Milan, o rival da cidade. Ganhou por 4-0. Antes sequer de pisar o relvado, pensou: “Não queria acreditar. Nunca tinha feito um treino com os meus colegas. Pensei: ‘Merda, este é grande! Grande!’”. Esta é das história que nos obriga a por em causa do que (achamos que) sabemos sobre futebol. Porque não foi preciso Wesley Sneijder entrosar-se, adaptar-se ou ser alvo de outro lugar-comum do futebol para brilhar no primeiro jogo que fez pelo clube italiano, em 2009.

Esta história é uma de várias que, com os anos, foi empurrando José Mourinho para o cume da montanha dos treinadores. A partir desse dia, Sneijder achou que estava a conviver com alguém que sabia muito sobre muita coisa e apaixonou-se pela pessoa atrás do treinador: “Creio que fiz um dos melhores jogos da minha carreira. Era como se jogasse desde sempre no Inter, como se Mourinho fosse o meu treinador há muitos anos. Tudo o que ocorreu depois, tudo o que ganhamos juntos, é consequência daquele dia". No final dessa época estavam abraçados, aos pulos e sorridentes, agarrados aos canecos da Série A, da Liga dos Campeões e da Taça de Itália.

E esta história, como muitas, também nos fala de algo que é habitual em José Mourinho: vitórias. Ou, pelo menos, era. E começámos com ela para recordar os bons velhos tempos, em que o português era falado por tudo o que de bom fazia acontecer, já que os novos tempos não parecem ser famosos.

O senhor dos 23 títulos, do toque de Midas que puxava por todo e qualquer jogador, do tão bom gestor de homens como treinador de futebolistas, perdeu três partidas seguidas. Podíamos estar a escrever como isso acontece a qualquer um, que é verdade, se não fosse ainda mais verdadeiro constatar que, antes, nada disto sucedia com Mourinho. Há mais de uma década que uma equipa do português não sofria três derrotas consecutivas. A última vez foi em agosto de 2006, à segunda época da primeira passagem de Mourinho pelo Chelsea, mera turbulência num ano em que acabaria por ser campeão inglês.

Esses eram os tempos em que os jogadores se maravilhavam com Mourinho, o treinador. Apaixonavam-se por ele pela forma como Mourinho, a pessoa, os tratava. Com conversas pessoais, perguntas sobre a família, discursos para espicaçar exércitos e diálogos que os faziam pensar que eram capazes de fazer tudo. José Mourinho sempre foi mais ou menos assim - um treinador obcecado por estudar os adversários e conhecê-los melhor do que eles se conhecem, para descortinar a melhor forma de os afetar. Mourinho é Mourinho porque cedo houve histórias, como a de Sneijder, que lhe deram a fama de ser tão bom treinador como gestor de homens.

Dean Mouhtaropoulos

Reputação que lhe durou até chegar ao Real Madrid, onde encostou uma lenda do clube (Casillas), optou pela guerra para ir contra o Barcelona e Pep Guardiola (dedo no olho de Tito Vilanova), quis obrigar seus jogadores a odiarem os catalães e chateou-se por saber de conversas entre colegas de seleção, que antes e depois de adversários eram amigos, e não inimigos.

A vida correu-lhe assim-assim - perdeu mais do que ganhou - antes de lhe começar a correr mal. Mourinho saiu do Real para voltar ao Chelsea, onde ao título de campeão na segunda temporada seguiu-se a época passada. Que foi péssima para ele, que foi despedido em dezembro com 11 derrotas no bolso, mais do em qualquer uma das 15 épocas anteriores. Foi-o com rumores de que muitos jogadores estavam contra ele, não davam tudo o que podiam. Quiçá uma retaliação das vezes em que o português, para tentar agitar os egos, a confiança e as exibições, criticava os jogadores aqui e ali, em conferências de imprensa. Essa onda ganhou proporções de tsunami, descontroladas. Ao ponto de adeptos do clube chamarem “rato” a Eden Hazard, um dos craques da equipa de quem, dizia-se, Mourinho desconfiava de passar as táticas e os onzes a jornalistas.

A relação acabou com José Mourinho a sair a mal do Chelsea (pela segunda vez). Ficou em casa, tranquilo, agarrado ao telemóvel, a ouvir, falar e esperar que o Manchester United se fechasse a porta a Louis Van Gaal, que também não estava bem, para a abrir ao português. A ideia do clube foi livrar-se de um treinador que parecia estar numa estrada a descer e trocá-lo por um que só ia encontrando umas lombas de vez em quando.

Só que esses solavancos estão a ser mais frequentes. Perder com o City de Guardiola no dérbi de Manchester (2-1), em casa, até pode ter sido normal, mas ser derrotado pelo Feyenoord (1-0) na Holanda e pelo Watford (3-1), fora, já não. Nas três partidas viram-se os mesmos problemas: um avançado, Rooney, que joga atrás de outro, Ibrahimovic, e mal lhe passa a bola; uma equipa lenta e sem ideias para as alturas em que o adversário a defende bem; e um futebol algo aborrecido e sem a dinâmica com a qual Mourinho anulava as equipas que lhe apareciam à frente.

Mourinho tem noção disso e disse que o United tem “muitos jogadores que ainda não são produtos finais e que podem cometer erros”. A dúvida, diz ele, é saber que eles “conseguem ligar com os momentos negativos que, mais cedo ou mais tarde, aparecem”. O português, falando das três derrotas, argumentou que a equipa “foi sempre a melhor em campo nas segundas partes”, o que nos pode guiar até um dos problemas - que talvez os jogadores entrem demasiado relaxados nas partidas. Sem “intensidade, desejo, ambição e compromisso”, coisas que Mourinho diz ter visto após o intervalo, nos três jogos.

Nos bons velhos tempos, uma série destas causaria espanto por ser rara. Hoje, parece ser uma repetição dos maus e novos tempos que vão afetando José Mourinho.