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Mundial 2018

E assim nasceu uma estrela: Pelé

O melhor e mais famoso futebolista de todos os tempos espantou pelo primeira vez o mundo como estrela da equipa que deu o primeiro campeonato do mundo ao Brasil no Suécia 1958. Com apenas 17 anos (Esta é a sexta história na nossa série enquanto Portugal não entra em campo no Mundial da Rússia)

Tiago Oliveira

O "Rei" Pelé ainda hoje é o mais jovem jogador de sempre a marcar numa final de um Mundial

Getty Images

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"Quando o Pelé marcou o quinto golo na final, tenho que ser honesto. Só me apeteceu aplaudir", confessou, muitos anos mais tarde, Sigvard Parling. O sueco falava como testemunha em primeira mão na emergência do maior talento que o futebol já tinha visto na maior palco do futebol, o Mundial. Que para muitos ainda é o melhor jogador de sempre (sim, já sabemos que isto é coisa para muita discussão) e o maior embaixador de sempre do desporto sem a benesse fas redes sociais. Falamos, claro, de Edson Arantes do Nascimento, Pelé para os amigos.

Não é fácil separar a história do ícone brasileiro da lenda que o rodeia mas, numa coisa, é possível convergir. O mito começou a ganhar forma no Mundial 1958 na Suécia perante o espanto dos adversários que, não só viram uma estrela nascer, como o Brasil atingir o primeiro título na competição.

Se hoje o pentacampeão mundial é visto como a potência mais reconhecida do universo futebol, há 60 anos era mais vista como uma nação do "tenta", sobretudo após o famoso débacle frente ao Uruguai em pleno Maracanã no Mundial de 1950 e outros saídas inglórias da prova. Aliás, as camisolas amarelas que hoje são tão exemplificativas do Brasil nasceram precisamente como forma de expurgar o equipamento branco que até ao "Maracanazo" tinha sido o principal.

Ao contrário do amadorismo verificado noutras edições do Mundial, os canarinhos prepararam esta edição quase como um desígnio nacional, com Vicente Feola a reunir todos os atletas um mês antes (o que na altura não era muito comum) para afinar tudo ao pormenor. Era uma seleção recheada de craques, com nomes míticos como Nilton Santos, Didi ou Garrincha. E que, só após muita pressão popular, incluiu o menino que se tinha estreado um ano antes com apenas 16 anos.

Pelé lá acabou por seguir na comitiva para o país nórdico onde a atenção mediática da competição era cada vez maior e daria ao então atleta desconhecido uma fama global sem paralelo. Se por estar tocado, se por Feola ainda não confiar no jovem de 17 anos, certo é que o herói desta trama só se estreou no último jogo da fase de grupos (juntamente com Garrincha). Jogo onde fez uma assistência e, segundo os relatos que chegam da época, deixou logo água na boca. Não mais saiu do onze inicial.

Futebol de ataque

O Brasil jogava num inovador 4-2-4 (na altura, a esmagadora maioria das equipas europeias atuava com 3 defesas) que lhe permitia estar um passo à frente dos adversários que terão sido dos mais equilibrados em qualquer edição do Mundial. Além da anfitrião Suécia que, com a sua melhor geração de sempre, chegou à final, havia ainda a França de Kopa e Fontaine (melhor marcador de sempre numa só edição da prova, com 13 golos em seis jogos), a reforçada Alemanha campeã em título ou um País de Gales também a deixar a sua marca.

Foi uma competição com recorde de golos marcados e onde, mesmo com todo o talento à sua volta, Pelé rapidamente se assumiu como um talento inédito. O menino de sorriso tímido encarregou-se de ludibrirar os defesas adversários rumo ao título que faltava ao seu país. Após ter marcado o único golo na vitória por 1-0 sobre os galeses, seguiu-se a França nas meias-finais, jogo encarado quase como uma final antecipada. Se dúvidas ainda havia sobre o nascimento de uma estrela, foi aqui que elas se dissiparam.

O Brasil saiu a ganhar 2-1 para a segunda parte num jogo muito equilibrado, até que o génio se soltou . Em 23 minutos, Pelé fez um hat-trick e apresentou-se ao mundo em todo o seu repertório de fintas e finalização.

Na final, restava a Suécia a jogar em casa e, não querendo repetir o trauma de 1950, os canarinhos procuraram evitar o ambiente festivo que os havia recebido dessa feita. Fechados na concentração, chegaram a colocar em causa a entrada em campo se houvesse cheerleaders como estava previsto, por exemplo. Pedido que foi aceite após alguma diplomacia.

Para não confundir com o equipamento amarelo da equipa que jogava em casa, a equipa teve que entrar em campo com camisolas azuis (que ainda hoje são o equipamento secundário do Brasil) compradas com a brevidade possível. Sem o seu recente amarelo talismânico, os canarinhos rapidamente se viram em desvantagem mas, também rapidamente, igualaram a contenda por intermédio de outro craque desta geração, Vavá, que bisou antes do intervalo para colocar o resultado em 2-1.

Mais uma vez, seria após o intervalo que Pelé se mostraria, desta feita com um bis que inclui um dos golos mais icónicos da sua carreira. Sem deixar cair a bola no chão, recebe de peito, passa a bola por cima do defesa e remata para o fundo das redes. Não admira que este lance tenha levado o público sueco a aplaudir de pé e Sigvard Parling a proferir a frase que abre este texto. O mundo nunca tinha visto nada assim.

No final, a vitória fixou-se nos 5-2, com a Taça Jules Rimet finalmente a ser levantada pelos brasileiros. Foi a primeira vez (e única) que uma seleção não europeia venceu a competição no Velho Continente e os festejos do outro lado do atlântico foram imensos.

Em Pelé, ainda hoje o mais jovem de sempre a marcar na final da prova, estava encontrado a bandeira da seleção que ganharia dois dos três mundiais seguintes e que passou a carreira a deslumbrar públicos como verdadeiro embaixador do futebol. Reinado do Rei que só começou em 1958.

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