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Mourinho, o não privilegiado

O Boxing Day é aquilo pelo qual aguardamos, todos os anos. Para José Mourinho e o Manchester United, foi o segundo empate a dois golos ao segundo jogo feito entre o Natal e o Ano Novo - a quadra festiva em que o treinador português tanto se queixa, por achar que o calendário não lhe é simpático

Diogo Pombo

LINDSEY PARNABY

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José estaria com o fato de treino do clube vestido, o confortável dos trajes informais. Talvez estivesse no escritório em Carrington, onde o Manchester United vive e se treina diariamente, sentado à secretária, a coçar a barba de um, dois dias, à espera de saber aquilo contra o qual iria refilar festivamente, ou festejar refilando, ou festejando e refilando enquanto o resto do mundo não premierleaguês o inveja. A Mourinho e às pessoas que, como ele, vivem futebol em vez de sobreviverem durante dias à base de filhós, sonhos, bolo rei e ementas abastadas.

Não ele. Algures no verão, quando a Premier League divulgou o calendário para a época, ficou logo a saber os pormenores da queixa que, cerimoniosamente, faria lá para o final do ano, sentado em conferências de imprensa de prés e pós jogo. Chegámos a dezembro e José Mourinho, o treinador reputadamente especial devido aos títulos, conquistas, jogos épicos e feitio extravagante, começou a executar a tarefa em que se foi especializando, com os anos:

Diabolizar o Boxing Day e a quadra festiva do futebol inglês. Ou a vitimizar-se da forma como esse futebol, alegadamente, o estará a diabolizar, de propósito.

Porque o nosso regozijo, de adepto ou jornalista, de olhar sempre para o mesmo campeonato entre o Natal e a passagem de ano, na busca (com sucesso garantido) de espetáculo, golos e estádios com barulho de festa é, para quem nos proporciona estas coisas, uma sobrecargo de exercício físico a correr atrás de uma bola. Isso é garantido.

E José Mourinho também costuma ter por garantido que o calendário, neste período de oito ou nove dias, o sobrecarrega especialmente e à equipa que treina. “Há claramente equipas que são privilegiadas e há outro grupo de equipas que são claramente castigadas pelas decisões do calendário”, queixou-se, há dias.

É o queixume que, tendo ele mais ou menos razão, Mourinho terá feito em oito dos nove anos - com certeza não em 2008, quando o Chelsea o despediu precocemente na temporada - em que treinou na liga onde qualquer treinador sabe, de antemão, ao rubricar o contrato com um clube que lá jogue, que vai descansar pouco nesta altura do ano. É um dado adquirido, embora José Mourinho veja na obra do calendário algo a construir-se contra o seu Manchester United.

Stu Forster

E, há dias, vemos o clube regrado, respeitador e cavalheiresco, que assim se fez durante as décadas em que o cavalheiro Alex Ferguson o ordenou, a publicar "um estudo” no seu site. É um texto a dar conta de como o Manchester United é mais prejudicado do que os seus rivais nesta altura festiva: são quatro jogos entre 23 de dezembro e 1 de janeiro e apenas seis dias de descanso entre o dia de Natal e de Ano Novo. É pouco, claro que sim, e sobretudo é menos tempo de repouso do que City, Tottenham, Arsenal e Liverpool.

Mas não é isso que, passados dois minutos no segundo jogo da sua saga festiva, faz o United sofrer contra o Burnley. Cruza-se a bola, há uma carambola e acontece algo que não rima com bola, mas quase com trambolho, porque o golo que o Barnes marca é precedido por ressaltos e toques involuntários que o deixam rematar à baliza, na pequena área.

Nem é culpa do calendário que a equipa de Mourinho desperdice oportunidades e vá para o intervalo a perder por 2-0, sofrendo outro golo de livre por culpa do tipo a quem, uma vez, Alex Ferguson enviou uma carta, com as suas condolências por ter fraturado um osso do pé ao serviço do FC Porto.

O United é quem mais passa, remata, ataca, corre e tenta tudo e mais alguma coisa nesta ressaca do dia em que um gorducho barbudo desce pelas chaminés, com presentes. Insiste num estilo de longas bolas e nas segundas bolas que, por norma, é sintoma de desespero no futebol, mas que tem sido uma quase imagem de marca do ano e meio que Mourinho leva no Manchester United.

Um estilo que se entrega ao descontrolo, que há quem chame de azar ou sorte. Os dois gumes de uma faca que custou um golo aos red devils, aos 2’, e lhes deu outro, aos 91’, nos ressaltos que deixaram Lindgard salvar o United com o seu segundo no jogo. O primeiro fora de calcanhar, também na segunda parte.

José está com calças e sapatos e encasacado para a ocasião, sentado no banco, em Old Trafford. Assiste ao segundo empate seguido a dois golos (2-2 com o Leicester, no sábado), ao segundo de quatro jogos da quadra natalícia e festiva, do clube que treina e que, até esta terça-feira, ganhara 19 das 23 partidas que tivera no dia que conhecemos como Boxing Day.

A altura do ano a que o português nunca parece ter achado piada, não pela ocasião em si, mas por achar que o calendário raramente o privilegia.