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Quando Mourinho ainda é Mourinho: defendeu-se das críticas com um monólogo de 12 minutos

Depois da eliminação do Manchester United dos oitavos-de-final da Liga dos Campeões, frente ao Sevilha, José Mourinho levou à conferência de imprensa uma folha com todo o histórico europeu do clube desde 2011. E falou, falou e falou, durante 12 minutos

Mariana Cabral

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A lista é longa mas vamos a ela, de um só fôlego: duas Ligas dos Campeões, duas Ligas Europa, duas Ligas italianas, uma Taça de Itália, uma Supertaça de Itália, três Ligas inglesas, uma Taça inglesa, quatro Taças da Liga inglesas, duas Supertaças inglesas, uma Liga espanhola, uma Taça do Rei, uma Supertaça espanhola, duas ligas portuguesas, uma Taça de Portugal e uma Supertaça portuguesa.

Estes são os 25 títulos que José Mourinho conquistou, desde que se fez treinador principal, em 2000/01. Ou seja, se há um homem que pode ser adjetivado de ganhador, esse homem é Mourinho.

Mas há outra coisa em que ele é igualmente exímio a conquistar. Desde aquele primeiro ano no Porto, passando pela chegada a Inglaterra e indo até à belíssima Itália.

As conferências de imprensa, claro.

Como a de hoje, em que passou 12 longos minutos a defender-se do indefensável: a eliminação do Manchester United perante o Sevilha, nos oitavos-de-final da Liga dos Campeões.

"Olá. Estou vivo, estou aqui", começou por dizer aos jornalistas, antes de ser questionado sobre o seu estado de espírito. "Estou bem, estou contente com o que vi dos meus jogadores depois do jogo", respondeu, acrescentando que tinham "treinado bem, como sempre".

Depois, quando confrontando com as críticas à pobre exibição da equipa na derrota frente ao Sevilha (2-1), em Old Trafford, Mourinho recorreu ao papel que tinha na mesa e falou sobre o histórico europeu do clube nas competições europeias. E falou. E falou. Durante 12 minutos. Sobre a 'herança futebolística', um conceito que o treinador português já tinha explicado em entrevista à Tribuna Expresso, depois de conquistar a Liga Europa.

O último treinador a tocar no caneco da Liga Europa foi José Mourinho, com o Manchester United.

O último treinador a tocar no caneco da Liga Europa foi José Mourinho, com o Manchester United.

Mike Hewitt

"Os adeptos são os adeptos e têm direito às suas opiniões, mas há algo a que chamo 'herança futebolística'. Tento traduzir do meu português, que é quase perfeito, para o meu inglês, que é tudo menos perfeito: a 'herança futebolística' é o que um treinador herda", começou por explicar.

"É algo como saber que o Manchester United ganhou a Liga dos Campeões - o que não aconteceu muitas vezes - pela última vez em 2008. E, desde 2011, foi assim: em 2012, foram eliminados na fase de grupos, praticamente com o mesmo grupo que tivemos esta época, Benfica, Basileia e Galati, da Roménia.

Em 2013, foram eliminados nos oitavos-de-final, em Old Trafford, e eu estava no banco do adversário.

Em 2014, foram eliminados nos quartos-de-final.

Em 2015, nem sequer estiveram na Europa.

Em 2016, no regresso às competições europeias, foram eliminados na fase de grupos, foram para a Liga Europa e foram eliminados depois de duas rondas.

Em 2017, na Liga Europa, ganhámos a competição, comigo, e regressámos à Liga dos Campeões.

Em 2018, fazemos uma fase de grupos com 15 pontos em 18 possíveis e perdemos em casa nos oitavos-de-final.

Portanto, em sete anos, com quatro treinadores diferentes: uma vez não se qualificaram para as competições europeias, foram eliminados da fase de grupos duas vezes e o melhor foi chegar aos quartos-de-final. É isto a 'herança futebolística'", especificou.

Depois, Mourinho virou-se para as competições internas. "Se olharmos para a Premier League, o último título foi em 2012/13 e depois terminaram em 4º, 6º e 7º. Portanto o melhor, nos últimos quatro anos, foi o quarto lugar. É isto a 'herança futebolística'", disse, exemplificando com o Real Madrid, que orientou entre 2010/11 e 2012/13.

"Quando cheguei ao Real Madrid, sabem quantos jogadores do plantel já tinham jogado nos quartos-de-final da Liga dos Campeões? Xabi Alonso, com o Liverpool; Iker Casillas, com o Real Madrid; e Cristiano Ronaldo, com o Manchester United. Mais ninguém. É isto a 'herança futebolística", explicou.

PIERRE-PHILIPPE MARCOU

Quando um jornalista tentou então interrompê-lo para falar sobre os dados que tinha apresentado, Mourinho não o permitiu e continuou a falar - desta vez sobre o rival, mais especificamente sobre o plantel que Pep Guardiola herdou. "Estes dados são a realidade. E dou-vos mais: nos últimos sete anos, a pior classificação do Manchester City na Premier League foi o quarto lugar e foram campeões duas vezes", notou, acrescentando também que Otamendi, De Bruyne, Fernandinho, Silva, Sterling e Aguero "são investimentos do passado, não dos últimos dois anos".

E aí há uma grande diferença para a equipa do Manchester United que Mourinho herdou. "Sabem quantos jogadores do United deixaram o clube na última época? Vejam onde jogam agora, com quem jogam, se é que jogam. Isso é 'herança futebolística'. Um dia, quando eu me for embora, o próximo treinador do Manchester United irá encontrar aqui Lukaku, Matic, De Gea - que já cá estava antes - e muitos jogadores com uma mentalidade diferente, com um conhecimento diferente", disse.

É por isso que "há sempre os mesmos quatros clubes nos quartos-de-final da Liga dos Campeões", diz Mourinho, referindo-se a Barcelona, Real Madrid, Juventus e Bayern de Munique. "E depois há os outros, que vão lá de vez em quando, como o meu Inter de Milão ou o Mónaco na época passada", acrescentou.

Ainda assim, Mourinho não está preocupado com o futuro do Manchester United, porque disse estar "em sintonia com os donos", sobre "os investimentos" que o clube vai fazer. "A vida é boa. Tenho um ótimo trabalho para fazer. Podia estar noutro país qualquer com um campeonato no bolso, mas estou aqui e vou continuar aqui e nem pensem que vou mudar a minha mentalidade", garantiu.

"Não vou fugir nem desaparecer nem chorar porque ouvi alguns assobios, nem me vou meter logo no túnel. No próximo jogo serei o primeiro a sair para o campo. Não tenho medo das minhas responsabilidades. Quando tinha 20 anos, não era ninguém no futebol, era o filho de alguém, com muito orgulho, e agora tenho 55 anos e sou o que sou e fiz o que fiz porque trabalhei muito e tenho talento e a mentalidade certa", disse.

"Entendo que, durante muitos, muitos, muitos anos, foi muito difícil para as pessoas que não gostam de mim: 'Aqui está ele outra vez, aqui está ele a ganhar outra vez'. Não ganhei nada durante dez meses, o último título que ganhei foi há dez meses, mas ganhei ao Liverpool, ao Chelsea, e perdi contra o Sevilha e agora é a altura deles ficarem felizes. Aprendi isso na minha formação religiosa: temos de ficar felizes com a felicidade dos outros, portanto sou um tipo muito feliz".

Feliz em conferências de imprensa. Mas, no campo...