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Mourinho

Special One, Happy One, Lost One, No One

Na Turquia, o Manchester United perdeu outra vez e Mourinho voltou a criticar os seus jogadores. Num homem que sempre falou em coletivo, que sempre teve as equipas do seu lado, estas tiradas soam a desespero de alguém que procura e não consegue despertar algo, seja ódio, ressentimento ou raiva, nos seus jogadores. Qualquer coisa é melhor do que nada. Isto é nada

Pedro Candeias

Chris McGrath

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A confiança de José Mourinho viu-se no dia em que foi apresentado no Chelsea e se chamou a si próprio o Special One. Entre homens, as alcunhas são um assunto sério e sensível, começam logo no recreio e separam muitas vezes os populares dos tótós – quem goza e quem é gozado. No futebol não é muito diferente e o Luisão, por exemplo, não gosta quando lê “Girafa” nos jornais; diz que isso é uma invenção de jornalistas, que o nome dele não é esse, quanto muito refiram-se a ele como capitão.

Luisão não é Luisão, é Ânderson Luís da Silva.

Jack Charlton também era o “Giraffe” e Tony Adams era o “Donkey”, e por aqui se vê que os ingleses são muito criativos e pouco meigos quando escolhem as alcunhas. E antes que o vissem como o tuga do bigode, antes que pegassem pelo penteado ou pela pronúncia, Mou marcou o território e disse que era especial.

A alcunha, além de fixe, era justificada e por isso perdurou.

Mourinho era diferente de todos os outros, um mestre nas conferências de imprensa, no balneário e na tática, e a Inglaterra não estava preparada para ele. O Chelsea revolucionou a Premier League, Mourinho foi à sua vida e depois voltou – e acabou despedido pela segunda vez pelo mesmo clube que lhe deu fama planetária.

Quem o contratou durante esse tempo (o Inter de Milão, o Real Madrid e o Chelsea) sabia o que estava a comprar: uma intensa e dolorosa terapia de choque, porque é assim que Mourinho faz as coisas. Provoca conflitos com a imprensa, com arbitragem, com os adversários, colegas de profissão e até com quem lhe paga o salário, em nome dos números.

Pelo caminho, matam-se alguns ícones, porque ninguém está acima dele – houve notícias de que ele não admitia receber menos do que qualquer outro futebolista da equipa para se manter no topo da hierarquia.

Mourinho é, sobretudo, um iconoclasta, um anti-Cristo, um anti-mitos, sendo que ele próprio, às tantas, se viu engolido pelo próprio mito que criou.

Foi então que se tornou resultadista, e o resultadista é óptimo enquanto tiver resultados – e ele teve-os em Inglaterra, Itália e em Espanha. Até que estagnou.

De tanto jogarem em contra-ataque, as suas equipas deixaram de jogar de futebol, como se ganhar ou perder dependesse apenas da boa vontade. Sim, querer mais do que os outros é bom, mas saber mais do que os outros é melhor.

E ontem, ao ver o Fenerbahçe-Man United (2-1), chegámos à conclusão que o United não sabe o que fazer a partir do momento em que tem de fazer alguma coisa: do meio campo para a frente e em posse, é preciso criar, combinar, tabelar, triangular, virar o centro do jogo, enfim, jogar à bola. O Manchester United é uma equipa reativa e isso não chega para ganhar campeonatos.

No final do jogo, Mourinho atirou-se aos jogadores e disse que eles tinham encarado aquilo como um “amigável” numa noite de verão. A culpa, uma vez mais, era dos futebolistas que ele tinha escolhido e feito alinhar. É verdade que nada está comprometido na Liga Europa e que na Premier League a distância de oito pontos para o Manchester City parece maior do que realmente é num campeonato como o inglês, porque no rival está Pep Guardiola – e o historial entre ambos vem de longe.

Mas os sinais são péssimos, porque Mourinho está a desrespeitar-se a partir do momento em que quebra o pacto sagrado entre treinador e plantel: não criticarás em público.

Num homem que sempre falou em coletivo, que sempre teve as equipas do seu lado, estas tiradas soam a desespero de alguém que procura e não consegue despertar algo, seja ódio, ressentimento ou raiva, nos seus jogadores. Qualquer coisa é melhor do que nada. Isto é nada.

Pode ser que resulte e para bem dele terá de resultar. Porque de Special One a Happy One vai um tirinho; de Happy One a Lost One, um trambolhão.